Logo percebemos que Davi também está vulnerável. Ele fala de enfermidade, pede misericórdia e reconhece: “Sara a minha alma, porque pequei contra Ti.” Sua oração não transforma sofrimento em argumento de inocência absoluta. Davi sabe que precisa tanto da intervenção de Deus quanto de Sua graça. Essa combinação é importante: podemos estar sendo injustiçados por alguém e ainda assim continuar necessitando que Deus examine nosso próprio coração. A dor causada pelos outros não nos torna automaticamente corretos em tudo.
Enquanto Davi sofre, seus inimigos aguardam sua queda. Alguns o visitam aparentemente preocupados, mas saem espalhando aquilo que observaram. Outros imaginam que ele não se levantará novamente. Porém, a declaração mais dolorosa surge quando ele diz: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar.” Não era apenas alguém conhecido. Era alguém admitido à mesa, ao espaço da confiança e da comunhão.
Séculos depois, Jesus utilizaria essas palavras ao falar da traição de Judas. Cristo conheceu a dor de dividir o pão com alguém que O entregaria. Isso significa que, quando a confiança é quebrada por alguém próximo, não estamos diante de um sofrimento desconhecido pelo nosso Salvador. Ele sabe o que significa amar sem receber lealdade em troca.
Mas existe também uma advertência. A traição pode produzir em nós o desejo de nunca mais confiar, amar ou permitir proximidade. É compreensível estabelecer limites depois de uma ferida, mas não podemos permitir que a infidelidade de alguém determine nosso caráter. No grande conflito entre o bem e o mal, uma das vitórias do inimigo acontece quando a maldade sofrida começa a reproduzir-se naquele que sofreu. Cristo foi traído, mas não se tornou traidor; foi rejeitado, mas não permitiu que a rejeição destruísse Sua capacidade de amar.
Davi encontra sua segurança não na fidelidade humana, mas em Deus: “Quanto a mim, Tu me susténs na minha integridade e me pões à Tua presença para sempre.” Pessoas podem retirar sua presença, quebrar promessas e abandonar lugares que um dia ocuparam em nossa vida. Deus permanece.
Talvez sua ferida tenha vindo justamente de alguém que conhecia seus segredos, compartilhava sua mesa ou possuía sua confiança. Não minimize essa dor, mas também não permita que ela escreva o restante da sua história. Quando alguém que estava à mesa se levanta contra nós, ainda existe um lugar onde podemos permanecer: diante do Deus que conhece toda a verdade, sustenta o coração ferido e nunca abandona aqueles que colocam Nele sua esperança.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
