Um El Niño excepcional se fortalece enquanto enchentes, calor, secas e colapsos ambientais deixam um rastro crescente de destruição. Há quase dois mil anos, o Apocalipse registrou uma frase inquietante: chegaria o tempo de Deus “destruir os que destroem a terra”.
Há imagens que permanecem na memória muito depois de desaparecerem das manchetes. No Nepal, elas chegaram no fim de agosto na forma de uma massa colossal de água, lama e rochas descendo pelas montanhas do Himalaia. Em 26 de agosto, um colapso glacial desencadeou uma inundação repentina que atravessou o sistema dos rios Bhote Koshi e Trishuli, arrastando comunidades, estradas, pontes e instalações hidrelétricas. No início de setembro, mais de mil mortes já haviam sido registradas e milhares de pessoas continuavam desaparecidas. Somente nas áreas analisadas inicialmente, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estimou que a catástrofe deixou 2,2 milhões de toneladas de destroços, enquanto dezenas de milhares de pessoas foram afetadas em municípios onde grande parte da população depende da agricultura para sobreviver. Não foi apenas uma inundação. Em questão de minutos, a própria geografia pareceu adquirir movimento.
Há ainda incertezas científicas importantes sobre a sequência exata que desencadeou o desastre, e seria irresponsável atribuir cada componente da tragédia diretamente às mudanças climáticas. A Organização Mundial da Saúde registra que a onda de inundação pode ter sido relacionada a uma avalanche de gelo a montante e ao represamento temporário de um rio na região chinesa do Tibete, enquanto avaliações continuam sendo realizadas. A tragédia, contudo, aconteceu em uma região particularmente vulnerável às transformações das altas montanhas, onde gelo, lagos glaciais, encostas instáveis e infraestrutura humana coexistem em equilíbrio delicado. Depois do desastre, autoridades nepalesas passaram a trabalhar na reconstrução de sistemas de alerta com sensores sísmicos, câmeras e comunicação por satélite, porque o terreno continua instável e novos deslizamentos podem ocorrer.
Enquanto equipes ainda procuram sobreviventes no Nepal, outra notícia chegou de Genebra. Em 3 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial anunciou que o El Niño está firmemente estabelecido no Pacífico e deverá continuar se intensificando nos próximos meses, possivelmente alcançando a categoria de evento muito forte. Os modelos utilizados pela organização apontam probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até fevereiro de 2027, alimentado por temperaturas excepcionalmente elevadas nas águas tropicais do Pacífico. A consequência não será uniforme nem poderá ser prevista da mesma maneira para cada região, mas a ciência conhece suficientemente o fenômeno para antecipar alterações importantes nos padrões de temperatura e precipitação, com aumento dos riscos de secas, enchentes e calor extremo em diferentes partes do planeta.
O El Niño não é criação da mudança climática. É um fenômeno natural do sistema terrestre que existia muito antes da industrialização e continuará existindo independentemente dela. Essa distinção é fundamental. O que preocupa os cientistas é a interação entre oscilações naturais poderosas e um planeta cuja temperatura média já foi elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. A própria Organização Meteorológica Mundial advertiu que um El Niño excepcional exige preparação excepcional, justamente porque alterações naturais de circulação oceânica e atmosférica agora operam sobre condições climáticas diferentes das que existiam no passado. A Reuters informou que o fenômeno atualmente em formação pode tornar-se um dos mais intensos já observados, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente advertiu nesta mesma semana que a elevação da temperatura global deverá ultrapassar 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais dentro de poucos anos, intensificando pressões sobre ecossistemas, geleiras e cidades costeiras.
Talvez o aspecto mais inquietante não seja qualquer desastre isolado, mas a sensação de que acontecimentos classificados como extremos começam a disputar espaço entre si. Enquanto o Nepal procura desaparecidos sob lama e escombros, a China enfrenta chuvas torrenciais e inundações associadas ao tufão Saudel. Durante o verão, calor intenso e precipitações excessivas atingiram importantes regiões agrícolas chinesas. Na Europa, o Reino Unido acaba de registrar o verão mais quente de sua série histórica pelo segundo ano consecutivo, com secas, pressão sobre a agricultura, infraestrutura e combate a incêndios, enquanto dados oficiais espanhóis atribuíram ao calor mais de duas mil mortes apenas durante agosto. Incêndios florestais voltaram a colocar a Indonésia em alerta. Não estamos falando de uma única calamidade que possa ser apresentada como prova definitiva de uma transformação planetária, mas de uma sucessão de pressões que, vistas em conjunto, tornam cada vez mais difícil tratar o clima apenas como pano de fundo silencioso da história humana.
