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terça-feira, 15 de setembro de 2026

QUANDO ROMA CONVIDA O MUNDO PARA A MESMA MESA (2026.09.15)

O Vaticano reuniu empresas, sindicatos, bancos, universidades e organismos internacionais para discutir trabalho, tecnologia, meio ambiente e uma nova responsabilidade social. O domingo não apareceu como proposta do encontro. Mas ele já está presente, de maneira muito concreta, na doutrina que Roma oferece como referência para essas decisões.

Em 12 de setembro, Leão XIV recebeu no Vaticano os participantes do encontro “Fratelli tutti: Diálogo Socioambiental Norte-Sul”. A composição da reunião merece atenção: representantes da Igreja estavam ao lado de organismos internacionais, bancos regionais, empresas, fundações, sindicatos, entidades patronais, universidades e organizações sociais. O objetivo declarado é avançar numa agenda de cooperação capaz de produzir modelos de desenvolvimento mais humanos, sustentáveis e solidários diante das transformações econômicas e tecnológicas. O papa defendeu instituições capazes de regular sem sufocar, empresas que coloquem trabalho e dignidade entre seus critérios de sucesso e uma cooperação que transforme princípios em decisões concretas. (Vaticano Press)

Nada no encontro anunciou uma legislação dominical. A relevância está em outro ponto. Leão XIV afirmou que a Doutrina Social da Igreja deve oferecer critérios para avaliar se decisões econômicas, sociais e políticas respeitam a dignidade humana e servem ao bem comum. Quando examinamos essa doutrina, encontramos algo que não precisa ser inferido: o descanso semanal é apresentado como direito social, o domingo ocupa o lugar reservado pela Igreja a esse descanso e as autoridades públicas são chamadas a impedir que exigências econômicas privem as pessoas do tempo destinado ao repouso e ao culto. O Compêndio da Doutrina Social vai além ao ensinar que os cristãos devem buscar o reconhecimento dos domingos e dias santos como feriados legais. (Vaticano Press)

A conexão torna-se ainda mais significativa quando o tema ambiental entra nessa equação. Na Laudato Si’, Francisco associou explicitamente ecologia, trabalho, descanso e domingo. O documento apresenta o domingo como um dia de restauração das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo, relacionando o descanso semanal à contenção da busca desenfreada pelo benefício econômico, aos direitos das pessoas, ao cuidado dos pobres e à proteção da natureza. Dessa forma, o domingo deixa de aparecer apenas como prática litúrgica e passa a integrar uma visão mais ampla sobre como a sociedade deveria organizar trabalho, consumo e relação com a criação. (Vaticano)

É precisamente aqui que o encontro de setembro ganha interesse profético. Roma não colocou sobre a mesa uma proposta de “lei dominical”; colocou sobre a mesa princípios para orientar decisões sobre economia, trabalho, tecnologia e meio ambiente, diante justamente dos atores que possuem condições de transformar ideias em políticas, normas empresariais e acordos institucionais. Dentro do conjunto doutrinário oferecido como referência para esse discernimento já existe uma ligação estabelecida entre bem comum, direito ao descanso, culto, domingo e responsabilidade das autoridades públicas.

Isso não demonstra a existência de um projeto oculto. Mostra algo mais concreto: os elementos não precisam surgir simultaneamente para que, no futuro, possam convergir. Uma crise ambiental pode exigir mudanças de consumo; transformações tecnológicas podem provocar novas regras para o trabalho; a defesa da família pode fortalecer a reivindicação por um descanso comum; e uma sociedade exausta pode receber com simpatia a ideia de reservar coletivamente um dia para interromper produção e consumo. Se algum dia essa discussão chegar ao calendário semanal, Roma não precisará inventar uma resposta. Sua doutrina já possui uma.

Para a leitura historicista, essa trajetória chama atenção porque Daniel 7:25 apresenta um poder religioso relacionado à tentativa de alterar “tempos e lei”, enquanto Apocalipse 13 descreve um estágio posterior no qual convicção religiosa e autoridade civil deixam de atuar separadamente. O ponto decisivo da profecia não é a existência do domingo no calendário, mas o momento em que uma instituição religiosa consegue influenciar o poder civil para transformar uma questão de adoração em obrigação social.

Ainda estamos muito longe de poder afirmar que o encontro realizado no Vaticano representa esse acontecimento. Não houve decreto dominical, coerção religiosa ou proposta dessa natureza. Mas seria igualmente superficial ignorar a arquitetura que está se formando: Roma procura ocupar novamente um lugar de referência moral nos grandes debates internacionais, apresenta sua Doutrina Social como critério para decisões públicas e aproxima setores religiosos, econômicos, trabalhistas, acadêmicos e institucionais em torno de problemas que nenhum deles consegue resolver sozinho. (Vaticano Press)

Talvez o aspecto mais importante seja justamente a naturalidade desse processo. Uma futura mudança social dificilmente precisaria começar com argumentos religiosos. Poderia nascer da proteção ao trabalhador, da família, da saúde mental, da sustentabilidade ou da necessidade de reduzir o ritmo de produção e consumo. O domingo poderia aparecer apenas no final da discussão, apresentado não como imposição religiosa, mas como solução social para problemas que todos já concordaram que precisam ser resolvidos.

É por isso que vale observar quando Roma convida o mundo para a mesma mesa. Não porque já saibamos o que será decidido nela, mas porque a profecia nos ensinou a prestar atenção quando religião, sociedade e poder começam a encontrar uma linguagem comum.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A TERRA ESTÁ RESPONDENDO? (2026.09.03)

Um El Niño excepcional se fortalece enquanto enchentes, calor, secas e colapsos ambientais deixam um rastro crescente de destruição. Há quase dois mil anos, o Apocalipse registrou uma frase inquietante: chegaria o tempo de Deus “destruir os que destroem a terra”.

Há imagens que permanecem na memória muito depois de desaparecerem das manchetes. No Nepal, elas chegaram no fim de agosto na forma de uma massa colossal de água, lama e rochas descendo pelas montanhas do Himalaia. Em 26 de agosto, um colapso glacial desencadeou uma inundação repentina que atravessou o sistema dos rios Bhote Koshi e Trishuli, arrastando comunidades, estradas, pontes e instalações hidrelétricas. No início de setembro, mais de mil mortes já haviam sido registradas e milhares de pessoas continuavam desaparecidas. Somente nas áreas analisadas inicialmente, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estimou que a catástrofe deixou 2,2 milhões de toneladas de destroços, enquanto dezenas de milhares de pessoas foram afetadas em municípios onde grande parte da população depende da agricultura para sobreviver. Não foi apenas uma inundação. Em questão de minutos, a própria geografia pareceu adquirir movimento.

Há ainda incertezas científicas importantes sobre a sequência exata que desencadeou o desastre, e seria irresponsável atribuir cada componente da tragédia diretamente às mudanças climáticas. A Organização Mundial da Saúde registra que a onda de inundação pode ter sido relacionada a uma avalanche de gelo a montante e ao represamento temporário de um rio na região chinesa do Tibete, enquanto avaliações continuam sendo realizadas. A tragédia, contudo, aconteceu em uma região particularmente vulnerável às transformações das altas montanhas, onde gelo, lagos glaciais, encostas instáveis e infraestrutura humana coexistem em equilíbrio delicado. Depois do desastre, autoridades nepalesas passaram a trabalhar na reconstrução de sistemas de alerta com sensores sísmicos, câmeras e comunicação por satélite, porque o terreno continua instável e novos deslizamentos podem ocorrer.

