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domingo, 30 de agosto de 2026

Comprar e vender se torna uma questão de poder (2026.08.30)

O encontro do G20 desta semana revela uma transformação silenciosa: comércio, moeda e acesso ao sistema financeiro estão se tornando instrumentos cada vez mais poderosos de pressão entre as nações.

Há reuniões internacionais que produzem grandes declarações e poucas consequências. Outras parecem técnicas demais para despertar atenção fora dos círculos diplomáticos, embora revelem transformações muito mais profundas do que aquelas anunciadas em discursos presidenciais. É nesse segundo grupo que deve ser observado o encontro dos ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20, marcado para esta segunda e terça-feira em Asheville, na Carolina do Norte.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, chega à reunião tentando colocar sobre a mesa uma combinação incomum de temas. Washington pretende discutir os desequilíbrios do comércio mundial, pressionar por maior crescimento econômico e, ao mesmo tempo, convencer outras grandes economias a reduzir os canais financeiros e comerciais que ainda sustentam o Irã. O encontro acontece enquanto a guerra mantém o Estreito de Hormuz fechado, os preços de energia permanecem elevados, novas tarifas americanas atingem dezenas de economias e cresce a preocupação internacional com a própria dívida dos Estados Unidos e com os juros cobrados para financiá-la.

Separadamente, cada um desses acontecimentos poderia ser tratado como mais um capítulo da turbulência econômica mundial. Observados em conjunto, porém, eles revelam algo mais importante: a economia internacional está deixando de ser apenas o espaço no qual as nações produzem, compram, vendem e acumulam riqueza. Cada vez mais, ela também se transforma no território onde o poder político é exercido.

Sanções econômicas não são novidade. Bloqueios comerciais existem há séculos. O que mudou é a profundidade da interdependência.

Uma empresa pode estar localizada no Oriente Médio, vender mercadorias para a Ásia, utilizar um banco nos Emirados Árabes e, ainda assim, depender em algum momento de uma infraestrutura financeira ligada aos Estados Unidos. Foi exatamente essa vulnerabilidade que apareceu novamente nos últimos dias, quando o Tesouro americano determinou restrições às operações em dólar das filiais do banco egípcio Banque Misr nos Emirados Árabes Unidos, alegando transações relacionadas ao Irã. A reação foi imediata: o Banco Central dos Emirados anunciou uma investigação extraordinária sobre essas operações.

Não é necessário entrar no mérito das acusações para perceber o significado estrutural do episódio. A verdadeira força de uma sanção contemporânea não está apenas em impedir que dois países negociem diretamente. Está na possibilidade de atingir intermediários, instituições financeiras, empresas transportadoras e parceiros comerciais que precisam permanecer conectados a uma rede econômica muito maior.

É nesse ponto que a notícia deixa de tratar apenas do Irã.

O sistema financeiro construído nas últimas décadas criou um nível de integração sem precedentes. Mercadorias atravessam oceanos enquanto pagamentos atravessam fronteiras em segundos. Bancos dependem de correspondentes internacionais. Empresas precisam acessar sistemas de compensação, crédito, seguros e moedas aceitas globalmente. Cadeias produtivas espalham a fabricação de um único produto por vários países. Nenhuma grande economia moderna existe verdadeiramente isolada.

Essa integração produziu enorme prosperidade. Produziu também uma nova forma de vulnerabilidade.

Quanto mais indispensável se torna participar do sistema, maior se torna o poder de quem consegue restringir essa participação.

É por isso que as discussões desta semana merecem atenção muito além de seus efeitos imediatos sobre petróleo, inflação ou taxas de juros. O mundo está aprendendo, diante de nossos olhos, que controlar fluxos financeiros pode produzir efeitos que anteriormente exigiriam navios de guerra, bloqueios físicos ou ocupação territorial.

O poder econômico está adquirindo características de poder coercitivo.

É impossível observar essa transformação sem recordar uma das passagens mais inquietantes do Apocalipse. Ao descrever a crise final da história, João apresenta uma estrutura de autoridade capaz de alcançar algo extraordinariamente específico: chegará um momento em que ninguém poderá “comprar ou vender” sem se submeter às condições impostas pelo sistema dominante.

A prudência é indispensável aqui.

As sanções contra o Irã não são a marca da besta. O G20 não é o cumprimento de Apocalipse 13. Uma instituição financeira impedida de operar em dólares não significa que a profecia esteja sendo realizada diante de nós. Transformar cada inovação econômica ou cada crise internacional em cumprimento profético empobrece a própria profecia e substitui discernimento por ansiedade.

Mas existe outra pergunta, muito mais séria.

Que tipo de mundo precisaria existir para que a capacidade de comprar e vender pudesse realmente ser condicionada em larga escala?

Durante grande parte da história, a própria ideia pareceria operacionalmente quase impossível. Mercados eram locais. Moedas circulavam fisicamente. Transações podiam ocorrer sem registros centralizados. Fronteiras econômicas eram relativamente fragmentadas e nenhum sistema possuía alcance suficiente para acompanhar ou condicionar de maneira ampla a participação econômica dos indivíduos.

O mundo contemporâneo caminha na direção oposta.

Não porque exista necessariamente um plano coordenado para produzir aquilo que o Apocalipse descreveu, mas porque eficiência, segurança, combate à fraude, sanções, conveniência e integração financeira estão conduzindo as sociedades para sistemas cada vez mais interdependentes e administráveis.

E talvez seja exatamente aqui que esteja uma das grandes lições proféticas do nosso tempo.

Profecia não precisa ser observada apenas procurando acontecimentos espetaculares. Algumas das transformações mais importantes acontecem silenciosamente, quando estruturas antes inimagináveis passam primeiro a ser possíveis, depois convenientes e finalmente normais.

Há outra imagem bíblica que ajuda a compreender esse paradoxo. Daniel descreveu a última configuração do mundo político representada pelos pés da grande estátua como uma mistura de ferro e barro: elementos que coexistiriam, mas não conseguiriam aderir plenamente um ao outro. É difícil não perceber uma semelhança de princípio com a ordem internacional contemporânea.

Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão evidente a dificuldade de permanecer unidos.

Estados Unidos e China competem enquanto continuam economicamente ligados. A Europa depende de estruturas financeiras transatlânticas enquanto demonstra crescente preocupação com decisões unilaterais de Washington. Países que necessitam do comércio global levantam novas barreiras para proteger suas economias. Governos defendem integração enquanto reorganizam cadeias produtivas por razões de segurança nacional.

Misturam-se, mas não aderem.

O próprio G20 é quase uma representação institucional dessa contradição. Reúne as maiores economias do planeta porque nenhuma delas consegue administrar sozinha os problemas de uma economia globalizada, mas frequentemente encontra enormes dificuldades para produzir consenso justamente porque seus interesses estratégicos divergem.

O ferro continua forte. O barro continua frágil.

É dentro desse ambiente que a dimensão econômica da profecia bíblica começa a adquirir uma inteligibilidade que gerações anteriores dificilmente poderiam experimentar. Não porque possamos apontar para uma instituição contemporânea e declarar que encontramos o cumprimento final, mas porque começamos a compreender como poder político, infraestrutura econômica e capacidade tecnológica podem convergir.

Ainda falta um elemento decisivo.

Apocalipse 13 não descreve simplesmente coerção econômica. A economia aparece como instrumento de uma crise muito mais profunda, relacionada à autoridade, consciência e adoração. O conflito final não será fundamentalmente sobre dinheiro. Será sobre lealdade.

É justamente por isso que devemos resistir à tentação de transformar qualquer mecanismo financeiro contemporâneo na própria profecia. O cenário bíblico é mais amplo. Ele descreve um momento em que poder político, influência religiosa e capacidade econômica convergem de maneira extraordinária, colocando a consciência humana diante de uma escolha.

O que nosso tempo oferece não é necessariamente o evento.

Oferece o ambiente.

A reunião de Asheville terminará. Ministros retornarão aos seus países. Tarifas poderão mudar, sanções poderão ser ampliadas ou suspensas, guerras eventualmente terminarão e outras crises ocuparão as manchetes. Nada disso deveria nos levar a estabelecer calendários proféticos.

Mas algumas transformações permanecem depois que as notícias desaparecem.

O mundo está construindo sistemas econômicos cada vez mais integrados. A tecnologia está tornando transações cada vez mais identificáveis. A dependência de infraestruturas financeiras internacionais aumenta o poder daqueles que conseguem controlar seu acesso. E crises sucessivas estão ensinando governos a utilizar essas estruturas não apenas para administrar economias, mas para modificar comportamentos.

Talvez seja essa a observação que realmente importa.

A profecia não nos foi entregue para satisfazer nossa curiosidade sobre o futuro, mas para impedir que sejamos surpreendidos pelo caráter do mundo quando esse futuro chegar.

Por isso, diante das reuniões do G20 desta semana, a pergunta mais importante talvez não seja o que acontecerá com o Irã, quanto custará o barril de petróleo ou qual será a próxima tarifa americana.

A pergunta é outra.

Estamos percebendo o tipo de mundo que está sendo construído enquanto discutimos apenas as notícias que ele produz?

Porque os acontecimentos passam.

As estruturas permanecem.

E compreender a profecia nunca foi apenas antecipar o próximo acontecimento.

É aprender a reconhecer o ambiente.

Leão XIV, Bill Gates, Sam Altman e a nova linguagem do medo (2026.08.28)

Quando o papa americano, os principais líderes da tecnologia, bilionários e grandes potências começam a falar da mesma ameaça, talvez a questão mais importante não seja descobrir uma conspiração, mas compreender que tipo de arquitetura pode estar sendo construída a partir dessa convergência

Há uma mudança de linguagem acontecendo diante de nós, e talvez ainda não tenhamos percebido toda a sua importância. Durante anos, a inteligência artificial foi apresentada quase sempre como promessa: produtividade, medicina, automação, descoberta científica, personalização, velocidade, eficiência. Os riscos existiam, evidentemente, mas ocupavam uma posição secundária diante do entusiasmo. Em 2026, porém, essa narrativa começou a mudar de maneira muito mais visível. A IA deixou de ser apenas uma ferramenta revolucionária e passou a ser descrita por algumas das figuras mais influentes do planeta como um problema potencialmente civilizacional, capaz de afetar empregos, segurança, guerra, biologia, informação, economia, liberdade e até a própria definição do que significa permanecer humano numa sociedade profundamente automatizada. O aspecto mais interessante dessa mudança não está no fato de uma ou outra pessoa ter demonstrado preocupação, mas na sucessão das vozes que passaram a dizer coisas semelhantes e no peso político, econômico, tecnológico e religioso que essas vozes carregam.