É nesse cenário que uma frase quase escondida no centro do Apocalipse adquire uma força extraordinária. Depois da sétima trombeta, João contempla o momento em que o domínio deste mundo pertence finalmente a Cristo e registra que chegou o tempo determinado para o juízo, para a recompensa dos servos de Deus e para “destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18). Para um leitor antigo, essa última expressão poderia parecer curiosa. O planeta parecia imenso, os recursos naturais praticamente inesgotáveis e a capacidade humana de alterar sistemas inteiros da Terra era incomparavelmente menor do que aquela adquirida pela civilização industrial. Hoje, entretanto, sabemos que nossa espécie consegue modificar florestas em escala continental, alterar rios, contaminar oceanos, extinguir espécies, remover montanhas, transformar a composição química da atmosfera e interferir no equilíbrio climático do planeta.
Isso não significa que Apocalipse 11:18 seja simplesmente uma previsão moderna sobre aquecimento global. Reduzir a passagem a uma profecia climática seria ignorar seu contexto. O capítulo descreve o conflito entre o reino de Deus e poderes humanos que se rebelam contra Sua autoridade, e a destruição da Terra aparece dentro de um quadro muito maior de pecado, julgamento e restauração. A palavra, contudo, é impressionante porque inclui a própria criação entre aquilo que a rebelião humana alcança. O pecado bíblico nunca destrói apenas o interior do homem. Ele transborda para as relações, para as sociedades e, finalmente, para o mundo sobre o qual recebemos responsabilidade.
Desde Gênesis existe uma ligação entre moralidade humana e criação. O homem recebe um jardim para cultivar e guardar, não para consumir sem limites. Depois da queda, a própria terra aparece ferida pela ruptura. Os profetas descrevem períodos nos quais violência, injustiça e corrupção humana repercutem sobre campos, animais e paisagens. Paulo escreve que “toda a criação geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8:22). O Apocalipse leva essa história ao seu limite e apresenta um Deus que não observa indiferente enquanto aquilo que criou é sistematicamente degradado.
Há algo profundamente contemporâneo nessa imagem. Nossa civilização construiu uma economia baseada na ideia implícita de expansão permanente dentro de um planeta finito. Extraímos, produzimos, transportamos, consumimos e descartamos em uma escala que nenhuma geração anterior poderia imaginar. Florestas tornam-se mercadorias, rios recebem resíduos, oceanos acumulam plástico, cidades avançam sobre áreas frágeis e a atmosfera recebe aquilo que as chaminés, motores e processos industriais liberam. Ao mesmo tempo, bilhões de pessoas legitimamente aspiram ao conforto material que uma parcela menor da humanidade desfrutou durante décadas. A equação é complexa e não admite soluções simplistas, porque desenvolvimento econômico também retirou multidões da pobreza, aumentou a expectativa de vida e permitiu avanços extraordinários. O problema não está em reconhecer o progresso, mas em imaginar que progresso possa continuar indefinidamente sem responsabilidade moral sobre suas consequências.
É aqui que precisamos evitar outra simplificação perigosa. Quando uma enchente destrói uma cidade, não podemos apontar para suas vítimas e afirmar que Deus decidiu puni-las. Jesus rejeitou exatamente esse raciocínio ao falar daqueles que morreram quando a torre de Siloé caiu. Tragédia não constitui certificado de culpa individual. Muitas vezes, ocorre justamente o contrário: populações que menos contribuíram para determinados desequilíbrios ambientais estão entre as que possuem menos recursos para proteger-se deles. Comunidades pobres vivem em encostas, margens de rios e construções vulneráveis; países com pouca infraestrutura dispõem de sistemas de alerta menos sofisticados; famílias que dependem diretamente da agricultura não possuem reservas financeiras para absorver uma safra perdida. O sofrimento climático frequentemente expõe não apenas a fragilidade da natureza, mas também as desigualdades que construímos sobre ela.