Enquanto equipes ainda procuram sobreviventes no Nepal, outra notícia chegou de Genebra. Em 3 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial anunciou que o El Niño está firmemente estabelecido no Pacífico e deverá continuar se intensificando nos próximos meses, possivelmente alcançando a categoria de evento muito forte. Os modelos utilizados pela organização apontam probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno até fevereiro de 2027, alimentado por temperaturas excepcionalmente elevadas nas águas tropicais do Pacífico. A consequência não será uniforme nem poderá ser prevista da mesma maneira para cada região, mas a ciência conhece suficientemente o fenômeno para antecipar alterações importantes nos padrões de temperatura e precipitação, com aumento dos riscos de secas, enchentes e calor extremo em diferentes partes do planeta.

O El Niño não é criação da mudança climática. É um fenômeno natural do sistema terrestre que existia muito antes da industrialização e continuará existindo independentemente dela. Essa distinção é fundamental. O que preocupa os cientistas é a interação entre oscilações naturais poderosas e um planeta cuja temperatura média já foi elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. A própria Organização Meteorológica Mundial advertiu que um El Niño excepcional exige preparação excepcional, justamente porque alterações naturais de circulação oceânica e atmosférica agora operam sobre condições climáticas diferentes das que existiam no passado. A Reuters informou que o fenômeno atualmente em formação pode tornar-se um dos mais intensos já observados, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente advertiu nesta mesma semana que a elevação da temperatura global deverá ultrapassar 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais dentro de poucos anos, intensificando pressões sobre ecossistemas, geleiras e cidades costeiras.

Talvez o aspecto mais inquietante não seja qualquer desastre isolado, mas a sensação de que acontecimentos classificados como extremos começam a disputar espaço entre si. Enquanto o Nepal procura desaparecidos sob lama e escombros, a China enfrenta chuvas torrenciais e inundações associadas ao tufão Saudel. Durante o verão, calor intenso e precipitações excessivas atingiram importantes regiões agrícolas chinesas. Na Europa, o Reino Unido acaba de registrar o verão mais quente de sua série histórica pelo segundo ano consecutivo, com secas, pressão sobre a agricultura, infraestrutura e combate a incêndios, enquanto dados oficiais espanhóis atribuíram ao calor mais de duas mil mortes apenas durante agosto. Incêndios florestais voltaram a colocar a Indonésia em alerta. Não estamos falando de uma única calamidade que possa ser apresentada como prova definitiva de uma transformação planetária, mas de uma sucessão de pressões que, vistas em conjunto, tornam cada vez mais difícil tratar o clima apenas como pano de fundo silencioso da história humana.

É nesse cenário que uma frase quase escondida no centro do Apocalipse adquire uma força extraordinária. Depois da sétima trombeta, João contempla o momento em que o domínio deste mundo pertence finalmente a Cristo e registra que chegou o tempo determinado para o juízo, para a recompensa dos servos de Deus e para “destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18). Para um leitor antigo, essa última expressão poderia parecer curiosa. O planeta parecia imenso, os recursos naturais praticamente inesgotáveis e a capacidade humana de alterar sistemas inteiros da Terra era incomparavelmente menor do que aquela adquirida pela civilização industrial. Hoje, entretanto, sabemos que nossa espécie consegue modificar florestas em escala continental, alterar rios, contaminar oceanos, extinguir espécies, remover montanhas, transformar a composição química da atmosfera e interferir no equilíbrio climático do planeta.

Isso não significa que Apocalipse 11:18 seja simplesmente uma previsão moderna sobre aquecimento global. Reduzir a passagem a uma profecia climática seria ignorar seu contexto. O capítulo descreve o conflito entre o reino de Deus e poderes humanos que se rebelam contra Sua autoridade, e a destruição da Terra aparece dentro de um quadro muito maior de pecado, julgamento e restauração. A palavra, contudo, é impressionante porque inclui a própria criação entre aquilo que a rebelião humana alcança. O pecado bíblico nunca destrói apenas o interior do homem. Ele transborda para as relações, para as sociedades e, finalmente, para o mundo sobre o qual recebemos responsabilidade.

Desde Gênesis existe uma ligação entre moralidade humana e criação. O homem recebe um jardim para cultivar e guardar, não para consumir sem limites. Depois da queda, a própria terra aparece ferida pela ruptura. Os profetas descrevem períodos nos quais violência, injustiça e corrupção humana repercutem sobre campos, animais e paisagens. Paulo escreve que “toda a criação geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8:22). O Apocalipse leva essa história ao seu limite e apresenta um Deus que não observa indiferente enquanto aquilo que criou é sistematicamente degradado.

Há algo profundamente contemporâneo nessa imagem. Nossa civilização construiu uma economia baseada na ideia implícita de expansão permanente dentro de um planeta finito. Extraímos, produzimos, transportamos, consumimos e descartamos em uma escala que nenhuma geração anterior poderia imaginar. Florestas tornam-se mercadorias, rios recebem resíduos, oceanos acumulam plástico, cidades avançam sobre áreas frágeis e a atmosfera recebe aquilo que as chaminés, motores e processos industriais liberam. Ao mesmo tempo, bilhões de pessoas legitimamente aspiram ao conforto material que uma parcela menor da humanidade desfrutou durante décadas. A equação é complexa e não admite soluções simplistas, porque desenvolvimento econômico também retirou multidões da pobreza, aumentou a expectativa de vida e permitiu avanços extraordinários. O problema não está em reconhecer o progresso, mas em imaginar que progresso possa continuar indefinidamente sem responsabilidade moral sobre suas consequências.

É aqui que precisamos evitar outra simplificação perigosa. Quando uma enchente destrói uma cidade, não podemos apontar para suas vítimas e afirmar que Deus decidiu puni-las. Jesus rejeitou exatamente esse raciocínio ao falar daqueles que morreram quando a torre de Siloé caiu. Tragédia não constitui certificado de culpa individual. Muitas vezes, ocorre justamente o contrário: populações que menos contribuíram para determinados desequilíbrios ambientais estão entre as que possuem menos recursos para proteger-se deles. Comunidades pobres vivem em encostas, margens de rios e construções vulneráveis; países com pouca infraestrutura dispõem de sistemas de alerta menos sofisticados; famílias que dependem diretamente da agricultura não possuem reservas financeiras para absorver uma safra perdida. O sofrimento climático frequentemente expõe não apenas a fragilidade da natureza, mas também as desigualdades que construímos sobre ela.

O Nepal tornou isso dolorosamente visível. A inundação atingiu comunidades montanhosas onde agricultura e hidreletricidade são componentes essenciais da sobrevivência econômica. Onze usinas hidrelétricas e uma instalação solar interromperam suas operações, projetos em construção foram danificados e dezenas de milhares de pessoas passaram a enfrentar uma recuperação que continuará muito depois de as câmeras internacionais deixarem a região. A tragédia mostra como uma sociedade pode depender da própria força da natureza para produzir energia e, ao mesmo tempo, descobrir quão pequena é diante dela quando um sistema montanhoso inteiro perde seu equilíbrio.

