Não se trata de uma preocupação imaginária. Pequim considera Taiwan parte de seu território e não renunciou ao uso da força para submetê-la ao seu controle. Em julho, a China voltou a realizar exercícios com fogo real no Estreito de Taiwan, depois de exercícios ainda maiores realizados anteriormente ao redor da ilha. (Reuters) A questão tornou-se tão central que Xi Jinping advertiu Donald Trump, durante a cúpula entre os dois líderes em maio, de que Taiwan é o ponto mais importante das relações entre China e Estados Unidos e que um tratamento inadequado da questão poderia conduzir essa relação a um lugar extremamente perigoso. (Reuters)
É aqui que Taiwan deixa de ser apenas Taiwan. A ilha está situada no centro de uma disputa muito maior sobre quem determinará os limites do poder no novo mundo que está surgindo.
Durante décadas, os Estados Unidos exerceram enorme influência sobre a ordem internacional. A invasão russa da Ucrânia colocou essa arquitetura diante de um teste gigantesco: Washington forneceu armas, inteligência e apoio econômico a Kyiv enquanto argumentava que fronteiras não poderiam ser modificadas pela força. Pequim acompanhou atentamente esse conflito. Qualquer guerra moderna funciona também como um laboratório para aqueles que poderão travar a próxima, e as atuais manobras taiwanesas incorporam explicitamente lições de conflitos recentes: drones, guerra eletrônica, interrupção de GPS, sobrevivência de redes de comunicação, dispersão industrial e continuidade do governo sob ataque. (Reuters)
A tentação de construir uma equivalência automática é grande. Se os Estados Unidos apoiam a Ucrânia contra a Rússia, então a China atacaria Taiwan como “retaliação”; se Washington intervém na esfera de influência chinesa, Pequim responderia em outra região. Os fatos disponíveis não permitem afirmar isso dessa maneira. A questão taiwanesa possui história própria e ocupa lugar central na política chinesa muito antes da guerra da Ucrânia. Da mesma forma, analistas consultados pela Reuters após a intervenção americana na Venezuela avaliaram que a ação poderia fortalecer a retórica chinesa sobre suas reivindicações territoriais, mas não significava que Pequim anteciparia uma invasão de Taiwan; segundo eles, os cálculos de Xi dependem de fatores chineses e estratégicos muito mais amplos. (Reuters)
Essa cautela, porém, não elimina o problema. Ela o torna mais sério.
Quando as potências começam a utilizar os argumentos umas das outras
Existe uma diferença entre dizer que a China atacará Taiwan em retaliação às ações americanas e perceber que cada precedente criado pelas grandes potências modifica o ambiente político no qual a próxima crise será justificada. Rússia, China e Estados Unidos observam continuamente aquilo que os demais fazem e procuram explorar as contradições entre princípios proclamados e interesses efetivamente defendidos.
A América Latina tornou-se parte importante desse tabuleiro. A China é hoje uma potência econômica profundamente instalada no continente, e o Brasil é seu maior parceiro econômico na América Latina e no Caribe. (Ipea) Taiwan também está inserida nessa disputa. O Paraguai, um dos poucos países que ainda mantêm relações diplomáticas com Taipei, vem sendo disputado politicamente por Taiwan, China e Estados Unidos, enquanto Pequim utiliza comércio e investimentos para ampliar sua influência regional. (Reuters)
A ofensiva americana para reafirmar sua primazia no Hemisfério Ocidental, portanto, toca inevitavelmente interesses chineses. Washington procura reduzir espaços estratégicos de Pequim nas Américas; Pequim procura impedir que Washington consolide ainda mais sua influência no Indo-Pacífico. Não são situações juridicamente equivalentes, mas fazem parte da mesma competição entre duas potências que enxergam determinadas regiões como fundamentais para sua própria segurança.
E existe uma assimetria particularmente perigosa. Para Washington, Taiwan é uma questão estratégica de enorme importância. Para Pequim, é apresentada como questão de soberania e integridade territorial. Isso aumenta dramaticamente o risco de erro de cálculo.
