A discussão sobre o futuro da inteligência artificial ganhou um novo protagonista. Em 20 de outubro de 2026, durante uma conferência na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, defendeu a criação de regras capazes de governar o desenvolvimento e a utilização dessa tecnologia.
A declaração, divulgada pelo Vatican News em 21 de outubro, apresenta uma dimensão que ultrapassa o debate tecnológico. Ao recorrer à encíclica Magnifica humanitas, de Leão XIV, Parolin sustentou que o direito deve preservar a justiça, a dignidade humana e a liberdade diante do crescente poder dos algoritmos.
A Igreja Católica não está apenas oferecendo uma reflexão espiritual sobre os riscos da inteligência artificial. Sua liderança está propondo princípios que deveriam orientar a elaboração de normas jurídicas, a atuação das instituições e a própria organização da sociedade tecnológica.
Essa passagem do aconselhamento moral para a influência legislativa constitui um fenômeno de especial interesse profético.
Quando a doutrina religiosa orienta a legislação civil
Em seu pronunciamento, Parolin apresentou diretrizes para a atividade dos juristas e diplomatas, fundamentadas na doutrina social católica. Entre elas estão a proteção dos vulneráveis, a promoção da justiça e a construção de instituições capazes de conter os abusos do poder tecnológico.
O cardeal também advertiu que a concentração de dados e sistemas de inteligência artificial nas mãos de grandes empresas pode comprometer a soberania dos Estados e a capacidade das instituições de proteger os cidadãos. Para enfrentar esse cenário, defendeu regras que submetam a tecnologia a princípios jurídicos e éticos.
Mas a questão profética surge em outro ponto: quem estabelecerá os fundamentos morais das leis que governarão essas atividades?
A resposta a essa pergunta poderá definir não apenas os limites da tecnologia, mas também a distribuição de autoridade entre governos, empresas, instituições internacionais e organizações religiosas.
Ao apresentar sua doutrina social como referência para a legislação, o Vaticano procura participar da construção desse novo ambiente jurídico.
O movimento não começou nesta semana. Em maio de 2026, Leão XIV aprovou a criação de uma comissão interdicasterial dedicada à inteligência artificial. Em setembro, Parolin levou o tema a debates internacionais, inclusive à Organização das Nações Unidas, defendendo uma governança tecnológica fundamentada na dignidade humana e em valores universais.
Apocalipse 13 e o poder de fazer leis
Na interpretação historicista adventista, Apocalipse 13 descreve a atuação de dois grandes poderes.
A primeira besta representa o sistema político-religioso papal, cuja trajetória histórica envolveu a associação entre autoridade eclesiástica e poder civil. A segunda besta, identificada com os Estados Unidos, desempenha papel decisivo na formação de uma futura estrutura de imposição religiosa.
O versículo 12 apresenta essa segunda potência exercendo sua autoridade em favor da primeira. Já os versículos 15 a 17 descrevem mecanismos de coerção que alcançam a consciência individual e até mesmo a participação econômica.
O ponto central dessa interpretação é a transformação da autoridade religiosa em exigência civil.
Ao longo da história, a relação entre Igreja e Estado assumiu diferentes formas. Em determinados períodos, princípios religiosos foram incorporados às legislações e sustentados por mecanismos de coerção estatal. A profecia historicista aponta para o reaparecimento dessa dinâmica em escala internacional, especialmente em torno da liberdade de consciência e da adoração.
Nesse cenário, a capacidade de influenciar a elaboração das leis torna-se tão importante quanto a capacidade de governar diretamente.
Uma instituição religiosa pode exercer influência sobre o Estado sem ocupar formalmente seus cargos. Basta que suas orientações sejam progressivamente acolhidas como fundamentos das decisões legislativas.
É justamente essa dimensão que torna relevante a atual participação do Vaticano nos debates sobre inteligência artificial.
A tecnologia como novo campo de convergência entre religião e Estado
A inteligência artificial apresenta uma particularidade: sua regulamentação tende a alcançar praticamente todos os setores da vida moderna.