Talvez seja justamente essa contradição que nosso tempo tenha dificuldade de aceitar. Dominamos átomos, enviamos máquinas para outros planetas, construímos inteligência artificial, manipulamos genes e transportamos informação ao redor do mundo praticamente à velocidade da luz, mas continuamos incapazes de impedir que algumas horas de chuva paralisem metrópoles, que uma onda de calor mate milhares, que um incêndio atravesse regiões inteiras ou que o colapso de uma massa de gelo transforme um vale habitado em um corredor de lama e pedras. Quanto mais poderosa se torna nossa civilização, mais descobrimos a extensão das dependências invisíveis que a sustentam.

Isso ajuda a compreender Apocalipse 11:18 por outro ângulo. O texto não diz simplesmente que Deus destruirá a Terra; diz que Ele destruirá “os que destroem a terra”. Existe uma diferença moral decisiva. O Criador aparece como aquele que finalmente coloca limite à destruição. O juízo não é apresentado como desprezo pelo mundo material, mas como resposta àquilo que corrompe Sua criação. A esperança cristã, portanto, não é a fuga definitiva de um planeta descartável. O Apocalipse termina justamente com “novo céu e nova terra”, com restauração, vida, rio, árvore e uma criação novamente livre da maldição.

Por isso, o cristão deveria resistir a dois extremos igualmente pobres. De um lado está o alarmismo que transforma cada furacão, terremoto ou inundação em anúncio imediato do fim. Do outro está a indiferença que considera o cuidado da Terra assunto ideológico sem relevância espiritual. A Bíblia não autoriza nenhum dos dois. Jesus nos ensinou a reconhecer a fragilidade da história sem estabelecer datas, e as Escrituras apresentam o mundo natural como criação pertencente a Deus, confiada temporariamente às mãos humanas.

O El Niño que agora se fortalece passará, como passaram outros antes dele. Depois dele virão novas oscilações do Pacífico, novos anos de chuva e seca, novos recordes serão estabelecidos e eventualmente superados. Nenhum fenômeno isolado precisa ser transformado em cumprimento profético para que percebamos a dimensão espiritual do que está acontecendo. A questão mais profunda está na trajetória: uma humanidade tecnologicamente poderosa tornou-se também capaz de deixar marcas planetárias, enquanto a natureza responde através de sistemas tão complexos que nossas melhores ferramentas conseguem antecipar parte de seus movimentos, mas não dominá-los.

Talvez por isso as palavras de João soem tão diferentes hoje.

“Destruir os que destroem a terra.”

Durante séculos, poderíamos ler essa frase principalmente como linguagem distante do juízo. Nossa geração consegue lê-la olhando pela janela. Vemos rios degradados, florestas recuando, geleiras instáveis, oceanos aquecidos, cidades vulneráveis e fenômenos naturais encontrando um planeta progressivamente transformado pela atividade humana. Isso não nos permite declarar que cada enchente seja juízo divino, nem que cada recorde climático seja um relógio profético avançando um minuto. Permite algo mais sóbrio: reconhecer que a Bíblia jamais separou completamente a condição moral da humanidade da condição do mundo que lhe foi confiado.

Enquanto equipes continuam cavando lama no Nepal e meteorologistas observam o Pacífico aquecer, talvez a pergunta mais importante não seja se o próximo El Niño será o mais forte da história.

A pergunta é o que estamos nos tornando enquanto a Terra que recebemos também se transforma.

Porque o Apocalipse não termina com o homem destruindo indefinidamente a criação.

Ele termina com Deus colocando um limite.

E restaurando aquilo que o pecado destruiu.

A ECOLOGIA ENCONTRA O DESCANSO (2026.09.01)

Leão XIV amplia o chamado da Igreja para participar das grandes questões do mundo. Meio ambiente, família, trabalho e repouso começam a aparecer dentro de uma mesma visão social — e existe uma razão bíblica para observar atentamente essa convergência.

Em apenas dois dias, duas manifestações de Leão XIV ofereceram uma imagem particularmente clara do lugar que a Igreja Católica pretende ocupar diante das transformações do nosso tempo. Em 1º de setembro, celebrando o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, o Papa falou da necessidade de uma “autêntica conversão ecológica”, apresentou a preservação da criação como responsabilidade pessoal e coletiva e convidou os fiéis a interromperem por alguns momentos a agitação das atividades cotidianas para recuperar a contemplação daquilo que Deus criou. No dia seguinte, ao iniciar uma série de catequeses sobre a constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, ampliou consideravelmente o horizonte: diante das mudanças rápidas e profundas do mundo contemporâneo, afirmou que a Igreja não pode permanecer como espectadora desinteressada, mas deve escutar, envolver-se e interpretar os “sinais dos tempos” à luz do Evangelho. Entre as contradições que enumerou estavam justamente o futuro do planeta, o consumo egoísta, a desigualdade produzida em meio à abundância, o avanço tecnológico e a incapacidade humana de transformar progresso em verdadeiro bem comum.

Tomadas isoladamente, essas declarações poderiam ser compreendidas simplesmente como mais uma expressão da doutrina social católica contemporânea. Inseridas, porém, na trajetória construída ao longo dos últimos anos e observadas à luz dos documentos que continuam orientando essa agenda, elas revelam algo mais amplo. A questão ecológica deixou de ser apresentada apenas como problema científico ou administrativo e passou a integrar uma visão moral da sociedade na qual ambiente, pobreza, consumo, trabalho, tecnologia, família e espiritualidade pertencem a uma mesma crise. Um documento divulgado pelo Vaticano nesta semana chegou a definir o cuidado da criação como questão teológica, sustentando que a maneira como o ser humano se relaciona com o mundo criado revela também sua relação com Deus. Na mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a degradação ambiental é igualmente relacionada a uma crise ética e cultural e, finalmente, ao próprio coração humano. A solução proposta, portanto, não pode permanecer apenas tecnológica: requer mudança de valores, de comportamentos e da organização da vida coletiva.

É precisamente nesse ponto que surge uma conexão que merece atenção especial. Quando a discussão ambiental deixa de perguntar somente quanto carbono emitimos e começa a perguntar como trabalhamos, quanto consumimos, quanto produzimos e de que maneira organizamos nosso tempo, a ideia de descanso entra naturalmente na equação. E, dentro da tradição social católica que Leão XIV herdou e explicitamente continua desenvolvendo, esse caminho já possui uma formulação religiosa concreta. A Laudato si’ não termina sua reflexão ecológica apenas falando de energia, água, biodiversidade ou mudança climática. Em seu número 237, depois de desenvolver o conceito de ecologia integral, Francisco apresenta o domingo como um dia destinado à recuperação das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo, relacionando o repouso semanal ao cuidado da natureza e dos pobres. O texto faz inclusive uma analogia com o sábado bíblico, embora transfira o centro religioso dessa experiência para a Eucaristia dominical.