Em junho, o próprio governo americano acusou a China de pressionar estados americanos e empresas privadas para desencorajá-los de manter relações com Taiwan. (Reuters) Não estamos, portanto, diante de uma disputa restrita a navios no Pacífico. Diplomacia, empresas, tecnologia, semicondutores, comércio, reconhecimento internacional e influência política já fazem parte da confrontação.
A guerra, quando chega, costuma ser apenas a fase mais visível de uma disputa que começou muito antes.
Taiwan está ensaiando o dia que espera nunca viver
Talvez nada expresse melhor a gravidade do momento do que aquilo que aconteceu durante os exercícios Han Kuang. Durante trinta minutos, partes de Taiwan experimentaram uma internet móvel reduzida praticamente à capacidade de transmitir texto. Não era uma pane. O governo fez isso deliberadamente para que população e autoridades soubessem como seria continuar funcionando depois que uma guerra comprometesse as comunicações. (AP News)
Fábricas civis estão sendo preparadas para eventualmente assumir funções militares. A produção de armamentos está sendo treinada para dispersar-se caso instalações sejam atacadas. Navios ensaiam a abertura de corredores marítimos. Hospitais preparam instalações subterrâneas. Reservistas são mobilizados. Aeródromos treinam reparos depois de ataques. Uma sociedade altamente tecnológica está tentando aprender antecipadamente como continuar existindo caso, numa determinada madrugada, aquilo que durante décadas foi chamado de “ameaça chinesa” deixe de ser ameaça e se transforme em guerra. (Reuters)
É impossível observar esse cenário sem recordar as palavras de Cristo:
“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.”
Mateus 24:6.
Existe uma precisão extraordinária nessa expressão: guerras e rumores de guerras. O rumor não significa simplesmente fofoca sobre conflitos. É a expectativa permanente de que uma guerra possa começar, suficientemente concreta para modificar orçamentos, construir abrigos, mobilizar reservistas, alterar alianças e fazer uma população inteira ensaiar aquilo que fará quando as bombas chegarem.
Taiwan vive exatamente nesse intervalo.
Ainda não existe invasão. Mas a possibilidade da invasão já influencia a vida da ilha.
O grande conflito entre impérios
Dentro da perspectiva profética que temos desenvolvido neste espaço, entretanto, existe uma questão ainda maior. Apocalipse não apresenta o fim da história como simples vitória da China, da Rússia ou dos Estados Unidos. O livro apresenta poderes humanos lutando entre si enquanto, acima dessas disputas, desenvolve-se um conflito espiritual cujo centro é a adoração.
Na interpretação historicista adventista, os Estados Unidos ocupam papel singular em Apocalipse 13. Isso significa que a ascensão chinesa precisa ser observada com cuidado, mas não exige que imaginemos a China substituindo os Estados Unidos como potência determinante do cenário profético final. Pelo contrário: se essa interpretação estiver correta, a rivalidade com Pequim pode acabar contribuindo para aquilo que estamos observando em outras frentes — o fortalecimento da capacidade política, militar, econômica e tecnológica americana em nome da necessidade de enfrentar ameaças reais.
Esse paradoxo merece atenção. China cresce; os Estados Unidos reagem. Rússia avança; os Estados Unidos reorganizam alianças.
Cartéis e governos hostis ampliam sua influência nas Américas; Washington reafirma sua presença continental.
Irã ameaça rotas energéticas; os Estados Unidos projetam poder sobre o Oriente Médio.
Cada crise possui causas próprias. Mas o resultado acumulado pode ser uma nova concentração de poder.
E isso nos conduz novamente à reflexão de Apocalipse 13 que fizemos recentemente. A segunda besta não aparece fraca no desfecho profético. Ela possui capacidade extraordinária de influência, persuade os habitantes da Terra e participa finalmente de um sistema no qual até comprar e vender pode ser condicionado.
A profecia, portanto, não exige uma América em decadência.