Nesse circuito contemporâneo, um personagem merece ser colocado no início da sequência: Leão XIV. O primeiro papa norte-americano não tratou a inteligência artificial como um detalhe periférico do pontificado. Ao contrário, colocou o tema no centro de uma reflexão sobre poder, dignidade humana, trabalho, moralidade e concentração tecnológica. Em maio de 2026, o Vaticano criou uma comissão específica para tratar de inteligência artificial e Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanitas, na qual advertiu que tecnologias dessa magnitude podem ampliar o poder justamente daqueles que já possuem recursos, dados, infraestrutura e influência, permitindo que pequenos grupos condicionem processos sociais, econômicos e políticos de maneiras difíceis de perceber. O papa chamou atenção para uma questão particularmente relevante: sistemas artificiais não são moralmente neutros, porque refletem escolhas, valores e critérios daqueles que os constroem, treinam e controlam. Quando uma sociedade transfere cada vez mais decisões para sistemas dessa natureza, não está apenas entregando tarefas a máquinas; está permitindo que determinadas concepções de mundo sejam incorporadas à infraestrutura que organizará a vida cotidiana.

Pouco depois, o mesmo universo de preocupações apareceu com força crescente entre alguns dos homens mais poderosos da tecnologia. Bill Gates passou a falar abertamente sobre riscos de bioterrorismo, ataques cibernéticos, substituição de empregos e dependência psicológica, defendendo inclusive mecanismos internacionais de supervisão e manifestando intenção de discutir o assunto diretamente com Xi Jinping. Sam Altman, por sua vez, há muito adverte que sistemas futuros poderão adquirir capacidades extraordinárias e reconhece o risco de que a resposta social ao medo da IA termine concentrando poder em poucas empresas ou poucas instituições. Dario Amodei, da Anthropic, Demis Hassabis, da DeepMind, e outros dirigentes do setor também passaram a empregar uma linguagem mais grave, enquanto governos, empresas e organizações internacionais aceleram discussões sobre padrões de segurança, certificação, avaliação de risco e governança global.

É justamente essa sequência que merece atenção. Não porque demonstre que exista um roteiro secreto compartilhado entre o Vaticano, Gates, Altman, Xi e as grandes empresas de tecnologia. Não existe evidência que permita afirmar isso. Mas a ausência de uma conspiração formal não elimina a possibilidade de uma convergência estrutural. Na verdade, pode ser exatamente o contrário: grandes mudanças históricas frequentemente não surgem porque meia dúzia de pessoas se reúne numa sala para desenhar tudo previamente, mas porque grupos distintos começam a perceber o mesmo problema, aproximam-se de soluções parecidas e descobrem que seus interesses, embora diferentes, podem ser atendidos dentro de uma mesma arquitetura. O Vaticano deseja proteger dignidade, trabalho e liberdade diante de sistemas cada vez mais poderosos; Gates teme riscos catastróficos e busca coordenação internacional; Altman precisa demonstrar que a tecnologia pode avançar sem escapar ao controle; governos pensam em segurança nacional, ciberataques e competição estratégica; empresas querem previsibilidade regulatória; a China deseja participar da definição das regras do futuro em vez de simplesmente aceitar regras produzidas pelo Ocidente. Ninguém precisa desejar exatamente a mesma coisa para que todos acabem contribuindo para a construção de um mesmo sistema.

Talvez essa seja a forma mais realista de compreender o que chamamos de “ajuste de bastidores”. Não necessariamente um acordo secreto, mas um processo de alinhamento progressivo entre atores muito poderosos, todos convencidos de que a inteligência artificial exige mecanismos excepcionais de governança. Quando o diagnóstico se torna comum, a discussão muda naturalmente para a solução. Quem poderá desenvolver determinados modelos? Quais capacidades serão consideradas perigosas? Quem terá autoridade para interromper um sistema? Como identificar agentes artificiais? Como fiscalizar centros de dados? Como restringir o uso de chips avançados? Como impedir que determinadas ferramentas sejam utilizadas para produzir agentes biológicos, invadir infraestruturas ou automatizar ataques? Como estabelecer padrões morais e técnicos que atravessem fronteiras nacionais? A partir desse ponto, surge inevitavelmente a necessidade de instituições, certificações, auditorias, registros, sistemas de identificação e mecanismos de controle. Cada peça pode ser justificada por uma ameaça real e cada medida pode parecer razoável quando analisada isoladamente. O problema aparece quando observamos o conjunto.

Esse talvez seja o ponto mais sensível de toda a discussão. O medo possui uma enorme capacidade de reorganizar a política. Populações normalmente resistem à concentração de poder quando se sentem seguras, mas aceitam medidas excepcionais quando acreditam que existe uma ameaça capaz de atingir suas famílias, seus empregos, suas economias ou sua própria sobrevivência. A inteligência artificial reúne praticamente todas essas possibilidades numa única narrativa: desemprego estrutural, manipulação política, colapso informacional, ataques cibernéticos, armas autônomas, fraudes em escala industrial, criação de agentes biológicos, dependência psicológica e perda de controle sobre sistemas mais inteligentes do que seus operadores. Alguns desses riscos são perfeitamente reais e merecem ser tratados com seriedade. É justamente por isso que a resposta política poderá receber apoio social tão amplo. A questão não é negar o perigo, mas perguntar quanto poder será considerado aceitável entregar àqueles que prometerem administrá-lo.

Leão XIV parece compreender parte desse paradoxo quando adverte contra a concentração tecnológica nas mãos de poucos. O problema é que a solução para impedir uma concentração privada pode produzir uma concentração regulatória ainda maior. Se apenas algumas empresas forem consideradas suficientemente seguras para desenvolver modelos de fronteira, essas mesmas empresas poderão consolidar uma posição quase impossível de desafiar. Se somente algumas instituições internacionais tiverem autoridade para certificar tecnologias, elas poderão adquirir influência extraordinária sobre inovação, informação e economia. Se governos exigirem sistemas de identificação e rastreamento para impedir usos perigosos, poderão criar uma infraestrutura técnica que depois servirá a finalidades muito mais amplas. Se Estados Unidos e China concluírem que determinadas capacidades precisam ser controladas conjuntamente, poderemos assistir ao surgimento de padrões globais capazes de atravessar sistemas políticos completamente diferentes. Nada disso precisa ser construído com intenções malignas para produzir consequências profundas.

É por isso que a presença da China nessa discussão é especialmente importante. Bill Gates falar em levar suas propostas diretamente a Xi Jinping mostra que qualquer arquitetura realmente global de governança da IA dependerá, em algum momento, de algum nível de entendimento entre Washington e Pequim. A China já propõe estruturas internacionais de cooperação e governança e possui uma capacidade tecnológica suficientemente grande para tornar ineficaz qualquer sistema do qual permaneça completamente excluída. Ao mesmo tempo, é um Estado de partido único, com um histórico de vigilância, controle informacional e intervenção governamental que difere profundamente das tradições liberais ocidentais. Isso cria uma contradição difícil de ignorar: para controlar uma tecnologia que pode ameaçar a liberdade, talvez o Ocidente precise negociar os parâmetros de controle com um regime que possui uma concepção muito mais ampla de autoridade estatal sobre o indivíduo.

O fato de o atual papa ser norte-americano acrescenta uma dimensão histórica particularmente interessante a essa configuração. Leão XIV não representa o governo dos Estados Unidos, e o Vaticano é uma instituição independente, mas não deixa de ser incomum que o primeiro papa americano esteja colocando a inteligência artificial no centro de sua agenda justamente quando as empresas que lideram a revolução tecnológica também são majoritariamente americanas. OpenAI, Google, Anthropic, Microsoft, Meta, Nvidia e grande parte da infraestrutura crítica da IA estão vinculadas ao ecossistema tecnológico dos Estados Unidos. Gates é americano. Altman é americano. Os chips mais avançados do mundo dependem de cadeias industriais fortemente condicionadas pela política tecnológica americana. E agora a maior liderança religiosa cristã do planeta também emerge do mesmo espaço cultural e nacional. Isso não prova coordenação, mas cria uma concentração histórica incomum de influência tecnológica, econômica, geopolítica e religiosa dentro de uma mesma matriz ocidental.

Para quem acompanha a leitura historicista adventista de Apocalipse 13, esse cenário naturalmente merece atenção, embora seja necessário evitar qualquer simplificação. A inteligência artificial não é a marca da besta, Bill Gates não é um personagem identificado pela profecia, Sam Altman não ocupa um papel bíblico específico e Leão XIV não deve ser transformado arbitrariamente em símbolo apenas porque é papa. A profecia fala de sistemas de poder, alianças, coerção, economia e adoração, não de tecnologias determinadas pelo nome. Entretanto, seria difícil negar que nossa geração está construindo uma infraestrutura que torna tecnicamente compreensíveis formas de controle que, durante séculos, pareciam quase impossíveis. Identificação digital, reconhecimento facial, análise comportamental, bancos de dados integrados, moedas digitais, sistemas de inteligência artificial, monitoramento em tempo real e redes financeiras capazes de excluir indivíduos ou países já existem ou estão em desenvolvimento. A profecia não exige que esses instrumentos sejam utilizados no desfecho final, mas o mundo moderno demonstra que a capacidade técnica para coordenação em escala global está se tornando cada vez menos abstrata.

Talvez seja esse o ponto em que a sequência Leão XIV, Gates, Altman, outros líderes tecnológicos, China e organismos internacionais se torna realmente importante. Não porque prove uma agenda secreta, mas porque revela uma mudança no centro da conversa mundial. A discussão já não é apenas sobre o que a inteligência artificial consegue fazer. É sobre quem terá autoridade para definir seus limites. E quando diferentes centros de poder começam a concordar que uma tecnologia precisa ser controlada, surge naturalmente uma segunda camada de poder: aquela exercida por quem controla os controladores. Essa camada pode incluir governos, empresas, organizações internacionais, especialistas, líderes religiosos e instituições multilaterais, cada qual oferecendo uma justificativa específica para sua participação. O Vaticano oferece legitimidade moral e uma linguagem de dignidade humana; as empresas oferecem conhecimento técnico; os governos oferecem poder jurídico; bilionários oferecem influência e acesso; a China oferece alcance geopolítico; organismos internacionais oferecem estruturas de coordenação. Nenhum desses atores precisa comandar todo o processo para que, ao final, exista uma arquitetura extremamente poderosa.