Esse detalhe é especialmente relevante porque a discussão não permaneceu confinada ao documento de 2015. Em sua encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio deste ano, Leão XIV construiu outra ponte, desta vez entre transformação econômica, trabalho e família. O Papa descreve a família como um bem social primário que necessita de proteção cultural, jurídica e econômica e sustenta que as mudanças tecnológicas e laborais podem fragilizá-la profundamente. Ao avançar para as respostas necessárias, pede políticas capazes de produzir estabilidade, combater a precariedade e garantir ritmos humanos de vida, advertindo que, sem equilíbrio entre trabalho e descanso, a própria família se enfraquece. Não há, nesse trecho, proposta de legislação dominical. É importante afirmá-lo claramente. Há, entretanto, uma construção conceitual significativa: o repouso deixa de aparecer apenas como preferência individual e passa a ser tratado como componente do bem social que pode demandar respostas econômicas e políticas.

Assim, três linhas que poderiam parecer independentes começam a aproximar-se. A primeira afirma que a crise ambiental exige transformação de hábitos e uma conversão que ultrapassa soluções meramente técnicas. A segunda reconhece o descanso como elemento necessário à dignidade humana, à saúde das relações e à proteção da família. A terceira, estabelecida claramente na Laudato si’, oferece ao repouso uma expressão religiosa específica ao apresentar o domingo como espaço de restauração das relações com Deus, com o próximo e com a criação. Nenhuma dessas afirmações, separadamente ou em conjunto, autoriza dizer que o Vaticano esteja hoje preparando uma lei dominical mundial. Fazer essa afirmação seria ultrapassar as evidências. O que existe, e isso é suficientemente importante para ser observado, é uma arquitetura de ideias dentro da qual ecologia, bem comum, família, trabalho, repouso e domingo já conseguem conversar entre si sem parecer pertencer a assuntos diferentes.

Para quem conhece a profecia bíblica, essa aproximação merece atenção por uma razão que vai muito além da política ambiental. O quarto mandamento não apresenta o sábado como detalhe litúrgico. Ele estabelece uma relação entre adoração, criação, trabalho e descanso: “Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou” (Êxodo 20:11). Antes de existir qualquer discussão contemporânea sobre sustentabilidade, a Escritura já colocava limites à atividade econômica humana e estabelecia um ciclo no qual produzir não poderia ocupar todos os dias, nem o trabalhador, o estrangeiro e até os animais poderiam ser submetidos indefinidamente à lógica da produção. O sábado bíblico possui, portanto, uma dimensão espiritual, social e até ambiental extraordinariamente profunda. Seu fundamento, porém, permanece inseparável de um elemento específico: é o sétimo dia estabelecido pelo Criador.

É justamente aí que aparece a tensão profética. A tradição católica reconhece muitos dos valores inerentes ao princípio bíblico do repouso semanal, mas os reorganiza em torno do domingo. A própria Laudato si’ torna essa operação explícita quando compara o domingo ao sábado judaico e atribui ao primeiro a função de restaurar relações e estimular o cuidado da criação. Do ponto de vista historicista, isso não é um detalhe secundário, porque a profecia de Daniel descreve um poder religioso que atuaria precisamente no terreno dos “tempos e da lei” (Daniel 7:25), enquanto Apocalipse 13 desloca a crise final para a relação entre adoração, autoridade e coerção. O conflito apresentado nesses textos não nasce essencialmente de uma disputa ambiental, econômica ou trabalhista. Ele alcança a questão fundamental de quem possui autoridade sobre a consciência e sobre a adoração.

Por isso, seria um erro procurar nas declarações desta semana aquilo que elas não dizem. Leão XIV não anunciou uma lei dominical ecológica. Não apresentou um programa mundial de fechamento do comércio aos domingos. Não afirmou que a proteção da família dependerá da imposição religiosa de determinado dia. O valor profético dos acontecimentos não está em fabricar uma manchete que ainda não existe, mas em perceber como categorias anteriormente separadas podem tornar-se progressivamente compatíveis dentro do discurso público. Uma sociedade preocupada com exaustão profissional pode defender descanso. Uma sociedade preocupada com a desintegração familiar pode desejar tempo comum para pais e filhos. Uma sociedade preocupada com consumo excessivo pode enxergar valor em interrupções periódicas da atividade econômica. Uma sociedade preocupada com a crise ambiental pode considerar desejável reduzir determinados ritmos de produção e consumo. E uma tradição religiosa pode oferecer a essas preocupações uma linguagem espiritual capaz de reuni-las em torno de um dia comum.

Nada disso é, em si mesmo, necessariamente perverso. Famílias precisam de tempo. Trabalhadores precisam de descanso. A exploração econômica merece limites. A criação não deve ser tratada como recurso infinito. Há uma beleza genuinamente bíblica em interromper a obsessão produtiva e reconhecer que o homem não existe apenas para trabalhar, comprar e consumir. O discernimento profético começa justamente quando conseguimos reconhecer o valor de uma causa sem concluir que todo instrumento apresentado para promovê-la possui automaticamente a mesma legitimidade. As grandes questões da consciência raramente chegam à história anunciando-se como perseguição. Elas podem surgir acompanhadas de argumentos socialmente atraentes, necessidades reais e objetivos que grande parte da população considera desejáveis.

Esse ponto se torna ainda mais relevante diante da orientação assumida por Leão XIV em 2 de setembro. Ao dizer que a Igreja deve abandonar a passividade diante da história e envolver-se nas grandes questões humanas, o Papa reafirma uma compreensão de missão que ultrapassa a esfera privada da fé. A religião é chamada a participar da interpretação dos problemas da sociedade e a contribuir para suas respostas. Isso, por si só, não representa qualquer cumprimento profético; igrejas sempre participaram da vida social, e seria artificial transformar toda presença religiosa no espaço público em ameaça. A questão que Apocalipse nos ensina a observar é outra: o que acontece quando autoridade religiosa, consenso social e poder civil convergem em torno de matérias que alcançam a consciência? É nesse estágio, e não simplesmente na existência de uma agenda ecológica ou familiar, que o tema assume sua verdadeira dimensão profética.

Talvez por isso a questão do descanso seja tão fascinante para nosso tempo. Ela pode reunir interesses que normalmente estão separados. Ambientalistas podem enxergar redução do consumo; trabalhadores, proteção contra jornadas invasivas; famílias, recuperação de convivência; religiosos, restauração espiritual; governos, uma política social facilmente compreensível. O ponto de encontro entre essas motivações pode parecer inteiramente natural. A profecia, entretanto, convida o cristão a fazer uma pergunta adicional: se um princípio religioso vier algum dia revestido simultaneamente de argumentos ambientais, familiares, econômicos e sociais, continuaremos capazes de distinguir aquilo que é bom em seus objetivos daquilo que pode ser problemático em sua relação com a autoridade de Deus?

A Bíblia apresenta o conflito final não como uma batalha entre pessoas que desejam destruir o planeta e pessoas que pretendem salvá-lo, nem como uma disputa entre quem ama ou despreza a família. O cenário é muito mais profundo. Apocalipse descreve uma humanidade confrontada com uma questão de adoração justamente quando estruturas religiosas e políticas alcançam extraordinária capacidade de influência sobre a vida econômica e social. Isso significa que o cristão não precisa temer a ecologia, rejeitar políticas familiares ou desconfiar automaticamente de qualquer defesa do repouso. Precisa conhecer suficientemente as Escrituras para reconhecer a fronteira entre princípios legítimos de bem comum e a transferência daquilo que pertence à consciência para a esfera da coerção.