O Nepal tornou isso dolorosamente visível. A inundação atingiu comunidades montanhosas onde agricultura e hidreletricidade são componentes essenciais da sobrevivência econômica. Onze usinas hidrelétricas e uma instalação solar interromperam suas operações, projetos em construção foram danificados e dezenas de milhares de pessoas passaram a enfrentar uma recuperação que continuará muito depois de as câmeras internacionais deixarem a região. A tragédia mostra como uma sociedade pode depender da própria força da natureza para produzir energia e, ao mesmo tempo, descobrir quão pequena é diante dela quando um sistema montanhoso inteiro perde seu equilíbrio.
Talvez seja justamente essa contradição que nosso tempo tenha dificuldade de aceitar. Dominamos átomos, enviamos máquinas para outros planetas, construímos inteligência artificial, manipulamos genes e transportamos informação ao redor do mundo praticamente à velocidade da luz, mas continuamos incapazes de impedir que algumas horas de chuva paralisem metrópoles, que uma onda de calor mate milhares, que um incêndio atravesse regiões inteiras ou que o colapso de uma massa de gelo transforme um vale habitado em um corredor de lama e pedras. Quanto mais poderosa se torna nossa civilização, mais descobrimos a extensão das dependências invisíveis que a sustentam.
Isso ajuda a compreender Apocalipse 11:18 por outro ângulo. O texto não diz simplesmente que Deus destruirá a Terra; diz que Ele destruirá “os que destroem a terra”. Existe uma diferença moral decisiva. O Criador aparece como aquele que finalmente coloca limite à destruição. O juízo não é apresentado como desprezo pelo mundo material, mas como resposta àquilo que corrompe Sua criação. A esperança cristã, portanto, não é a fuga definitiva de um planeta descartável. O Apocalipse termina justamente com “novo céu e nova terra”, com restauração, vida, rio, árvore e uma criação novamente livre da maldição.
Por isso, o cristão deveria resistir a dois extremos igualmente pobres. De um lado está o alarmismo que transforma cada furacão, terremoto ou inundação em anúncio imediato do fim. Do outro está a indiferença que considera o cuidado da Terra assunto ideológico sem relevância espiritual. A Bíblia não autoriza nenhum dos dois. Jesus nos ensinou a reconhecer a fragilidade da história sem estabelecer datas, e as Escrituras apresentam o mundo natural como criação pertencente a Deus, confiada temporariamente às mãos humanas.
O El Niño que agora se fortalece passará, como passaram outros antes dele. Depois dele virão novas oscilações do Pacífico, novos anos de chuva e seca, novos recordes serão estabelecidos e eventualmente superados. Nenhum fenômeno isolado precisa ser transformado em cumprimento profético para que percebamos a dimensão espiritual do que está acontecendo. A questão mais profunda está na trajetória: uma humanidade tecnologicamente poderosa tornou-se também capaz de deixar marcas planetárias, enquanto a natureza responde através de sistemas tão complexos que nossas melhores ferramentas conseguem antecipar parte de seus movimentos, mas não dominá-los.
Talvez por isso as palavras de João soem tão diferentes hoje.
“Destruir os que destroem a terra.”
Durante séculos, poderíamos ler essa frase principalmente como linguagem distante do juízo. Nossa geração consegue lê-la olhando pela janela. Vemos rios degradados, florestas recuando, geleiras instáveis, oceanos aquecidos, cidades vulneráveis e fenômenos naturais encontrando um planeta progressivamente transformado pela atividade humana. Isso não nos permite declarar que cada enchente seja juízo divino, nem que cada recorde climático seja um relógio profético avançando um minuto. Permite algo mais sóbrio: reconhecer que a Bíblia jamais separou completamente a condição moral da humanidade da condição do mundo que lhe foi confiado.
Enquanto equipes continuam cavando lama no Nepal e meteorologistas observam o Pacífico aquecer, talvez a pergunta mais importante não seja se o próximo El Niño será o mais forte da história.
A pergunta é o que estamos nos tornando enquanto a Terra que recebemos também se transforma.
Porque o Apocalipse não termina com o homem destruindo indefinidamente a criação.
Ele termina com Deus colocando um limite.
E restaurando aquilo que o pecado destruiu.