A história mostra que sistemas assim frequentemente nascem dessa maneira. Uma crise cria a necessidade de uma solução. A solução exige coordenação. A coordenação cria instituições. As instituições acumulam competências. Essas competências passam a ser consideradas normais. O que começou como resposta a um risco específico torna-se infraestrutura permanente. Não é necessário supor que alguém tenha planejado todas as etapas desde o início. Basta que cada nova etapa pareça razoável diante da anterior.

É exatamente por isso que o cristão deveria observar essa convergência com discernimento e sem paranoia. O perigo não está em acreditar que todos estejam secretamente combinados, mas em não perceber que interesses diferentes podem produzir juntos uma estrutura que nenhum deles conseguiria criar sozinho. Gates pode estar sinceramente preocupado com bioterrorismo. Altman pode estar genuinamente alarmado com sistemas futuros. Leão XIV pode estar sinceramente defendendo a dignidade humana. Governos podem estar tentando evitar ataques cibernéticos. A China pode estar procurando previsibilidade estratégica. Todas essas motivações podem ser verdadeiras e ainda assim contribuir para a construção de uma arquitetura altamente concentradora.

Talvez, portanto, a pergunta mais relevante não seja quem começou a falar de medo ou quem repetiu a preocupação de quem. O papa americano, os bilionários, os criadores da tecnologia e as grandes potências já estão inseridos na mesma discussão. O que devemos observar agora é o processo pelo qual esse diagnóstico comum será convertido em instituições, normas, sistemas de identificação, critérios de autorização e mecanismos de fiscalização. Porque talvez o aspecto profeticamente mais significativo não esteja na inteligência artificial em si, mas naquilo que a humanidade aceitará construir para administrá-la.

A ameaça pode ser real. As intenções podem ser sinceras. As soluções podem parecer necessárias. E ainda assim o resultado pode concentrar poder em níveis jamais vistos.

Por isso a pergunta decisiva talvez não seja simplesmente quem controlará a inteligência artificial. Talvez seja outra, muito mais profunda: quem controlará a estrutura criada para controlá-la?

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O mundo é um grande teatro — e quase nunca vemos os bastidores (2026.08.26)

Enquanto soldados morrem e populações acompanham discursos públicos, as peças decisivas da história muitas vezes são movimentadas em salas às quais quase ninguém tem acesso

Na terça-feira, 25 de agosto, um enorme C-17 Globemaster americano pousou em Moscou. Horas depois, tornou-se conhecido o passageiro que teria motivado aquele deslocamento extraordinário: John Ratcliffe, diretor da CIA. Nesta quarta-feira, o Kremlin confirmou que o chefe da inteligência americana manteve conversações com representantes dos serviços de inteligência russos. Não se encontrou com Vladimir Putin, segundo Moscou, mas Putin foi informado sobre o resultado das conversas. Sobre aquilo que efetivamente foi discutido, praticamente nada foi revelado. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, recusou-se a fornecer detalhes, e a própria CIA havia se recusado a comentar a viagem. (reuters.com)

Só isso já seria suficientemente extraordinário. Estamos falando do chefe da principal agência de inteligência dos Estados Unidos viajando à capital do país que Washington passou anos tratando como um dos maiores adversários estratégicos do Ocidente, enquanto a guerra da Ucrânia continua produzindo mortos, ataques e mobilizações militares. Mais significativo ainda: na semana anterior à viagem, os Estados Unidos pediram à Ucrânia que evitasse ataques aéreos sobre Moscou, São Petersburgo e algumas regiões do norte da Rússia durante segunda, terça e quarta-feira porque uma aeronave transportando uma alta autoridade americana estaria voando para a capital russa. (reuters.com) Em outras palavras, enquanto o cidadão comum acompanhava aquilo que aparecia nas manchetes sobre o confronto entre Rússia, Ucrânia e Ocidente, alguma coisa suficientemente importante estava sendo preparada nos bastidores para que Washington pedisse uma modificação temporária no comportamento militar ucraniano.

É importante estabelecer desde o início o limite entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas podemos imaginar. Sabemos que Ratcliffe esteve em Moscou; sabemos agora que conversou com representantes da inteligência russa; sabemos que Putin recebeu informações sobre o resultado; sabemos que Washington procurou reduzir determinados riscos durante o deslocamento. Não sabemos o conteúdo das conversas. Qualquer afirmação de que ali foi decidido o destino da Ucrânia, negociado algum grande acordo secreto ou desenhado determinado rearranjo mundial seria especulação. Mas talvez o aspecto mais perturbador da notícia esteja exatamente nisso: não sabemos. E quase nunca sabemos.

Existe uma ingenuidade inevitável na maneira como o cidadão comum enxerga a política internacional. Assistimos aos discursos presidenciais, acompanhamos coletivas, vemos reuniões diplomáticas diante de bandeiras cuidadosamente posicionadas e recebemos diariamente uma narrativa relativamente organizada sobre aliados, inimigos, objetivos e princípios. A impressão é de que estamos assistindo à história enquanto ela acontece. Entretanto, episódios como a viagem do diretor da CIA a Moscou revelam que aquilo que chamamos de “história acontecendo” pode ser apenas a parte iluminada de um palco muito maior. Atrás das cortinas existem serviços de inteligência, canais reservados entre governos, conversações militares, negociações econômicas, intermediários, empresários, diplomatas e enviados especiais discutindo assuntos que talvez só sejam conhecidos pelo público anos depois — se algum dia forem.

Talvez por isso a imagem do teatro seja tão adequada. Não no sentido simplista de afirmar que tudo aquilo que vemos seja falso. As guerras são reais. Os mortos são reais. As bombas são reais. A destruição da Ucrânia é real, assim como são reais os interesses russos, americanos e europeus. O teatro está em outra dimensão: nós vemos principalmente aquilo que acontece no palco, enquanto decisões capazes de modificar o próprio roteiro podem estar sendo tomadas atrás dele.

Enquanto o palco mostra guerra, os bastidores continuam conversando

O contraste da viagem de Ratcliffe é especialmente poderoso porque ocorre num momento em que a guerra está longe de parecer resolvida. Zelensky afirmou há poucos dias que Moscou estaria preparando o recrutamento de mais 300 mil soldados depois das eleições parlamentares russas de setembro, enquanto as forças russas continuam pressionando no Donbas. (reuters.com) Ao mesmo tempo, autoridades russas dizem estar dispostas a ouvir novas propostas americanas para a paz, desde que elas reconheçam aquilo que Moscou chama de “realidades no terreno”. A Rússia ocupa aproximadamente um quinto do território internacionalmente reconhecido da Ucrânia, e as negociações formais permanecem praticamente paralisadas. (reuters.com)

Diante das câmeras, portanto, existe guerra. Atrás delas, existe conversa.

Essa aparente contradição não é novidade. Governos adversários sempre mantiveram canais reservados, inclusive em momentos de enorme hostilidade. Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética precisaram conversar precisamente porque possuíam capacidade de destruir um ao outro. Serviços de inteligência frequentemente desempenham funções diplomáticas justamente porque conseguem operar onde a diplomacia pública não consegue. Seria equivocado interpretar a reunião entre CIA e inteligência russa como prova de alguma conspiração comum.

Mas existe outra conclusão perfeitamente legítima: as relações reais entre as grandes potências são muito mais complexas do que a narrativa binária oferecida diariamente às suas populações. Adversários podem combater numa frente e negociar em outra. Podem impor sanções pela manhã e conversar secretamente à noite. Podem condenar publicamente determinado governo enquanto procuram discretamente uma acomodação. Podem financiar aliados e, simultaneamente, estabelecer limites para aquilo que esses mesmos aliados podem fazer. O tabuleiro geopolítico não é uma história infantil dividida entre personagens absolutamente bons e absolutamente maus; é uma disputa permanente de interesses, sobrevivência, território, recursos e poder.

E isso nos conduz a uma realidade que deveria produzir humildade em qualquer pessoa que acompanha política: sabemos muito menos do que imaginamos saber.

Poucos movimentam peças que representam milhões

Quando olhamos um mapa da Ucrânia, vemos linhas de frente. Para quem está numa sala de comando, aquelas linhas representam posições militares, corredores logísticos, recursos naturais, profundidade estratégica e capacidade de negociação. Para quem vive naquela linha, entretanto, ela pode representar sua casa.

Essa diferença de perspectiva talvez seja uma das realidades mais duras do poder. Uma decisão tomada por algumas dezenas de pessoas numa sala protegida pode determinar se dezenas de milhares serão mobilizados, se determinada cidade será defendida ou abandonada, se sanções destruirão uma indústria, se preços de alimentos subirão do outro lado do planeta ou se uma guerra continuará por mais seis meses. Quanto maior o poder concentrado no topo, maior a distância entre quem movimenta a peça e quem descobre que era a peça.

É assim desde os antigos impérios. Reis discutiam fronteiras enquanto camponeses forneciam os filhos para os exércitos. Imperadores assinavam tratados enquanto populações inteiras mudavam de soberania. Governantes declaravam guerras que seriam travadas por homens que jamais haviam conhecido. A modernidade democratizou parte desse processo e tornou governos muito mais fiscalizáveis, mas não eliminou a estrutura fundamental do poder. Existem decisões que continuam restritas a círculos minúsculos porque envolvem inteligência, segurança nacional, guerra e negociações sensíveis.

A tecnologia talvez esteja tornando esse fenômeno ainda mais concentrado. Um grupo extremamente pequeno de pessoas pode hoje movimentar mercados com uma declaração, interromper transações financeiras através de sanções, direcionar satélites, controlar sistemas de inteligência, coordenar drones, bloquear tecnologias, acompanhar deslocamentos quase em tempo real e conversar diretamente com os dirigentes das maiores potências. Nunca tantos seres humanos estiveram conectados à informação; paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão grande a diferença entre ter informação e ter acesso ao lugar onde decisões são tomadas.

O cidadão possui milhões de notícias na palma da mão. Isso pode produzir a sensação de que conhece o mundo. Mas informação pública e conhecimento do poder são coisas muito diferentes.