Os pronunciamentos de Leão XIV desta semana não nos permitem dizer que essa fronteira tenha sido atravessada. Permitem, contudo, observar algo importante sobre a direção do debate. Ecologia já não é somente ecologia. Trabalho já não é somente economia. Família já não é somente assunto privado. Descanso pode ser apresentado como questão de dignidade e organização social, enquanto a tradição católica já possui uma teologia que relaciona explicitamente domingo, repouso, criação e cuidado dos pobres. As peças não formam automaticamente o cenário profético, mas pertencem a categorias que a própria profecia nos ensinou a observar.

É por isso que vigilância bíblica não significa viver esperando uma declaração espetacular do Vaticano que finalmente confirme tudo. Talvez uma das maiores tentações seja justamente esperar o acontecimento final enquanto deixamos de perceber as mudanças culturais que tornam determinados acontecimentos possíveis. Sistemas de pensamento amadurecem antes das leis. Valores tornam-se consensos antes de se transformarem em políticas. E aquilo que um dia pareceria uma interferência intolerável na liberdade pode, depois de crises suficientes, apresentar-se à sociedade como proteção necessária do planeta, do trabalhador, da família ou do próprio bem comum.

Não precisamos prever quando isso acontecerá, nem afirmar que acontecerá exatamente pelo caminho que hoje conseguimos imaginar. A profecia não nos autorizou a construir calendários sobre aquilo que Deus não revelou. Ela nos deu princípios para reconhecer o caráter das forças em movimento.

Enquanto o mundo discute como salvar a criação, proteger a família e recuperar ritmos mais humanos de vida, a pergunta do cristão permanece silenciosa, mas decisiva: quando chegarmos ao ponto em que descanso, religião e poder público se encontrarem, quem determinará o dia — a conveniência da sociedade, a tradição religiosa ou a Palavra de Deus?

É nesse ponto que a ecologia deixa de ser apenas uma questão sobre o planeta.

E se torna também uma questão de consciência.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Entre epidemias e narrativas: o mundo diante de ameaças visíveis e invisíveis (2026.05.10)

As notícias recentes envolvendo o surgimento de casos de hantavírus voltaram a colocar em evidência uma realidade que já não pode ser tratada como episódica: a vulnerabilidade sanitária global é permanente. Ainda que autoridades internacionais classifiquem o risco atual como controlado e localizado, o simples fato de diferentes países monitorarem possíveis exposições mostra como o mundo permanece sensível a eventos biológicos que, em questão de dias, ultrapassam fronteiras.

É essencial manter o equilíbrio. Não há base técnica para alarmismo generalizado. Contudo, também não é prudente ignorar a frequência com que novos alertas sanitários surgem em um intervalo cada vez menor. O fenômeno não está apenas no vírus em si, mas na velocidade com que o sistema global reage — e na forma como a sociedade interpreta esses eventos.

Nesse contexto, voltam a circular documentos técnicos ligados à farmacovigilância de medicamentos aplicados em larga escala nos últimos anos. Como é padrão nesses registros regulatórios, listas extensas de eventos adversos são incluídas para monitoramento, sem que isso represente, por si só, relação causal comprovada. Ainda assim, a reemergência desses conteúdos no debate público revela algo mais profundo: uma crescente tensão entre confiança institucional e percepção individual de risco.

Paralelamente aos fatos sanitários, surge um segundo elemento que não pode ser ignorado: a construção de narrativas antecipadas. A imagem que circula nas redes sociais — sugerindo que eventos foram “previstos” anos antes — não é, por si só, evidência de qualquer plano oculto. No entanto, ela ilustra um fenômeno contemporâneo relevante: a leitura retroativa de informações, onde declarações passadas passam a ser reinterpretadas à luz de acontecimentos presentes.

Declarações públicas de figuras influentes, como empresários e líderes globais que já mencionaram a possibilidade de novas pandemias em entrevistas ao longo dos últimos anos, frequentemente retornam ao debate em momentos de crise. Em muitos casos, essas falas refletem análises baseadas em dados epidemiológicos históricos — uma vez que especialistas há décadas alertam para a probabilidade de novos surtos em um mundo altamente conectado.

Ainda assim, para o público geral, o efeito psicológico é outro.

Quando eventos parecem seguir discursos anteriores, cresce a sensação de que há algo além do acaso — mesmo que essa percepção não encontre respaldo em evidências concretas. Esse fenômeno não deve ser ridicularizado, mas compreendido: ele revela uma sociedade que perdeu parte de sua confiança nas explicações oficiais e passou a buscar sentido em padrões, ainda que nem todos sejam reais.

É justamente nesse ponto que o cenário se torna mais complexo.

O mundo atual não enfrenta apenas vírus. Ele enfrenta simultaneamente:

  • crises de confiança
  • excesso de informação
  • interpretações divergentes da realidade
  • dependência crescente de soluções centralizadas

E, em ambientes assim, cada novo evento sanitário deixa de ser apenas médico e passa a ser também social, político e psicológico.

Biblicamente, esse tipo de cenário não é descrito de forma isolada, mas como parte de um conjunto. Em Lucas 21, há referência a um tempo marcado por perplexidade, medo e instabilidade entre as nações. Em Apocalipse, aparecem elementos que indicam sofrimento coletivo, desequilíbrio e fragilidade estrutural da humanidade.

Mais uma vez, é necessário manter a sobriedade: surtos específicos não são, isoladamente, cumprimento direto de profecias. A Escritura não trabalha com alarmismo, mas com padrões. E o padrão descrito é o de um mundo em que crises — de diferentes naturezas — passam a se sobrepor e a gerar um ambiente contínuo de incerteza.

Outro ponto relevante é a forma como a humanidade responde a esses desafios.

Diante de ameaças invisíveis, cresce naturalmente a aceitação de medidas mais rígidas, sistemas ampliados de monitoramento e soluções tecnológicas em escala global. Muitas dessas respostas são necessárias e legítimas. Outras, no entanto, trazem consequências que só se tornam claras com o tempo.

A história recente mostrou que intervenções amplas podem produzir efeitos colaterais complexos — não apenas biológicos, mas sociais, econômicos e comportamentais. Isso não invalida os avanços científicos, mas reforça a necessidade de prudência.

No fim, o ponto central talvez não esteja no vírus, nem nas teorias que surgem ao redor dele.

Está na condição de um mundo que, ao mesmo tempo em que evolui tecnologicamente, revela fragilidades cada vez mais profundas — tanto na sua estrutura quanto na sua confiança interna.

E, nesse cenário, a pergunta deixa de ser se novas crises virão.

Mas como a humanidade continuará reagindo a elas.

