Jesus olhou para aquele jovem e o amou. Viu nele qualidades que poderiam transformá-lo em poderoso instrumento para o reino de Deus, mas também enxergou aquilo que o próprio príncipe ainda não conseguia perceber: havia um ídolo ocupando o lugar que pertencia exclusivamente a Deus. Por isso Cristo lhe disse: “Falta-te uma coisa; vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu; e vem, e segue-Me.” O problema não estava simplesmente em possuir riquezas. Estava no fato de as riquezas o possuírem. Jesus tocou precisamente no ponto em que sua profissão de obediência seria submetida à prova da entrega. Ele dizia guardar os mandamentos, mas amava os dons recebidos de Deus mais do que o próprio Doador.
Diante dele estavam dois tesouros. Um podia ser visto, contado e administrado; oferecia posição, influência e segurança humana. O outro dependia inteiramente da fé: Cristo lhe oferecia Sua companhia, um lugar em Sua obra e um tesouro eterno. O jovem compreendeu o que aquela escolha significava e entristeceu-se, porque possuía muitos bens. Queria a vida eterna, mas queria também conservar intacto aquilo que lhe dava segurança neste mundo. Jesus não o obrigou. Deixou-o escolher. E aquele homem que chegara correndo e ajoelhara-se diante do Salvador afastou-se triste porque descobriu que admirar Cristo era mais fácil do que entregar-se inteiramente a Ele.
Essa história não fala apenas sobre dinheiro. Ela alcança qualquer coisa que ocupe em nosso coração um lugar que não estamos dispostos a entregar a Deus. Pode ser patrimônio, posição, reconhecimento, projetos, ambições ou até a própria vontade. A entrega do eu está no centro do discipulado, porque seguir Jesus significa poder dizer sinceramente: “Senhor, tudo quanto sou e tudo quanto tenho pertence a Ti.” Os recursos, talentos e oportunidades que recebemos não foram dados apenas para nosso benefício; somos mordomos chamados a colocá-los a serviço de Deus e do próximo.
A pergunta do jovem continua atravessando os séculos: “Que me falta ainda?” Talvez a resposta seja diferente para cada pessoa, mas o chamado permanece o mesmo. Cristo não deseja simplesmente aquilo que possuímos; deseja o coração que se apega a essas coisas. E quando nos convida a deixar algo para segui-Lo, não está tentando empobrecer nossa vida, mas libertá-la daquilo que impede uma entrega completa. O jovem príncipe foi embora triste porque preferiu conservar seu tesouro. Cristo, porém, continua dizendo a cada geração: “Vem e segue-Me.” O verdadeiro tesouro começa quando nada mais ocupa o lugar que pertence a Ele.