A política que vemos e a política que existe

A viagem do chefe da CIA ajuda a perceber essa diferença. Em 2021, William Burns, então diretor da agência, também esteve em Moscou e conversou inclusive por telefone com Putin. Três meses depois, a Rússia invadiu a Ucrânia. A visita de Burns não demonstra que Washington soubesse exatamente o que aconteceria nem que qualquer decisão secreta comum tivesse sido tomada; pelo contrário, os Estados Unidos vinham alertando publicamente sobre a preparação militar russa. Mas o episódio mostra que, antes de um dos acontecimentos geopolíticos mais importantes deste século explodir diante das câmeras, conversações reservadas já estavam ocorrendo entre os centros de poder.

Agora outro diretor da CIA retorna a Moscou pela primeira vez desde então. (reuters.com) Talvez daqui a algumas semanas entendamos o motivo. Talvez daqui a alguns anos documentos revelem detalhes que hoje desconhecemos. Talvez a reunião produza pouco ou nada. O ponto permanece: uma parte importante da história acontece antes que saibamos que ela aconteceu.

É por isso que devemos resistir tanto à credulidade quanto à paranoia. Credulidade é acreditar que tudo aquilo que governos dizem publicamente representa integralmente aquilo que fazem privadamente. Paranoia é concluir que, porque existem reuniões reservadas, tudo está combinado e todas as guerras são encenações. As duas posições são intelectualmente confortáveis porque eliminam a complexidade. A realidade é muito mais difícil: existem conflitos genuínos e negociações secretas simultaneamente; existem interesses nacionais verdadeiramente incompatíveis e acordos temporários; existem adversários que precisam conversar precisamente porque são adversários.

O mundo não é um teatro porque nada seja real. É um teatro porque o público raramente enxerga os bastidores.

A Bíblia nunca foi ingênua sobre o poder

Talvez seja exatamente nesse ponto que a cosmovisão bíblica se distancie profundamente da confiança moderna nas estruturas humanas. A Escritura nunca apresenta impérios simplesmente como administrações neutras. Daniel vê aquilo que os homens chamariam de grandes reinos e os contempla simbolicamente como bestas. Apocalipse utiliza linguagem semelhante. Não porque toda autoridade política seja necessariamente demoníaca — Romanos 13 reconhece uma função legítima para o governo —, mas porque a Bíblia compreende que poder humano sem limites possui enorme capacidade de se afastar de sua finalidade original.

Daniel 2 talvez ofereça uma das imagens mais extraordinárias dessa realidade. Nabucodonosor vê uma estátua magnífica: ouro, prata, bronze e ferro. É a perspectiva imperial da história — grandiosa, monumental, brilhante. Quando Daniel 7 revisita essencialmente a mesma sucessão de poderes, entretanto, a imagem muda. Agora aparecem animais ferozes emergindo de um mar agitado. É quase como se Deus mostrasse duas perspectivas sobre a mesma realidade: o império visto do palácio e o império visto do Céu.

Isso deveria nos ensinar cautela diante de toda narrativa produzida pelo poder.

Governos sempre apresentam suas ações utilizando palavras nobres. Segurança, estabilidade, democracia, soberania, paz, prosperidade, ordem, civilização. Algumas vezes essas palavras correspondem genuinamente aos objetivos perseguidos. Outras vezes escondem interesses menos nobres. Frequentemente as duas coisas coexistem. A Bíblia não nos autoriza a concluir automaticamente que todo governante mente, mas também não nos permite transformar qualquer império humano em objeto de confiança absoluta.

O salmista foi direto: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Salmo 146:3).

Talvez esse verso tenha adquirido uma atualidade extraordinária numa época em que conhecemos o rosto dos governantes, assistimos aos seus discursos ao vivo e acompanhamos suas publicações em tempo real. A proximidade tecnológica cria uma ilusão de proximidade política. Parece que conhecemos aqueles homens porque os vemos diariamente. Mas não estamos nas reuniões reservadas. Não lemos os relatórios de inteligência que eles recebem. Não conhecemos todas as pressões econômicas às quais respondem. Não sabemos todas as conversas realizadas antes de uma decisão.

Vemos o palco.

O grande tabuleiro da história

Há também uma dimensão profética particularmente importante nisso. Apocalipse apresenta o fechamento da história como uma convergência extraordinária de poderes políticos, econômicos e religiosos. Reis tomam decisões, poderes se associam, autoridades são entregues, comércio é afetado, populações são persuadidas e finalmente a questão chega à adoração. Quando lemos essas passagens, existe a tentação de imaginar que veremos cada etapa acontecendo claramente diante de nós, como se o cumprimento profético viesse acompanhado de legendas explicativas.

A história raramente funciona dessa maneira.

As pessoas que viveram durante a ascensão de Roma não acordaram certa manhã dizendo: “Daniel 7 está se cumprindo hoje”. Assistiram a guerras, alianças, traições, tratados, casamentos políticos, crises econômicas e movimentos militares. Somente quando observamos o processo a distância conseguimos perceber o desenho maior.

Talvez aconteça algo semelhante conosco.

Vemos Trump redesenhando a política externa americana. Vemos Rússia e China procurando espaços próprios. Vemos guerras reorganizando alianças. Vemos tecnologia concentrando capacidade de vigilância e controle. Vemos bilionários conversando diretamente com chefes de Estado sobre regras globais. Vemos organismos internacionais propondo coordenação para problemas que nenhum país consegue resolver sozinho. Vemos sistemas financeiros capazes de excluir indivíduos, empresas ou países. E agora vemos o diretor da CIA entrando discretamente em Moscou enquanto uma guerra continua do lado de fora.

Cada acontecimento possui sua própria explicação.

Mas quem pode afirmar conhecer completamente a relação entre todas as peças?

É aqui que precisamos estabelecer uma fronteira importante entre discernimento profético e teoria conspiratória. O cristão não precisa inventar um governo secreto mundial para reconhecer que poder existe e que grande parte dele é exercida fora de sua visão. Não precisa acreditar que Putin, Trump, Xi e outros líderes estejam secretamente aliados para compreender que conversam, negociam e calculam interesses que o público desconhece. Não precisa imaginar que todas as guerras sejam encenadas para perceber que pessoas extremamente poderosas podem decidir aspectos fundamentais dessas guerras em ambientes completamente fechados.

O mistério não precisa ser inventado.

Ele já existe.

Não sabemos o que Ratcliffe discutiu em Moscou. O Kremlin confirmou a conversa e recusou-se a dizer o conteúdo. Essa simples frase deveria ser suficiente para nos lembrar de quanto da história permanece fora de nossa visão. (reuters.com)

Mas existe alguém que vê os bastidores

É justamente aqui que a reflexão cristã deixa de produzir ansiedade e encontra seu verdadeiro centro. Se terminássemos concluindo apenas que homens poderosos controlam o mundo secretamente, teríamos produzido medo, não esperança. A mensagem bíblica é exatamente o contrário: os bastidores existem para nós, não para Deus.

Nabucodonosor acreditava controlar o império. Ciro movimentava exércitos segundo seus interesses. Alexandre conquistava territórios procurando sua própria glória. Roma expandia fronteiras porque desejava poder. Entretanto, séculos antes, Daniel já havia recebido uma visão da sequência geral daqueles impérios. Os reis movimentavam as peças sem perceber que eles próprios também estavam dentro de um tabuleiro muito maior.

Essa talvez seja a resposta bíblica mais poderosa à sensação de que poucos homens controlam muitos.

Sim, círculos restritos de poder existem. Sim, decisões capazes de afetar milhões são tomadas longe do conhecimento público. Sim, interesses econômicos, militares e políticos frequentemente são muito mais complexos do que aquilo que aparece nas manchetes. E sim, provavelmente conheceremos apenas uma pequena parcela daquilo que está sendo discutido hoje entre Washington, Moscou, Pequim e outros centros de poder.

Mas existe uma diferença fundamental entre dizer que homens controlam outros homens e concluir que homens controlam a história.

A Bíblia rejeita a segunda afirmação.

“Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis; Ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com Ele mora a luz.”
Daniel 2:21-22.

Talvez nenhum texto seja mais apropriado para este momento. Aquilo que está escondido para nós não está escondido para Deus. A reunião cuja pauta não conhecemos, a negociação que ainda não foi revelada, o acordo que talvez esteja sendo construído, o cálculo geopolítico realizado atrás de portas fechadas — nada disso acontece fora de Sua visão.

O mundo realmente se parece muitas vezes com um grande teatro. Nós ocupamos a plateia, enxergamos o cenário iluminado e tentamos compreender o enredo a partir daquilo que os atores nos permitem ver. Atrás da cortina, homens poderosos conversam, negociam, ameaçam, cedem, blefam e movimentam peças que representam milhões de vidas.

Mas a profecia nos oferece uma perspectiva ainda mais elevada.

Existe alguém acima do palco, dos bastidores e daqueles que imaginam controlar o roteiro.

Por isso a visita secreta do chefe da CIA a Moscou não deveria nos ensinar que precisamos descobrir todas as conspirações do mundo. Deveria ensinar algo muito mais humilde: não conhecemos o suficiente para depositar confiança absoluta nas narrativas dos homens.

Vemos fragmentos. Deus vê o conjunto.

Os poderosos movimentam peças.

Mas continuam sendo peças.

E talvez essa seja uma das verdades mais tranquilizadoras de toda a profecia bíblica: a história pode ser obscura para quem a vive, mas jamais esteve fora do alcance daquele que conhece o fim desde o princípio.

Bill Gates quer regular a IA com a China: quem vigiará aqueles que pretendem vigiar o futuro? (2026.08.24)

Quando empresários, governos e regimes autoritários começam a discutir juntos os limites da tecnologia, a questão já não é apenas o perigo da inteligência artificial, mas a concentração de poder criada para controlá-la

Há alguma coisa profundamente representativa de nosso tempo na ideia de Bill Gates procurar Xi Jinping para discutir como a humanidade deverá controlar a inteligência artificial. À primeira vista, o movimento parece absolutamente razoável. Estados Unidos e China estão entre as poucas nações com capacidade econômica, científica e industrial para disputar a fronteira da IA, e qualquer tentativa séria de impedir que sistemas extremamente poderosos sejam utilizados para ataques cibernéticos, desenvolvimento de ameaças biológicas ou outras aplicações potencialmente catastróficas terá alcance limitado se uma dessas potências permanecer fora do acordo. Gates vem alertando justamente para esses riscos e defendendo mecanismos internacionais capazes de acompanhar tecnologias perigosas. Portanto, a discussão não deveria começar negando a existência do problema. O problema existe. A questão muito mais desconfortável é saber quem receberá autoridade para resolvê-lo e quais limites serão impostos a essa autoridade.