Porque, quando o medo cresce,
as decisões se tornam mais rápidas —
e nem sempre mais sábias.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Clima, poder e controle: o que está por trás das novas propostas globais (2026.04.28)

A recente intensificação das conferências internacionais sobre mudanças climáticas voltou a evidenciar um dos temas mais sensíveis da agenda global contemporânea: a tentativa de coordenar, em escala planetária, a resposta a um problema que afeta diretamente economias, sociedades e modos de vida. Reuniões envolvendo governos, organismos multilaterais e representantes do setor privado têm buscado estabelecer metas comuns de redução de emissões, transição energética e reorganização de padrões de consumo.

À primeira vista, o objetivo parece claro: conter os efeitos de fenômenos ambientais cada vez mais visíveis e reduzir riscos futuros. No entanto, conforme essas propostas começam a ganhar forma prática, surgem tensões que vão além do campo técnico. Países em desenvolvimento frequentemente apontam que as exigências de redução de emissões podem limitar seu crescimento econômico, enquanto nações já industrializadas carregam uma responsabilidade histórica maior pelo atual nível de poluição global. Ao mesmo tempo, grandes economias continuam a depender fortemente de combustíveis fósseis, o que revela uma assimetria entre discurso e prática.

Essa disparidade não passa despercebida. O debate climático, que deveria se concentrar exclusivamente em soluções técnicas e sustentáveis, acaba sendo atravessado por interesses econômicos, estratégicos e políticos. Medidas propostas em fóruns internacionais, quando transpostas para a realidade cotidiana, frequentemente recaem de maneira mais direta sobre o cidadão comum, seja por meio de restrições, mudanças de comportamento ou aumento de custos. Isso cria a percepção de que há uma distância entre aqueles que definem as regras e aqueles que precisam se adaptar a elas.

Outro ponto relevante é o grau de consenso dentro da própria comunidade científica. Embora exista alguma concordância sobre a existência de mudanças climáticas e sua eventual relação com atividades humanas, há divergências sustentáveis sobre esses parâmetros e principalmente quanto à intensidade de determinados impactos, às projeções de longo prazo e às melhores estratégias de mitigação. Essas diferenças não invalidam o problema, mas indicam que o debate está longe de ser totalmente uniforme — o que torna ainda mais delicada a formulação de políticas globais rígidas.

À medida que essas propostas avançam, observa-se também uma tendência de expansão do alcance regulatório. Questões ambientais deixam de ser tratadas apenas como orientação e passam a integrar estruturas normativas mais amplas, com potencial de influenciar diretamente a organização da vida social. Entre as ideias discutidas em alguns contextos está a redução coordenada de atividades em determinados períodos, seja por motivos ambientais, energéticos ou de sustentabilidade. Ainda que essas propostas sejam apresentadas como instrumentos técnicos, elas levantam questões sobre até que ponto a regulação pode avançar sobre decisões individuais e coletivas.

É nesse ponto que a reflexão ganha uma dimensão mais profunda. A Bíblia, ao tratar do tempo e da adoração, apresenta o descanso não apenas como necessidade física, mas como princípio espiritual. Ao longo das Escrituras, a questão do dia separado adquire significado que vai além da organização social, envolvendo lealdade, identidade e relacionamento com Deus. Em textos proféticos, especialmente em Apocalipse, há a descrição de um cenário em que práticas relacionadas ao culto e ao tempo passam a ter implicações públicas e até normativas.

Importante manter o equilíbrio: as atuais discussões ambientais não representam, por si só, o cumprimento direto de qualquer profecia específica. No entanto, elas evidenciam a formação de um ambiente em que estruturas globais de coordenação podem influenciar aspectos cada vez mais amplos da vida humana. Quando temas técnicos começam a se transformar em instrumentos regulatórios de alcance coletivo, abre-se espaço para que decisões que antes eram pessoais passem a ser condicionadas por critérios externos.

Diante disso, a análise precisa ir além da polarização. O desafio não está apenas em reconhecer a importância da preservação ambiental, mas em compreender como as soluções propostas são construídas, aplicadas e distribuídas. A busca por equilíbrio entre responsabilidade coletiva e liberdade individual torna-se central em um mundo cada vez mais interconectado.

No fim, a questão não é apenas ambiental. Ela envolve poder, influência e a forma como decisões globais impactam a vida local. E, nesse contexto, a vigilância não deve ser movida por rejeição automática, mas por discernimento — capaz de distinguir entre necessidade legítima e expansão indevida de controle.

Porque, quando estruturas globais passam a definir ritmos da vida humana, a pergunta deixa de ser apenas como preservar o planeta — e passa a ser quem define, em última instância, os limites dessa preservação.

sábado, 16 de abril de 2022

"ECOmenismo: 15 anos depois | o ambientalismo e o decreto dominical"

 


O tema de fundo deste conceito de ECOmenismo - durante algum tempo - se repetiu de forma recorrente neste espaço, o que se iniciou no final de 2006 com o post "A conta do aquecimento do planeta", seguido de "Ano de 2007 será o mais quente já registrado, dizem especialistas" e "Davos: participantes elogiam preocupação de Bush com o clima".

Mas era apenas um devaneio do moderador deste espaço.

A sistematização da ideia e o apoio lógico/fático e teológico, veio com a composição formalizada pelo Pr. Sérgio Santelli no blog "Minuto Profético" que elaborou, recentemente, a conexão temporal com a articulação originária, agora sedimentada no tempo, demonstrando a viabilidade cada vez mais óbvia da materialização no plano da realidade dos eventos a tanto tempo teorizados.

Os posts originais podem ser acessados diretamente a partir de "ECOmenismo: uma verdade inconveniente – Parte 1".

E o vídeo acima explora o arco histórico dos estudos do Pr. Santelli, projetando-os em nossos dias (nossa citação a partir do minuto 24).

Bons estudos!

O Diário da Profecia

domingo, 10 de julho de 2016

A estranha quase-profecia do cardeal Biffi

As declarações hoje soariam estranha

Há pouco menos de dez anos, o líder católico disse que o anticristo seria ecologista, pacifista e ecumêmico

O cardeal Giacomo Biffi (1928-2015) apresentou a Bento XVI e à Cúria Romana “a advertência profética de Vladimir S. Soloviev” sobre o anticristo. O pregador dos exercícios espirituais fez referência ao filósofo e poeta russo, que viveu entre 1853 e 1900, para explicar que o anticristo, na verdade, consiste em reduzir o cristianismo a uma ideologia, em vez de ser um encontro pessoal com Cristo salvador. Citando a obra de Soloviev, Três diálogos (1899), o arcebispo emérito de Bolonha recordou que “o anticristo se apresenta como pacifista, ecologista e ecumênico. Convocará um Concílio ecumênico e buscará o consenso de todas as confissões cristãs, concedendo algo a cada um. As massas o seguirão, menos alguns pequenos grupos de católicos, ortodoxos e protestantes”, disse.

Segundo a síntese de sua pregação [...], oferecida pela Rádio Vaticano, o cardeal explicou que “o ensinamento que o grande filósofo russo nos deixou é que o cristianismo não pode ser reduzido a um conjunto de valores. No centro do ser cristão está, de fato, o encontro pessoal com Jesus Cristo”. “Chegarão dias nos quais na cristandade se tratará de resolver o fato salvífico em uma mera série de valores”, escreveu Soloviev nessa obra.

