A cena é solene. “Desde Sião, excelência de formosura, resplandece Deus.” Fogo aparece diante Dele, os céus e a terra são convocados como testemunhas, e o Senhor chama Seu povo para julgamento.
Mas há algo surpreendente: o problema não era falta de religião.
Sacrifícios estavam sendo oferecidos. O altar funcionava. As práticas prescritas continuavam acontecendo. Deus declara: “Não te repreendo pelos teus sacrifícios, nem pelos teus holocaustos continuamente perante Mim.”
Então qual era o problema?
O povo começara a tratar o relacionamento com Deus como se Ele dependesse daquilo que recebia dos seres humanos. Por isso o Senhor declara: “Pois são Meus todos os animais do bosque e as alimárias aos milhares sobre as montanhas.”
Deus não precisava dos animais oferecidos no altar.
“Se Eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é Meu e quanto nele se contém.”
A adoração jamais existiu para suprir alguma necessidade divina. Ela existe para revelar nossa dependência de Deus.
Por isso, depois de desmontar uma religião meramente ritual, o Senhor diz: “Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo; invoca-Me no dia da angústia; Eu te livrarei, e tu Me glorificarás.”
Deus procura relacionamento.
Ele deseja gratidão verdadeira, fidelidade e confiança. Deseja que O invoquemos quando percebemos nossa necessidade.
Mas o Salmo vai ainda mais fundo. Deus se dirige àqueles que conheciam Seus mandamentos e falavam sobre Sua aliança, mas viviam de maneira contrária àquilo que professavam. Condenavam o mal com os lábios enquanto o toleravam na própria vida.
Aqui está uma das formas mais perigosas de engano espiritual: confundir conhecimento da verdade com submissão à verdade.
Podemos saber explicar doutrinas e continuar resistindo à transformação. Podemos defender princípios corretos e tratar pessoas de maneira errada. Podemos falar sobre Deus enquanto nossas escolhas revelam que Sua autoridade possui pouco espaço em nossa vida.
No grande conflito entre o bem e o mal, Satanás não precisa necessariamente eliminar a religião. Uma religião preservada exteriormente, mas desconectada do caráter de Deus, também pode servir ao engano.
Cristo enfrentou esse mesmo problema. Séculos depois, encontrou pessoas extremamente cuidadosas com práticas religiosas, mas negligentes quanto à justiça, à misericórdia e à fé. Jesus não rejeitou a obediência. Ele revelou que a verdadeira obediência começa no coração.
O Salmo 50 também contém uma advertência séria sobre o silêncio de Deus: “Tens feito estas coisas, e Eu Me calei; pensavas que Eu era teu igual.”
O fato de Deus não corrigir imediatamente cada escolha errada não significa aprovação.
Sua paciência é oportunidade para arrependimento.
E então o Salmo termina mostrando aquilo que realmente O honra: “O que Me oferece sacrifício de ações de graças, esse Me glorificará; e ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus.”
Talvez a pergunta deste Salmo seja desconfortável, mas necessária: se retirássemos todas as formas externas da nossa religião, o que restaria entre nós e Deus?
Restaria confiança? Gratidão? Obediência? Arrependimento? Desejo sincero de Sua presença?
Deus não procura apenas nossas palavras, nossos rituais ou aquilo que colocamos diante Dele.
Ele procura a nós.
Porque a verdadeira adoração começa quando deixamos de simplesmente oferecer coisas a Deus e finalmente oferecemos a Ele o coração.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