Essa pergunta se torna inevitável quando observamos a trajetória peculiar de Gates desde que deixou de ser conhecido essencialmente como o homem da Microsoft e passou a ocupar um espaço extraordinário em discussões que normalmente pertenceriam a governos, organismos multilaterais, cientistas e autoridades públicas. Saúde mundial, vacinação, pandemias, agricultura, clima, energia, desenvolvimento econômico e agora inteligência artificial passaram, em diferentes momentos, pelo universo de atuação de sua fundação e de suas relações pessoais. Não existe nada intrinsecamente ilícito nisso. Uma pessoa extremamente rica pode empregar sua fortuna em causas que considere importantes e conversar com governantes sobre elas. O fenômeno que merece reflexão é outro: um cidadão sem mandato popular adquiriu capacidade suficiente para sentar-se diante de alguns dos homens mais poderosos do planeta e discutir políticas cujas consequências poderão alcançar bilhões de pessoas.

É justamente por isso que episódios desconfortáveis de sua história não podem ser descartados como simples curiosidades. O caso Jeffrey Epstein é o mais evidente. Gates reconheceu como erro sua relação com Epstein depois que este já havia sido condenado por crime sexual, e uma revisão independente encomendada pela Fundação Gates encontrou cerca de 30 reuniões envolvendo Gates ou funcionários da organização com Epstein entre 2011 e 2014. A mesma revisão afirmou não ter encontrado evidências de que a fundação tivesse conhecimento ou participação nos crimes sexuais de Epstein, distinção essencial para que uma reflexão séria não se transforme em acusação sem provas. Ainda assim, o fato de uma pessoa com tamanho acesso aos círculos decisórios mundiais ter mantido contato reiterado com Epstein depois de sua condenação é legitimamente perturbador. Associação não prova participação nos crimes de alguém, mas poder extraordinário exige transparência extraordinária, e perguntas sobre julgamento, influência e acesso não desaparecem simplesmente porque são incômodas.

Algo semelhante precisa ser dito sobre Anthony Fauci, mas com ainda maior cuidado. Gates e Fauci estiveram durante anos próximos do mesmo universo institucional da saúde global, preparação para pandemias, vacinação e financiamento científico. Isso seria esperado pela própria dimensão da Fundação Gates e não constitui evidência de qualquer esquema conjunto. Também não encontrei base confiável para atribuir a Gates as irregularidades relacionadas à preservação de registros governamentais que atingiram pessoas do círculo profissional de Fauci. O que todo o episódio da pandemia deixou, entretanto, foi uma questão muito maior sobre confiança institucional. Quando decisões capazes de restringir atividades, movimentar bilhões de dólares e afetar praticamente toda a população são apresentadas como essencialmente técnicas, o cidadão precisa ter certeza de que os mecanismos de transparência continuam funcionando. Quando documentos são ocultados, conflitos de interesse são mal explicados ou autoridades parecem excessivamente próximas daqueles que financiam, pesquisam, regulam ou comercializam determinadas soluções, a consequência inevitável é a erosão da confiança. E uma sociedade que perde confiança nas instituições torna-se paradoxalmente mais vulnerável à próxima promessa de que precisamos criar uma instituição ainda mais poderosa para nos proteger.

É nesse contexto que a China torna a proposta de Gates especialmente intrigante. Existe uma justificativa geopolítica evidente para conversar com Pequim: uma regulamentação internacional da IA sem participação chinesa seria incompleta. Mas existe também uma contradição que não deveria ser suavizada. O Partido Comunista Chinês governa um Estado de partido único, com severas limitações ao pluralismo político, à oposição organizada e à liberdade de expressão. A China também demonstrou como reconhecimento facial, grandes bancos de dados, monitoramento digital e outras tecnologias podem ser integrados à capacidade estatal. Isso não significa que conversar com Xi Jinping seja errado; em questões nucleares, climáticas, sanitárias ou tecnológicas, democracias precisam conversar inclusive com governos autoritários. Significa, porém, que qualquer projeto destinado a estabelecer mecanismos mundiais de controle da inteligência artificial precisa colocar a liberdade individual no centro da discussão. Caso contrário, poderemos criar uma ironia histórica monumental: para impedir que a inteligência artificial controle o homem, construiríamos sistemas capazes de controlar homens por meio da inteligência artificial.

Esse é o ponto em que a notícia deixa de ser apenas tecnológica e se torna geopolítica. O mundo está descobrindo que a IA não será simplesmente mais uma indústria. Quem dominar seus modelos, chips, centros de dados, infraestrutura energética, robótica e aplicações militares possuirá uma forma de poder comparável às grandes tecnologias estratégicas das eras anteriores. Estados Unidos e China compreendem perfeitamente isso e disputam semicondutores, cadeias produtivas, propriedade intelectual, capacidade computacional e influência internacional. Nesse cenário, Gates não aparece simplesmente como empresário aposentado preocupado com computadores perigosos, mas como representante informal de uma elite tecnológica transnacional que consegue conversar diretamente com governos sobre as regras pelas quais essa nova infraestrutura de poder deverá funcionar.

O termo “elite” precisa ser empregado aqui sem o peso fantasioso que frequentemente recebe. Não é necessário imaginar uma sala secreta onde bilionários decidem o destino do planeta. A realidade é simultaneamente mais banal e mais preocupante: a concentração de riqueza produz concentração de acesso, e concentração de acesso produz influência. Um cidadão comum não telefona para Xi Jinping. Não participa regularmente de reuniões com chefes de Estado. Não financia programas de saúde de países inteiros. Não possui fundações com orçamento comparável ao de determinados governos. Não conversa diretamente com presidentes sobre como uma tecnologia que poderá eliminar milhões de empregos deveria ser administrada. Gates possui essa possibilidade. Outros bilionários também. Isso não os torna automaticamente maus, mas torna inadequada qualquer expectativa de que suas boas intenções dispensem fiscalização.

Talvez este seja exatamente o aspecto mais importante da discussão atual sobre IA. Gates tem razão ao perceber que estamos diante de algo diferente. A mesma inteligência artificial capaz de aumentar brutalmente a produtividade poderá substituir parte significativa do trabalho intelectual; combinada à robótica, poderá atingir também uma quantidade crescente de atividades físicas. Sistemas capazes de acelerar pesquisas médicas também poderão ampliar a capacidade de produzir ameaças biológicas. Ferramentas extraordinárias de educação poderão igualmente ser utilizadas para propaganda, manipulação ou vigilância. A humanidade criou uma tecnologia cujo potencial benéfico e destrutivo cresce simultaneamente, e é compreensível que surja o desejo de construir alguma espécie de governança internacional. O perigo está em presumir que a única alternativa ao poder descontrolado das máquinas seja entregar poder extraordinário a uma pequena camada de governos, corporações, tecnocratas e bilionários.

É justamente nesse ponto que a perspectiva bíblica oferece uma lente muito diferente daquela encontrada nos debates tecnológicos convencionais. A Bíblia não possui uma doutrina sobre inteligência artificial, evidentemente, mas possui uma visão extremamente clara sobre o homem e o poder. Ela nunca pressupõe que inteligência, riqueza ou posição social eliminem a corrupção do coração humano. Pelo contrário, apresenta repetidamente reis, sacerdotes, comerciantes e governantes utilizando estruturas originalmente legítimas para finalidades que ultrapassam seus limites. A advertência bíblica, portanto, não consiste em rejeitar organização, ciência ou governo, mas em recusar a ideia de que a segurança definitiva possa ser obtida mediante concentração ilimitada de autoridade humana.

Isso ganha dimensão ainda maior quando chegamos ao Apocalipse. Frequentemente imaginamos os acontecimentos finais como uma explosão de caos absoluto, quando o texto apresenta algo mais complexo. Há guerras, crises, instabilidade e sofrimento, mas o movimento final é também um movimento em direção à organização do poder. Apocalipse 13 descreve autoridade política, influência religiosa e capacidade econômica convergindo até atingir a própria possibilidade de comprar e vender; Apocalipse 17 apresenta poderes entregando autoridade a uma estrutura comum. Independentemente de como cada detalhe seja aplicado historicamente, o princípio é inquietante: o grande perigo final não surge apenas porque o mundo perdeu o controle, mas porque, diante do medo e da desordem, aceita uma solução que concentra controle demais.

É por isso que talvez estejamos prestando atenção excessiva às crises e pouca atenção às soluções oferecidas para elas. Uma pandemia aparece e o mundo pede coordenação sanitária sem precedentes. Uma guerra ameaça energia e comércio e governos ampliam poderes de emergência. Terrorismo aumenta e populações aceitam mais vigilância. A inteligência artificial ameaça empregos, segurança digital e talvez até estabilidade militar, e imediatamente começa a discussão sobre uma arquitetura internacional capaz de monitorá-la. Cada problema pode ser perfeitamente real; cada resposta pode inicialmente parecer sensata. O processo perigoso começa quando o medo transforma perguntas legítimas sobre limites em obstáculos inconvenientes e quando a sociedade passa a acreditar que segurança suficiente justifica qualquer quantidade de centralização.

Não é preciso afirmar que Gates, Xi, Fauci ou qualquer outro personagem esteja conspirando para produzir esse resultado. Essa seria justamente a interpretação mais frágil, porque depende de intenções secretas que não podemos demonstrar. A possibilidade muito mais séria é que ninguém precise conspirar. Cada participante pode acreditar sinceramente que está resolvendo um problema. Cientistas querem impedir uma nova pandemia; empresários querem evitar que a IA seja utilizada para produzir armas; governos querem combater terrorismo; bancos querem impedir lavagem de dinheiro; plataformas querem combater desinformação; organismos internacionais querem coordenar respostas. O resultado acumulado, entretanto, pode ser uma infraestrutura de identificação, vigilância, controle financeiro e gestão da informação que nenhuma geração anterior conseguiu sequer imaginar.

É também por isso que Epstein permanece relevante como advertência, embora não como prova de uma teoria maior. Seu caso revelou a facilidade com que riqueza, prestígio e conexões podem abrir portas extraordinárias e aproximar pessoas de universidades, empresários, políticos e intelectuais que jamais imaginariam associar sua reputação a determinados ambientes. O episódio ensina algo elementar: proximidade com os centros de poder não é certificado de caráter. A mesma prudência deveria valer para todos os personagens públicos. Não importa se alguém é bilionário, cientista laureado, presidente, líder religioso ou diretor de uma organização internacional. Nenhum currículo suspende a necessidade de prestação de contas.