Em seu “Relato sobre o anticristo”, Soloviev prevê que um pequeno grupo de católicos, ortodoxos e filhos da Reforma resistirá e responderá ao anticristo: “Tu nos dás tudo, menos o que nos interessa: Jesus Cristo.”

Para o cardeal Biffi, essa narrativa é uma advertência. “Hoje, de fato, corremos o risco de ter um cristianismo que põe entre parênteses Jesus com sua Cruz e Ressurreição”, lamentou.

O arcebispo explicou que, se os cristãos se “limitassem a falar de valores compartilháveis, seriam mais aceitos nos programas de televisão e nos grupos sociais. Mas dessa maneira teriam renunciado a Jesus, à realidade surpreendente da Ressurreição”.

Para o purpurado italiano, este é “o perigo que os cristãos correm em nossos dias”: “O Filho de Deus não pode ser reduzido a uma série de bons projetos homologáveis com a mentalidade mundana dominante.” [...]

O pregador dos exercícios precisou na capela Redemptoris Mater, do Palácio Apostólico do Vaticano, que “há valores relativos, como a solidariedade, o amor pela paz e o respeito pela natureza. Se estes se convertem em absolutos, desarraigando ou inclusive opondo-se ao anúncio do fato da salvação, então esses valores se convertem em instigação à idolatria e em obstáculos no caminho da salvação”.

Ao concluir, o cardeal Biffi afirmou que, “se o cristão, para abrir-se ao mundo e dialogar com todos, dilui o fato salvífico, fecha-se à relação pessoal com Jesus e se coloca do lado do anticristo”.

(Padre Augusto Bezerra, via Zenit)

Nota Criacionismo: É realmente irônico que essas palavras do cardeal Biffi, ditas no ano de 2007, descrevam exatamente o perfil do atual papa Francisco: ecologista, pacifista e ecumêmico. Biffi morreu em 2015. Será que continuou sustentando seu ponto de vista?

sexta-feira, 22 de abril de 2016

No Dia da Terra, lideranças assinam acordo sobre clima

Nova York (RV) – Neste 22 de abril, em que o mundo comemora o Dia da Terra, mais de 150 países devem assinar o acordo sobre mudanças climáticas alcançado em dezembro do ano passado em Paris, na COP 21.

Jamais, na história da Organização das Nações Unidas, um número tão grande de países (162) assinaram uma convenção internacional no primeiro dia em que fica aberta para assinatura. Em cerimônia oficial na sede da ONU, em Nova York, mais de 60 chefes de Estado e de governo, entre eles a brasileira Dilma Rousseff, estarão presentes.

Entre os signatários estarão algumas das maiores potências industriais do mundo e vários dos principais emissores de gases do efeito estufa, como China, Estados Unidos, Índia, Japão e vários países da União Europeia.

O primeiro pacto universal de combate à mudança climática indica medidas como o compromisso das nações em reduzirem as emissões de gases de efeito estufa e assim, evitar que a temperatura média global suba mais do que 2º C, limitando o aumento a 1,5°C.

Os prejuízos causados pelo aquecimento da Terra são inúmeros. O derretimento das calotas polares causa o avanço do nível do mar, e o número de áreas desertas por causa da falta de chuva e do calor extremo, cresce. Segundo cientistas, o planeta já esquentou 1°C, suficiente para desequilibrar a natureza.

O Dia da Terra, Casa Comum, é uma festa que pertence à humanidade e não é regulada por uma entidade ou organismo, nem está relacionado com reivindicações políticas, nacionais, religiosas ou ideológicas.

No Brasil, o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, parceiro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, atua no desenvolvimento de políticas de proteção ao clima, cobrar a responsabilidade do poder público; aumentar o nível de conhecimento nas organizações e na sociedade sobre as causas das mudanças climáticas, estratégias e abordagens para enfrentá-las.

Fonte - Radio Vaticano

Nota DDP:  As potências seculares vão se alinhando e, embora se afirme que o tema esteja acima de questões religiosas, não se pode perder de vista a pressão que entidades neste segmento têm feito, especialmente a igreja de roma. Nesse sentido a matéria "Dia da Terra segue pegada ecológica do Papa Francisco". Destacamos:

"O professor universitário Pedro Aguiar Pinto afirmou que o Dia da Terra é um convite à redução pessoal da “pegada ecológica” e disse que o Papa Francisco aborda o tema de forma “inovadora” na encíclica ‘Laudato Si’"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Papa recebe Leonardo DiCaprio: Laudato si em pauta

Cidade do Vaticano (RV) – O ator e ambientalista estadunidense Leonardo DiCaprio foi recebido pelo Papa na manhã desta quinta-feira (28/01).

DiCaprio, que concorrerá novamente ao Oscar de melhor ator por sua atuação em The Revenant, também é reconhecido por suas ações em defesa do meio ambiente.

Foi propriamente o reconhecido engajamento no campo da proteção ambiental que o levou a querer encontrar o Papa Francisco, no qual ele reconhece uma autoridade em matéria, em particular com a publicação da Carta encíclica Laudato si sobre o cuidado da casa comum.

No final do ano passado, o ator discursou na Assembleia da ONU sobre as mudanças climáticas, em Paris. Recentemente, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, anunciou que, por meio de sua fundação, doou 15 milhões de dólares para projetos ambientais e petições junto à lideranças econômicas para que combatam o aquecimento global.

DiCaprio também fez uma doação para as obras de caridade do Pontífice.

O Papa presenteou DiCaprio com uma cópia da Encíclica Laudato Si e da Exortação Evangelii Gaudium.

Fonte - Radio Vaticano

sábado, 12 de dezembro de 2015

Acordo da Cúpula de Paris é aprovado e determina verba para países pobres


"Pela primeira vez, cada país do mundo se compromete a reduzir as emissões, fortalecer a resiliência e se unir em uma...
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Papa pede compromisso global com pacto climático firmado em Paris

#ECOmenismo #Vaticano

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

ONU: Vaticano apela a um «trabalho conjunto» para travar ameaças globais

Conflitos armados, migrações, pobreza e ambiente foram alguns dos desafios apontados pela Santa Sé na 32.ª conferência internacional da Cruz Vermelha

Genebra, Suíça, 09 dez 2015 (Ecclesia) – O representante da Santa Sé junto das Nações Unidas em Genebra apelou ao esforço conjunto dos organismos internacionais humanitários, católicos e da sociedade civil, face às ameaças que se colocam à humanidade.

“Desarmamento, e desamamento nuclear em particular, migrações, pobreza, conflitos armados, respeito pelos direitos humanos e pelas leis em vigor, mudanças climáticas e problemas ambientais, doenças, entre outros, são áreas que devemos trabalhar em conjunto, para assegurar um futuro melhor para as próximas gerações”, frisou D. Silvano Tomasi.

O arcebispo italiano participou em Genebra, Suíça, na 32.ª conferência internacional do Movimento Cruz Vermelha e Crescente Vermelho.

Segundo um comunicado enviado hoje à Agência ECCLESIA, o responsável católico apontou para a necessidade de uma maior “vontade política”, acompanhada de mais “investimento económico e disponibilização de recursos humanos”, para responder às várias frentes que estão em aberto, um pouco por todo o globo.

