Israel atravessaria momentos difíceis. O exílio babilônico estava no horizonte, Jerusalém seria atingida e o povo experimentaria consequências dolorosas de sua própria infidelidade. Ainda assim, Deus anuncia que a disciplina não significaria abandono.
Então surge uma das promessas mais conhecidas de Isaías:
“Quando passares pelas águas, Eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás” (Is 43:2).
Observe que Deus não promete impedir todas as águas, rios ou incêndios.
Ele promete atravessá-los conosco.
Essa diferença é fundamental. A presença de Deus não significa ausência de provações. Significa que nenhuma provação possui autoridade para destruir aquilo que Ele decidiu preservar.
O capítulo relembra a identidade de Israel: “Vós sois as Minhas testemunhas” (Is 43:10). Deus havia chamado aquele povo para demonstrar diante das nações quem Ele é. Os ídolos não conseguiam explicar o passado nem anunciar o futuro. O Senhor, porém, revelava antecipadamente os acontecimentos porque toda a história permanecia diante dEle.
Essa verdade possui uma dimensão profundamente profética.
Isaías 43 foi escrito quando a libertação do Egito já fazia parte do passado de Israel. Deus havia aberto o mar e conduzido Seu povo através das águas. Mas agora Ele anuncia algo surpreendente: “Eis que faço uma coisa nova” (Is 43:19).
O mesmo Deus que abriu um caminho no mar poderia abrir um caminho no deserto.
Seu povo não deveria limitar o futuro àquilo que Deus havia realizado no passado.
Pouco depois, Isaías apresentará Ciro como instrumento para a libertação dos exilados. Antes mesmo do domínio babilônico alcançar seu auge, Deus já anunciava que Babilônia não teria a palavra final.
Esse princípio atravessa toda a profecia bíblica.
Egito passou.
Babilônia passou.
Medo-Pérsia passou.
Grécia passou.
Roma passou por transformações.
Nenhum poder humano permanece para sempre.
Apocalipse revela que, no encerramento da história, novamente surgirão estruturas políticas, econômicas e religiosas aparentemente irresistíveis. O povo de Deus enfrentará pressão e oposição. Entretanto, Isaías 43 estabelece um princípio que permanece válido: a história não pertence aos perseguidores; pertence ao Redentor.
Há ainda outra mensagem essencial no capítulo.
Deus diz que criou Seu povo “para Minha glória” (Is 43:7). Nossa existência possui propósito. Não fomos chamados apenas para sobreviver às crises deste mundo, mas para testemunhar quem Deus é enquanto atravessamos essas crises.
Talvez seja justamente durante as águas profundas que nosso testemunho se torne mais claro.
É fácil falar de confiança quando tudo está seguro. A fé revela sua verdadeira força quando continuamos caminhando mesmo sem enxergar imediatamente a saída.
Isaías 43 também termina expondo o pecado de Israel. O povo havia se cansado de Deus, negligenciado sua comunhão e acumulado transgressões. Ainda assim, o Senhor declara algo extraordinário: “Eu, Eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de Mim e dos teus pecados não Me lembro” (Is 43:25).
O Deus que conduz através das águas é também o Deus que perdoa.
Essa é a esperança definitiva do capítulo. Nossa segurança não está em nossa capacidade de nunca falhar, mas na fidelidade daquele que nos criou, nos chamou e oferece redenção.
Não sabemos quais águas ainda teremos de atravessar.
Não sabemos quais acontecimentos aguardam o mundo.
Mas sabemos quem estará conosco.
Quando vierem as águas, Ele estará lá.
Quando surgir o fogo, Ele estará lá.
Quando parecer não existir caminho, Deus ainda poderá abrir um no deserto.
Porque o futuro pertence ao mesmo Deus que diz:
“Não temas, porque Eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és Meu.”