A presença chinesa na discussão sobre governança da IA torna essa advertência ainda mais urgente porque nos obriga a decidir qual valor terá prioridade quando segurança e liberdade entrarem em tensão. Se um sistema de monitoramento conseguir impedir que modelos produzam agentes biológicos, aceitaremos que ele acompanhe todas as pesquisas? Se uma identidade digital puder impedir criminosos de utilizar determinada IA, aceitaremos que ela se torne condição para acessar serviços? Se algoritmos puderem detectar conteúdos perigosos, quem definirá o significado de “perigoso”? Se uma autoridade internacional puder desligar determinados modelos, quem escolherá seus integrantes e quem poderá contestar suas decisões? E, sobretudo, até onde democracias estarão dispostas a aproximar seus mecanismos de controle daqueles empregados por regimes que não compartilham a mesma compreensão de liberdade individual?

Essas perguntas não demonstram que a regulamentação seja errada. Demonstram exatamente o contrário: ela é importante demais para ser entregue à confiança pessoal em seus arquitetos.

Talvez por isso Jeremias 17:5 continue tão atual: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor.” O texto não exige paranoia contra toda autoridade humana. Exige que não transformemos seres humanos em fontes últimas de segurança. Gates pode estar correto sobre os perigos da IA. Xi pode ter interesse legítimo em impedir determinados usos catastróficos. Governos democráticos podem precisar cooperar com a China. Organismos internacionais podem ser necessários. Nada disso altera a advertência fundamental: quanto maior o poder concedido para proteger a humanidade, maior deve ser nossa preocupação com os mecanismos destinados a impedir que esse poder seja utilizado contra ela.

Talvez este seja o paradoxo definitivo de nossa geração. Construímos máquinas tão poderosas que começamos a temer aquilo que elas poderão fazer. Para controlá-las, começamos a imaginar instituições mais poderosas. Para que essas instituições funcionem, precisamos reunir governos rivais. Para que governos rivais cooperem, será necessário estabelecer regras comuns. Para fiscalizar essas regras, serão necessários dados, monitoramento e capacidade de intervenção. E, pouco a pouco, aquilo que começou como uma discussão sobre segurança tecnológica poderá transformar-se numa discussão sobre quem terá autoridade para determinar os limites dentro dos quais todos os demais poderão viver, trabalhar, pesquisar e comunicar-se.

Esse é o ponto que o Diário da Profecia deve observar. Não precisamos acusar Bill Gates de crimes que as evidências não demonstram, nem inventar uma aliança secreta entre Gates, Fauci, Epstein e o governo chinês. Isso apenas enfraqueceria uma questão que já é suficientemente séria sem qualquer teoria adicional. O que os fatos permitem perguntar é muito mais perturbador: como chegamos a uma sociedade em que indivíduos privados acumulam influência geopolítica comparável à de instituições públicas, em que democracias consideram necessária a cooperação tecnológica com regimes autoritários e em que os perigos criados pelo avanço da própria humanidade parecem exigir estruturas de controle cada vez maiores?

Talvez a pergunta decisiva do futuro não seja se a inteligência artificial escapará de nosso controle. Pode ser outra: quanto controle sobre nós mesmos estaremos dispostos a entregar para impedir que isso aconteça?

E, quando a resposta começar a ser dada, o cristão fará bem em lembrar que a profecia bíblica não nos advertiu apenas sobre um mundo que entraria em crise. Advertiu também sobre um mundo que, procurando desesperadamente uma saída para suas crises, finalmente aceitaria uma concentração extraordinária de poder.

Nesse dia, a questão mais importante não será quem controla as máquinas.

Será quem controla aqueles que receberam o poder de controlá-las.

sábado, 22 de agosto de 2026

O cordeiro começa a falar como dragão (2026.08.22)

A “Era de Ouro” prometida por Trump, o redesenho da geopolítica mundial e a inquietante atualidade de Apocalipse 13

Talvez estejamos olhando para os acontecimentos recentes de maneira excessivamente fragmentada. Uma tarifa aqui, uma ameaça econômica ao Irã ali, pressão sobre a Europa, confronto com a China, intervenção no tabuleiro sul-americano, disputa pela Groenlândia, exigências militares aos aliados, controle de rotas estratégicas, sanções e demonstrações de força. Quando cada episódio é analisado separadamente, sempre existe uma explicação política, econômica ou militar para ele. Mas quando afastamos a lente e observamos o conjunto, surge algo muito maior: os Estados Unidos estão tentando redesenhar a ordem geopolítica mundial em torno do reconhecimento de sua própria supremacia.

Donald Trump não escondeu essa ambição. Desde seu retorno à Casa Branca, apresentou repetidamente seu projeto como o início de uma nova “Era de Ouro” americana. Em seu discurso de posse, vinculou essa promessa ao fortalecimento militar, ao princípio de “America First” e até a uma visão expansionista incomum na política americana contemporânea. Em fevereiro de 2026, voltou a proclamar que essa “Era de Ouro” já havia começado. (Reuters)

Para quem observa a história a partir da interpretação profética adventista, talvez seja exatamente essa expressão — Era de Ouro — que torne o momento tão interessante. Não porque Trump esteja conscientemente tentando cumprir uma profecia, nem porque cada decisão de seu governo deva ser transformada artificialmente em um versículo do Apocalipse. A questão é muito mais profunda. Se a interpretação historicista estiver correta ao identificar os Estados Unidos como a segunda besta de Apocalipse 13, então a profecia nunca exigiu uma América decadente, derrotada ou substituída pela China no momento final. Pelo contrário. João descreve uma potência extraordinariamente influente, capaz de exercer autoridade para além de suas próprias fronteiras e, finalmente, participar de um sistema de alcance econômico e religioso mundial.

Talvez a pergunta que deveríamos fazer seja justamente esta: e se a “Era de Ouro” americana estiver construindo, ainda que por razões completamente diferentes, as condições de poder que tornarão possível o papel profético atribuído aos Estados Unidos?

Apocalipse 13 apresenta essa potência com uma imagem extraordinária: “possuía dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas falava como dragão”. O contraste é o coração da profecia. O poder não nasce com aparência de dragão. Surge com características de cordeiro. Na compreensão adventista clássica, os Estados Unidos aparecem ligados a princípios que realmente representaram uma ruptura histórica: republicanismo, ausência de uma monarquia estabelecida, liberdade civil, liberdade religiosa e separação entre Igreja e Estado. Uma nação construída em grande medida por pessoas que haviam fugido das perseguições religiosas europeias transformou a liberdade de consciência em um de seus fundamentos.

Mas João diz que alguma coisa acontece com sua voz.

E talvez seja importante perceber que falar como dragão não precisa significar abandonar imediatamente todas as instituições democráticas. A Constituição pode continuar existindo. As eleições podem continuar acontecendo. As igrejas podem permanecer abertas. O discurso público pode continuar exaltando liberdade. O cordeiro pode continuar parecendo cordeiro. A mudança profética é percebida quando essa potência passa progressivamente da persuasão para a coerção, quando sua força se torna capaz de determinar não apenas aquilo que ela própria fará, mas aquilo que espera que os outros façam.

É justamente essa linguagem de poder que aparece cada vez mais na política externa americana atual. O caso do Irã é apenas o exemplo mais recente, e seria um erro transformá-lo no centro de toda a análise. Nesta semana, Trump ameaçou aquilo que chamou de “guerra econômica” contra países que ofereçam uma “linha de sobrevivência” ao regime iraniano, enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou o que chamou de “as sanções mais duras da história”. A pressão não pretende atingir somente Teerã: a possibilidade de consequências para seus parceiros comerciais, sobretudo a China, amplia o alcance da vontade americana para países que nem sequer são parte direta do conflito. (Reuters)

Isso é importante, mas é apenas uma peça.

Observe o quadro mais amplo. Na Europa, Trump rompeu com décadas de acomodação na relação transatlântica, exigindo que os aliados assumam muito mais responsabilidade pela própria defesa e deixando claro que a proteção americana não pode continuar sendo tratada como algo praticamente automático. Em relação à Groenlândia, chegou a ameaçar tarifas contra países europeus enquanto pressionava por um acordo que impedisse Rússia e China de ampliar sua presença na região; posteriormente recuou das ameaças tarifárias e anunciou uma estrutura de negociação com a OTAN. (Reuters) O episódio foi tão incomum que analistas chegaram a falar no risco de uma ruptura da própria ordem transatlântica construída depois da Segunda Guerra Mundial. (Reuters)

Nas relações comerciais, a mesma lógica aparece de outra forma. Tarifas deixaram de ser apenas instrumentos para proteger indústrias americanas e passaram repetidamente a funcionar como mecanismos de pressão geopolítica. A administração Trump já as utilizou ou ameaçou utilizá-las em disputas envolvendo China, Europa, Índia e outros parceiros. (Reuters) A mensagem subjacente é simples: o acesso ao gigantesco mercado americano possui um preço, e Washington está cada vez mais disposto a utilizar esse acesso para modificar o comportamento de outros governos.

Na América Latina, o movimento talvez seja ainda mais simbólico. A queda de Nicolás Maduro na Venezuela foi interpretada por analistas como possível início de um realinhamento geoeconômico regional destinado, entre outras coisas, a reduzir o espaço utilizado por Rússia e China no Hemisfério Ocidental. (Reuters) A antiga ideia de que as Américas constituem uma esfera estratégica especial dos Estados Unidos reaparece com nova intensidade. Não se trata apenas de combater comunismo, narcotráfico ou governos hostis. Existe uma mensagem mais abrangente sendo transmitida: Washington pretende voltar a determinar os limites da presença das grandes potências rivais em seu próprio hemisfério.

Junte-se a isso o confronto com a China, a disputa tecnológica, Taiwan, semicondutores, inteligência artificial, rotas marítimas e cadeias produtivas. Acrescente-se a Rússia, a Ucrânia e a tentativa americana de determinar as condições sob as quais Moscou poderá ou não reorganizar pela força a arquitetura de segurança europeia. Some-se o Oriente Médio, onde poder militar, petróleo, sanções, Ormuz e interesses americanos novamente se encontram. O resultado é muito maior do que uma política externa agressiva em determinada região. Estamos diante de uma tentativa de reafirmar quem estabelece as regras.