Pode exigir exatamente o contrário.
E se Taiwan for o grande teste?
Uma invasão chinesa de Taiwan teria consequências difíceis de exagerar. Não sabemos se acontecerá, muito menos quando. A própria prudência cristã exige rejeitar datas e previsões categóricas que a Bíblia não forneceu. Mas podemos compreender o tamanho da encruzilhada.
Se Pequim utilizar a força, Washington enfrentará uma decisão que poderá redefinir a ordem internacional: intervir diretamente e correr o risco de uma guerra entre potências nucleares, limitar-se ao fornecimento de armas e apoio semelhante ao oferecido à Ucrânia, ou permitir que Taiwan enfrente praticamente sozinha uma potência incomparavelmente maior.
Cada opção possui consequências. E Pequim sabe disso. Washington também.
Por isso dezenas de aviões e navios podem movimentar-se ao redor de Taiwan sem que ninguém deseje disparar o primeiro tiro. Todos estão comunicando poder enquanto calculam aquilo que o adversário está disposto a suportar.
Essa talvez seja uma das características mais perigosas de nossa época. Não faltam armas. Falta certeza sobre onde estão os limites.
A Rússia testou esses limites na Ucrânia. Os Estados Unidos estão redefinindo-os no Oriente Médio e nas Américas. A China observa atentamente o que tudo isso significa para Taiwan.
Não porque exista necessariamente um acordo secreto entre essas crises, mas porque nenhuma grande potência toma suas decisões num vazio histórico. Cada uma observa aquilo que as outras conseguiram fazer, quais custos pagaram, quais sanções suportaram e até onde seus adversários estavam realmente dispostos a chegar.
É assim que precedentes se acumulam.
É assim que o mundo se torna progressivamente mais instável.
E é assim que uma guerra que ninguém deseja pode finalmente acontecer.
A advertência que permanece
O cristão deve resistir a duas tentações igualmente perigosas. A primeira é transformar cada exercício militar em anúncio de que a Terceira Guerra Mundial começará amanhã. A segunda é olhar para tudo isso como se fosse apenas mais uma sequência normal de notícias internacionais.
Não é normal que sociedades inteiras estejam treinando para sobreviver à interrupção da internet provocada por guerra.
Não é normal que potências nucleares disputem simultaneamente fronteiras, rotas comerciais e zonas de influência.
Não é normal que o mundo precise calcular continuamente se um novo conflito regional poderá arrastar as maiores potências militares da Terra para uma confrontação direta.
Talvez tenhamos apenas nos acostumado ao extraordinário.
Jesus não nos entregou Mateus 24 para que pudéssemos marcar uma data no calendário. Entregou-nos um mapa espiritual para que reconhecêssemos o caráter do mundo à medida que a história se aproximasse de seu desfecho.
E Taiwan talvez seja hoje um dos lugares onde esse mapa se torna mais visível.
Uma ilha prepara hospitais subterrâneos. Uma potência gigantesca realiza exercícios militares ao seu redor. Outra potência, do outro lado do Pacífico, fornece armas e observa. Rússia e Ucrânia continuam em guerra. Oriente Médio permanece inflamado. América Latina volta a ser disputada por grandes potências.
Os tabuleiros parecem separados.
Mas as peças começam a pertencer ao mesmo jogo.
Talvez a grande pergunta de Taiwan não seja simplesmente se a China invadirá a ilha. A pergunta maior é o que acontecerá com o mundo se chegar o dia em que Pequim concluir que pode fazê-lo — e Washington concluir que não pode permitir.
Nesse momento, o “rumor de guerra” terá terminado.
E terá começado aquilo sobre o qual Jesus nos advertiu há quase dois mil anos.
“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis.”
Mateus 24:6
A última parte do verso talvez seja a mais importante.
A profecia não foi dada para produzir pânico.
Foi dada para que, quando o mundo começar a parecer fora de controle, o povo de Deus se lembre de que a história continua sob o controle dEle.