Governos discutem como controlar algoritmos utilizados em sistemas financeiros, plataformas digitais, processos seletivos, serviços públicos e aplicações militares. Também enfrentam questões relacionadas à identidade digital, à proteção de dados e à responsabilização de empresas.
Quem influencia as regras desse ambiente participa, indiretamente, da definição das condições em que milhões de pessoas poderão trabalhar, comunicar-se e acessar oportunidades.
Em Apocalipse 13:16-17, a profecia descreve uma estrutura de autoridade capaz de condicionar até mesmo as atividades de comprar e vender.
A expansão das tecnologias digitais oferece uma perspectiva contemporânea para compreender como sistemas de autorização e controle econômico poderiam funcionar em grande escala.
O aspecto decisivo da profecia, porém, não é a existência da tecnologia. É a utilização do poder civil para impor exigências de natureza religiosa.
Por isso, a crescente presença do Vaticano nos debates legislativos merece ser acompanhada em conjunto com a evolução das relações entre religião e Estado.
A defesa de leis para proteger a sociedade dos riscos tecnológicos possui objetivos que também são compartilhados por instituições seculares. O elemento relevante para a análise historicista é observar como a influência religiosa sobre normas de interesse geral poderá evoluir e quais limites institucionais serão preservados.
Uma influência que ultrapassa as fronteiras de Roma
A encíclica Magnifica humanitas retoma uma estratégia histórica da doutrina social católica: apresentar respostas morais para transformações que afetam toda a sociedade.
No século XIX, Leão XIII abordou os conflitos sociais provocados pela industrialização na encíclica Rerum Novarum. Agora, Leão XIV procura posicionar o pensamento católico diante da revolução digital.
A comparação é significativa. Assim como a industrialização transformou as relações entre trabalhadores, empresas e governos, a inteligência artificial está alterando a própria estrutura do poder econômico e político.
O Vaticano identifica nesse processo uma oportunidade de contribuir para a definição dos princípios que orientarão a nova realidade.
E sua atuação acontece em um momento em que os Estados procuram mecanismos de coordenação internacional para enfrentar problemas que não respeitam fronteiras nacionais.
A combinação entre crises globais, necessidade de regulamentação e procura por referências morais pode ampliar o espaço das instituições religiosas na formulação de políticas públicas.
Para a interpretação historicista, essa convergência merece atenção porque a profecia apresenta precisamente um cenário no qual autoridade religiosa e poder político passam a atuar de maneira articulada.
O ponto decisivo será a autoridade sobre a consciência
A liberdade religiosa constitui um dos princípios fundamentais da mensagem profética adventista.
Em Apocalipse 14:6-12, o chamado à verdadeira adoração aparece em contraste com a autoridade coercitiva descrita no capítulo anterior. O conflito final envolve lealdade, consciência e a relação entre os mandamentos de Deus e as exigências humanas.
Nesse contexto, a pergunta fundamental não será apenas quais leis os governos poderão aprovar, mas até onde a autoridade civil poderá ser utilizada para transformar orientações religiosas em obrigações coletivas.
O pronunciamento de Pietro Parolin revela uma Igreja interessada em participar da elaboração dos princípios jurídicos que governarão uma das tecnologias mais importantes da história.
A inteligência artificial é o tema imediato. A relação entre autoridade moral, legislação e poder político é a questão mais profunda.
O Vaticano apresenta suas propostas em nome da justiça, da dignidade humana e da proteção contra abusos tecnológicos. A leitura profética convida a acompanhar como essa influência poderá se desenvolver à medida que governos busquem soluções para crises cada vez mais complexas.
Apocalipse 13 descreve um futuro em que o poder religioso encontrará instrumentos civis para fazer prevalecer sua autoridade. Por isso, acompanhar quem influencia as leis pode ser tão importante quanto acompanhar quem governa as nações.
Não é sobre prever eventos. É sobre entender o ambiente.
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