Isso não significa que essa estratégia esteja sendo bem-sucedida em todas as frentes. Pelo contrário: uma análise publicada pela Reuters neste 22 de agosto observa que Trump chega à proximidade das eleições de meio de mandato ainda sem as grandes vitórias internacionais que prometia, com impasses no Irã, na Ucrânia e em Gaza e custos políticos internos crescentes. (Reuters) É importante reconhecer isso porque profecia séria não pode ser construída selecionando apenas fatos que confirmem uma tese. A América continua extraordinariamente poderosa, mas poder não significa onipotência. Rússia, China e Irã resistem, aliados divergem e decisões americanas produzem consequências imprevistas.

Ainda assim, o sentido geral da política é difícil de ignorar: os Estados Unidos estão falando mais explicitamente a linguagem da supremacia.

E é aqui que Apocalipse 13 se torna profundamente desconfortável.

O texto não diz apenas que a segunda besta será poderosa. Diz que ela “exerce toda a autoridade”, que “faz” com que os habitantes da Terra adotem determinado comportamento e que, finalmente, participa de uma estrutura na qual comprar e vender podem ser condicionados à submissão. Existe uma progressão evidente: poder, influência, coerção econômica e, finalmente, adoração. A profecia não começa no fechamento do comércio. Existe antes disso uma potência suficientemente forte para tornar suas determinações relevantes para o mundo.

É exatamente por essa razão que a atual política americana merece atenção profética sem que precisemos chamar tarifas, sanções ou operações militares de “marca da besta”. Elas não são. Mas mostram algo que gerações anteriores tinham dificuldade de imaginar: como uma potência pode utilizar sua centralidade econômica para obrigar terceiros a escolher. Um país não precisa ser invadido para sentir a força de Washington. Pode perder acesso ao mercado americano, sofrer tarifas, ter empresas sancionadas, encontrar dificuldades no sistema financeiro internacional ou descobrir que negociar com um adversário dos Estados Unidos traz custos que não estava disposto a suportar.

O dragão moderno talvez não precise rugir apenas através de canhões. Pode falar por bancos, tarifas, mercados, bloqueios, sanções e acesso econômico.

Isso torna especialmente significativa a atual crise iraniana. Trump não está dizendo apenas que os Estados Unidos decidiram não apoiar o Irã. Está advertindo que outros poderão pagar economicamente se sustentarem Teerã. O petróleo reagiu imediatamente à ameaça, subindo mais de 2%, enquanto a China — principal compradora do petróleo iraniano — aparece inevitavelmente no centro do problema. (Reuters) O acontecimento demonstra, em escala geopolítica, uma realidade fundamental: quem possui poder econômico suficiente pode transformar comércio em instrumento de obediência.

Mas aqui precisamos fazer uma distinção essencial. Apocalipse 13 não termina numa guerra comercial. Não termina na derrota da China, no isolamento do Irã, no enfraquecimento da Rússia ou no reconhecimento mundial da supremacia americana. Se parássemos aí, perderíamos justamente o elemento mais importante da profecia.

Apocalipse 13 termina em adoração.

É por isso que a atual aproximação entre poder político e cristianismo nos Estados Unidos também merece ser acompanhada. Não porque cristãos não devam participar da política — têm exatamente o mesmo direito de qualquer cidadão — e muito menos porque a fé pessoal de católicos ou evangélicos deva ser tratada como ameaça. O problema profético nunca foi simplesmente uma sociedade possuir religião. A questão começa quando religião e poder coercitivo descobrem que podem trabalhar juntos.

Essa é uma diferença gigantesca. Uma América economicamente forte não cumpre sozinha Apocalipse 13. Uma América militarmente dominante também não. Nem mesmo uma América capaz de obrigar outros países a modificar seu comportamento comercial completa a profecia. O elemento decisivo surge quando essa extraordinária capacidade política e econômica é colocada a serviço de uma exigência religiosa e a consciência deixa de ser território inviolável.

É precisamente nesse ponto que a “Era de Ouro” prometida por Trump pode produzir uma ironia histórica extraordinária. Aquilo que hoje é apresentado como recuperação da grandeza americana — indústria forte, fronteiras protegidas, supremacia militar, adversários contidos, aliados mais dependentes das condições impostas por Washington, presença chinesa combatida, influência continental reafirmada e economia utilizada como instrumento estratégico — poderia construir uma América muito mais próxima, em termos de capacidade material, daquela descrita pela interpretação adventista do Apocalipse.

Não porque Trump tenha planejado isso.

Talvez justamente porque não precise planejar.

A profecia bíblica não exige que seus personagens históricos saibam que estão contribuindo para seu cumprimento. Ciro não precisou compreender toda a estrutura profética de Isaías para desempenhar seu papel. Roma não precisava conhecer Daniel para surgir na sequência dos impérios. Os poderes humanos perseguem seus próprios interesses, enquanto a história avança por caminhos que somente depois conseguimos compreender completamente.

Talvez estejamos vendo algo semelhante.

Trump deseja uma América tão poderosa que adversários temam enfrentá-la, aliados reconheçam sua dependência e mercados reajam às palavras de seu presidente. Deseja aquilo que chama de uma nova Era de Ouro. Politicamente, isso pode ser entendido como nacionalismo, realismo geopolítico ou “America First”. Profeticamente, porém, existe uma pergunta que não pode ser ignorada: que tipo de potência estará diante do mundo se esse projeto realmente alcançar seu objetivo?

Uma América enfraquecida?

Ou uma América novamente colocada no centro do sistema mundial, capaz de influenciar segurança, comércio, tecnologia, finanças e alianças?

João parece ter respondido essa pergunta há quase dois mil anos.

É por isso que talvez devamos parar de procurar apenas um acontecimento espetacular que marque o instante em que o cordeiro começará a falar como dragão. A mudança pode ser muito mais gradual. Talvez estejamos ouvindo diferentes sílabas de uma mesma nova linguagem: quando Washington diz à Europa que a antiga relação mudou; quando diz à China até onde sua influência pode chegar; quando redefine o espaço estratégico da América Latina; quando ameaça economicamente quem sustentar seus adversários; quando transforma acesso ao próprio mercado em instrumento de negociação; quando afirma que determinadas regiões do planeta são essenciais à segurança americana; quando exige que aliados e rivais reconheçam novamente o peso de sua supremacia.

Nenhum desses fatos isoladamente é Apocalipse 13.

O conjunto é que merece ser observado.

E talvez essa seja uma das características mais impressionantes da profecia. O cordeiro não acorda certa manhã transformado em dragão. João continua vendo os chifres semelhantes aos de cordeiro. O que denuncia a transformação é a voz.

Por isso, o cristão não deve observar apenas bandeiras, partidos ou presidentes. Trump passará. Outros presidentes virão. A profecia é maior do que qualquer administração. A questão é saber que tipo de estrutura de poder estará sendo deixada para aquele momento em que uma crise suficientemente grande fizer o mundo desejar ordem, segurança e unidade acima de quase qualquer outra coisa.

Porque ainda falta a etapa decisiva.

Hoje a coerção pode ser utilizada contra um adversário geopolítico. Amanhã, contra um parceiro comercial. Em outra crise, contra quem represente determinada ameaça à segurança. A profecia afirma que chegará finalmente um momento em que o conflito tocará a consciência e a adoração.

É então que compreenderemos completamente por que João não descreveu apenas uma besta poderosa.

Descreveu um paradoxo:

“Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão.”
Apocalipse 13:11.

Talvez a “Era de Ouro” americana realmente produza uma América mais forte. Talvez Trump consiga consolidar parte importante do redesenho geopolítico que iniciou. Talvez os Estados Unidos saiam deste período com aliados mais dependentes, adversários mais contidos e uma consciência ainda maior de sua capacidade de determinar os rumos da ordem internacional.

Para muitos americanos, isso será exatamente a realização da promessa.

Para quem lê Apocalipse 13 pela perspectiva profética adventista, porém, existe uma possibilidade muito mais solene:

a maior demonstração de força da última grande potência talvez não represente o afastamento da profecia, mas a preparação do poder necessário para que ela finalmente se cumpra.

A pergunta, portanto, não é apenas se a Era de Ouro chegará.

É qual voz a América terá quando estiver no auge dela.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Taiwan: a ilha onde as disputas do mundo podem se encontrar (2026.08.18)

Enquanto o mundo acompanha Ucrânia, Oriente Médio, Venezuela e a crescente disputa por influência na América Latina, existe uma pequena ilha no Pacífico onde talvez esteja concentrada uma das questões mais perigosas deste século. Taiwan vive há décadas sob a possibilidade de uma ação militar chinesa, mas aquilo que durante muito tempo parecia um cenário distante está sendo tratado cada vez mais como uma possibilidade para a qual governos, militares e até a população civil precisam estar preparados. Nos últimos dias, Taiwan concluiu os exercícios Han Kuang, nos quais não treinou apenas soldados: sirenes esvaziaram ruas, hospitais ensaiaram operações subterrâneas, a internet móvel foi deliberadamente reduzida para simular condições de guerra e Marinha e Guarda Costeira realizaram pela primeira vez um exercício conjunto destinado a romper um eventual bloqueio chinês. Nesta segunda-feira, 17 de agosto, o presidente Lai Ching-te anunciou ainda que o orçamento de defesa de 2027 ultrapassará pela primeira vez 1 trilhão de dólares taiwaneses, superando 3% do PIB. (Reuters)

Não se trata de uma preocupação imaginária. Pequim considera Taiwan parte de seu território e não renunciou ao uso da força para submetê-la ao seu controle. Em julho, a China voltou a realizar exercícios com fogo real no Estreito de Taiwan, depois de exercícios ainda maiores realizados anteriormente ao redor da ilha. (Reuters) A questão tornou-se tão central que Xi Jinping advertiu Donald Trump, durante a cúpula entre os dois líderes em maio, de que Taiwan é o ponto mais importante das relações entre China e Estados Unidos e que um tratamento inadequado da questão poderia conduzir essa relação a um lugar extremamente perigoso. (Reuters)

É aqui que Taiwan deixa de ser apenas Taiwan. A ilha está situada no centro de uma disputa muito maior sobre quem determinará os limites do poder no novo mundo que está surgindo.

Durante décadas, os Estados Unidos exerceram enorme influência sobre a ordem internacional. A invasão russa da Ucrânia colocou essa arquitetura diante de um teste gigantesco: Washington forneceu armas, inteligência e apoio econômico a Kyiv enquanto argumentava que fronteiras não poderiam ser modificadas pela força. Pequim acompanhou atentamente esse conflito. Qualquer guerra moderna funciona também como um laboratório para aqueles que poderão travar a próxima, e as atuais manobras taiwanesas incorporam explicitamente lições de conflitos recentes: drones, guerra eletrônica, interrupção de GPS, sobrevivência de redes de comunicação, dispersão industrial e continuidade do governo sob ataque. (Reuters)

A tentação de construir uma equivalência automática é grande. Se os Estados Unidos apoiam a Ucrânia contra a Rússia, então a China atacaria Taiwan como “retaliação”; se Washington intervém na esfera de influência chinesa, Pequim responderia em outra região. Os fatos disponíveis não permitem afirmar isso dessa maneira. A questão taiwanesa possui história própria e ocupa lugar central na política chinesa muito antes da guerra da Ucrânia. Da mesma forma, analistas consultados pela Reuters após a intervenção americana na Venezuela avaliaram que a ação poderia fortalecer a retórica chinesa sobre suas reivindicações territoriais, mas não significava que Pequim anteciparia uma invasão de Taiwan; segundo eles, os cálculos de Xi dependem de fatores chineses e estratégicos muito mais amplos. (Reuters)

Essa cautela, porém, não elimina o problema. Ela o torna mais sério.

Quando as potências começam a utilizar os argumentos umas das outras

Existe uma diferença entre dizer que a China atacará Taiwan em retaliação às ações americanas e perceber que cada precedente criado pelas grandes potências modifica o ambiente político no qual a próxima crise será justificada. Rússia, China e Estados Unidos observam continuamente aquilo que os demais fazem e procuram explorar as contradições entre princípios proclamados e interesses efetivamente defendidos.

A América Latina tornou-se parte importante desse tabuleiro. A China é hoje uma potência econômica profundamente instalada no continente, e o Brasil é seu maior parceiro econômico na América Latina e no Caribe. (Ipea) Taiwan também está inserida nessa disputa. O Paraguai, um dos poucos países que ainda mantêm relações diplomáticas com Taipei, vem sendo disputado politicamente por Taiwan, China e Estados Unidos, enquanto Pequim utiliza comércio e investimentos para ampliar sua influência regional. (Reuters)

A ofensiva americana para reafirmar sua primazia no Hemisfério Ocidental, portanto, toca inevitavelmente interesses chineses. Washington procura reduzir espaços estratégicos de Pequim nas Américas; Pequim procura impedir que Washington consolide ainda mais sua influência no Indo-Pacífico. Não são situações juridicamente equivalentes, mas fazem parte da mesma competição entre duas potências que enxergam determinadas regiões como fundamentais para sua própria segurança.

E existe uma assimetria particularmente perigosa. Para Washington, Taiwan é uma questão estratégica de enorme importância. Para Pequim, é apresentada como questão de soberania e integridade territorial. Isso aumenta dramaticamente o risco de erro de cálculo.

Em junho, o próprio governo americano acusou a China de pressionar estados americanos e empresas privadas para desencorajá-los de manter relações com Taiwan. (Reuters) Não estamos, portanto, diante de uma disputa restrita a navios no Pacífico. Diplomacia, empresas, tecnologia, semicondutores, comércio, reconhecimento internacional e influência política já fazem parte da confrontação.

A guerra, quando chega, costuma ser apenas a fase mais visível de uma disputa que começou muito antes.

Taiwan está ensaiando o dia que espera nunca viver

Talvez nada expresse melhor a gravidade do momento do que aquilo que aconteceu durante os exercícios Han Kuang. Durante trinta minutos, partes de Taiwan experimentaram uma internet móvel reduzida praticamente à capacidade de transmitir texto. Não era uma pane. O governo fez isso deliberadamente para que população e autoridades soubessem como seria continuar funcionando depois que uma guerra comprometesse as comunicações. (AP News)

Fábricas civis estão sendo preparadas para eventualmente assumir funções militares. A produção de armamentos está sendo treinada para dispersar-se caso instalações sejam atacadas. Navios ensaiam a abertura de corredores marítimos. Hospitais preparam instalações subterrâneas. Reservistas são mobilizados. Aeródromos treinam reparos depois de ataques. Uma sociedade altamente tecnológica está tentando aprender antecipadamente como continuar existindo caso, numa determinada madrugada, aquilo que durante décadas foi chamado de “ameaça chinesa” deixe de ser ameaça e se transforme em guerra. (Reuters)

É impossível observar esse cenário sem recordar as palavras de Cristo:

“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.”
Mateus 24:6.

Existe uma precisão extraordinária nessa expressão: guerras e rumores de guerras. O rumor não significa simplesmente fofoca sobre conflitos. É a expectativa permanente de que uma guerra possa começar, suficientemente concreta para modificar orçamentos, construir abrigos, mobilizar reservistas, alterar alianças e fazer uma população inteira ensaiar aquilo que fará quando as bombas chegarem.

Taiwan vive exatamente nesse intervalo.

Ainda não existe invasão. Mas a possibilidade da invasão já influencia a vida da ilha.

O grande conflito entre impérios

Dentro da perspectiva profética que temos desenvolvido neste espaço, entretanto, existe uma questão ainda maior. Apocalipse não apresenta o fim da história como simples vitória da China, da Rússia ou dos Estados Unidos. O livro apresenta poderes humanos lutando entre si enquanto, acima dessas disputas, desenvolve-se um conflito espiritual cujo centro é a adoração.

Na interpretação historicista adventista, os Estados Unidos ocupam papel singular em Apocalipse 13. Isso significa que a ascensão chinesa precisa ser observada com cuidado, mas não exige que imaginemos a China substituindo os Estados Unidos como potência determinante do cenário profético final. Pelo contrário: se essa interpretação estiver correta, a rivalidade com Pequim pode acabar contribuindo para aquilo que estamos observando em outras frentes — o fortalecimento da capacidade política, militar, econômica e tecnológica americana em nome da necessidade de enfrentar ameaças reais.

Esse paradoxo merece atenção. China cresce; os Estados Unidos reagem. Rússia avança; os Estados Unidos reorganizam alianças.

Cartéis e governos hostis ampliam sua influência nas Américas; Washington reafirma sua presença continental.

Irã ameaça rotas energéticas; os Estados Unidos projetam poder sobre o Oriente Médio.

Cada crise possui causas próprias. Mas o resultado acumulado pode ser uma nova concentração de poder.

E isso nos conduz novamente à reflexão de Apocalipse 13 que fizemos recentemente. A segunda besta não aparece fraca no desfecho profético. Ela possui capacidade extraordinária de influência, persuade os habitantes da Terra e participa finalmente de um sistema no qual até comprar e vender pode ser condicionado.

A profecia, portanto, não exige uma América em decadência.

Pode exigir exatamente o contrário.

E se Taiwan for o grande teste?

Uma invasão chinesa de Taiwan teria consequências difíceis de exagerar. Não sabemos se acontecerá, muito menos quando. A própria prudência cristã exige rejeitar datas e previsões categóricas que a Bíblia não forneceu. Mas podemos compreender o tamanho da encruzilhada.

Se Pequim utilizar a força, Washington enfrentará uma decisão que poderá redefinir a ordem internacional: intervir diretamente e correr o risco de uma guerra entre potências nucleares, limitar-se ao fornecimento de armas e apoio semelhante ao oferecido à Ucrânia, ou permitir que Taiwan enfrente praticamente sozinha uma potência incomparavelmente maior.

Cada opção possui consequências. E Pequim sabe disso. Washington também.

Por isso dezenas de aviões e navios podem movimentar-se ao redor de Taiwan sem que ninguém deseje disparar o primeiro tiro. Todos estão comunicando poder enquanto calculam aquilo que o adversário está disposto a suportar.

Essa talvez seja uma das características mais perigosas de nossa época. Não faltam armas. Falta certeza sobre onde estão os limites.

A Rússia testou esses limites na Ucrânia. Os Estados Unidos estão redefinindo-os no Oriente Médio e nas Américas. A China observa atentamente o que tudo isso significa para Taiwan.

Não porque exista necessariamente um acordo secreto entre essas crises, mas porque nenhuma grande potência toma suas decisões num vazio histórico. Cada uma observa aquilo que as outras conseguiram fazer, quais custos pagaram, quais sanções suportaram e até onde seus adversários estavam realmente dispostos a chegar.

É assim que precedentes se acumulam.

É assim que o mundo se torna progressivamente mais instável.

E é assim que uma guerra que ninguém deseja pode finalmente acontecer.

A advertência que permanece

O cristão deve resistir a duas tentações igualmente perigosas. A primeira é transformar cada exercício militar em anúncio de que a Terceira Guerra Mundial começará amanhã. A segunda é olhar para tudo isso como se fosse apenas mais uma sequência normal de notícias internacionais.

Não é normal que sociedades inteiras estejam treinando para sobreviver à interrupção da internet provocada por guerra.

Não é normal que potências nucleares disputem simultaneamente fronteiras, rotas comerciais e zonas de influência.

Não é normal que o mundo precise calcular continuamente se um novo conflito regional poderá arrastar as maiores potências militares da Terra para uma confrontação direta.

Talvez tenhamos apenas nos acostumado ao extraordinário.

Jesus não nos entregou Mateus 24 para que pudéssemos marcar uma data no calendário. Entregou-nos um mapa espiritual para que reconhecêssemos o caráter do mundo à medida que a história se aproximasse de seu desfecho.

E Taiwan talvez seja hoje um dos lugares onde esse mapa se torna mais visível.

Uma ilha prepara hospitais subterrâneos. Uma potência gigantesca realiza exercícios militares ao seu redor. Outra potência, do outro lado do Pacífico, fornece armas e observa. Rússia e Ucrânia continuam em guerra. Oriente Médio permanece inflamado. América Latina volta a ser disputada por grandes potências.

Os tabuleiros parecem separados.

Mas as peças começam a pertencer ao mesmo jogo.

Talvez a grande pergunta de Taiwan não seja simplesmente se a China invadirá a ilha. A pergunta maior é o que acontecerá com o mundo se chegar o dia em que Pequim concluir que pode fazê-lo — e Washington concluir que não pode permitir.

Nesse momento, o “rumor de guerra” terá terminado.

E terá começado aquilo sobre o qual Jesus nos advertiu há quase dois mil anos.

“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis.”
Mateus 24:6

A última parte do verso talvez seja a mais importante.

A profecia não foi dada para produzir pânico.

Foi dada para que, quando o mundo começar a parecer fora de controle, o povo de Deus se lembre de que a história continua sob o controle dEle.

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