Numa era em que os conflitos armados parecem ser “intermináveis” e os “desastres naturais”, consequência “da degradação do ambiente e das alterações climáticas, têm um “custo trágico”, é essencial apostar na “prevenção”.

E “a melhor prevenção”, salientou o representante da Santa Sé, “é através do desenvolvimento integral das pessoas, que tem de ter em conta aspetos como o progresso humano, social, económico, educacional, emocional e espiritual”.

“A melhoria da qualidade de vida, tanto dos indivíduos como das famílias, e a promoção das liberdades e dos direitos humanos, especialmente dos mais pobres e marginalizados, podem ser decisivas para evitar novos conflitos armados ou guerras civis”, disse D. Silvano Tomasi.

Uma aposta mais efetiva na formação e educação das pessoas pode também contribuir para que “as leis internacionais e humanitárias” deixem de ser tão “ignoradas e violadas”, complementou o arcebispo.

A 32.ª conferência internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho coincidiu com o 50.º aniversário da proclamação dos princípios fundamentais do Movimento: “Humanidade, imparcialidade, neutralidade, independência, serviço voluntário, unidade e universalidade”.

Na sua intervenção, o delegado permanente da Santa Sé junto da ONU em Genebra enalteceu o “contributo inestimável” que aquela rede humanitária tem dado ao serviço dos mais carenciados e desfavorecidos, “especialmente em situações de crise”.

“Em nome da Santa Sé, quero reconhecer particularmente o esforço da Cruz Vermelha em resposta à epidemia de ébola que causou tanto sofrimento na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa”, concluiu.

Durante a conferência em Genebra, foi decidida a atribuição de um louvor a todos os voluntários que “abnegadamente” prestaram apoio às comunidades locais e às famílias vítimas do vírus.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mundo caminha para 'catástrofe climática', alerta secretário-geral da ONU

O mundo caminha para uma “catástrofe climática”, alertou hoje (7) o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, ao abrir a semana ministerial da cúpula sobre o clima que visa a estabelecer, até sexta-feira (11), um acordo mundial contra o aquecimento global.

“O mundo espera mais de vocês do que meias-medidas”, disse Ban Ki-moon aos delegados, apelando aos países que aceitem, a cada cinco anos, uma avaliação do seu envolvimento antes da entrada em vigor do futuro acordo.

“As decisões que tomarem aqui em Paris serão sentidas durante séculos”, destacou. Segundo o secretário-geral da ONU, “o objetivo atual é o mínimo” e deve-se ter “a ambição de ir além”.

“É preciso assim que o acordo preveja ciclos de cinco anos, antes de 2020, para que os Estados voltem a analisar os seus compromissos e os reforcem em função dos dados científicos disponíveis”, defendeu.

O acordo deve “deixar claro ao setor privado que a transformação que nos dotará de uma economia mundial com baixas emissões (de gases de efeito estufa) é inevitável, benéfica e já está em curso”, adiantou.

“Os países desenvolvidos devem aceitar desempenhar um papel vital e os países em desenvolvimento devem assumir uma parte crescente de responsabilidade, de acordo com as suas capacidades”, afirmou.

“Fora das salas, onde nos reunimos em todo o mundo, exige-se um acordo universal e forte. Temos a obrigação de ouvir essas vozes”, acrescentou Ban Ki-moon.

A Conferência do Clima de Paris (COP21) aprovou no sábado (5) um projeto de acordo para combater as alterações climáticas. O acordo deve ser concluído esta semana pelos ministros dos cerca de 200 países, para ser assinado em 11 de dezembro.

Fonte - Yahoo

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Papa falou sobre mudanças climáticas com Secretário-Geral da OEA

O Papa Francisco recebeu nesta sexta-feira no Vaticano o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, com quem abordou o desafio da mudança climática.

Esta é a primeira vez que o pontífice argentino recebe Almagro, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai durante o governo José Mujica, e desde 26 de maio secretário-geral da organização continental.

O Secretário-Geral da OEA realizou uma visita de dois dias à Itália e ao Vaticano para apresentar a situação na região e reviver o papel da organização.

Almagro cumprimentou algumas horas após o encontro com Francisco em um tweet "a impressionante liderança do Papa para a sustentabilidade e éticos valores do planeta que unem a humanidade".

Um acordo global sobre combate às alterações climáticas é o foco de uma conferência histórica em Paris sobre as alterações climáticas em duas semanas, para a qual estão convidados todos os líderes do planeta.

Num segundo tweet, o Secretário-Geral da OEA afirmou que o Papa abordou a questão do diálogo inter-religioso para a prevenção de conflitos.

O Papa apoia a criação com a OEA do Intituto do Diálogo Interreligioso das Américas, que se inspira no fundado na Argentina há 15 anos, de acordo com fontes do Vaticano.

Um projeto que se baseia na mensagem da encíclica do Papa "Laudato se", na qual Francisco associa a defesa dos pobres à proteção ambiental.

Duranta sua estada em Roma, Almagro tem programadas uma série de reuniões com representantes políticos.

Tanto a Itália como a Santa Sé são observadores na OEA, cuja sede se encontra em Washington.

Fonte - SWI 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ambiente: Igreja exige à COP 21 acordo climático «justo, vinculativo e transformativo»

Cidade do Vaticano, 26 out 2015 (Ecclesia) – O Conselho Pontifício Justiça e Paz lançou hoje um apelo por um acordo “justo, juridicamente vinculativo e autenticamente transformativo” na próxima Conferência sobre as Mudanças Climáticas (COP 21), com dez propostas específicas de orientação.

“Apelamos à COP 21 que formule um acordo internacional para limitar o aumento global da temperatura aos parâmetros atualmente sugeridos pela comunidade científica global, de modo a evitar impactos climáticos catastróficos, especialmente para os mais pobres e para as comunidades mais vulneráveis”, subscrevem cardeais, patriarcas e bispos de todo o mundo, em representação das associações continentais de Conferências Episcopais.

Os representantes da Igreja Católica nos cinco continentes estão de acordo quanto à “existência de uma responsabilidade comum, mas também diferenciada”, de todas as nações na questão climática.

“É imperativo que se trabalhe em conjunto em prol de um empreendimento comum”, acrescentam.

Os signatários, em nome próprio e das populações ao seu cuidado, manifestam “esperança” nas negociações da COP 21, que vai decorrer entre 30 de novembro e 11 de dezembro, em Paris.

Este desafio, inspirado na Encíclica ‘Laudato si’ do Papa Francisco, foi apresentado hoje em conferência de imprensa com 10 propostas específicas de orientação, onde se começa por pedir “atenção não apenas às dimensões técnicas” mas particularmente éticas e morais das alterações climáticas.

Depois, propõe-se a definição do clima e da atmosfera como “bens comuns globais”, que pertencem e se destinam a todos; o terceiro ponto frisa a importância de um “acordo global justo, de mudança”.

A quarta proposta incentiva os participantes da COP 21 a impor “limites estritos ao aumento global da temperatura” e um objetivo de “completa descarbonização para meados do século”.

“Novos modelos de desenvolvimento e estilos de vida que sejam compatíveis com o clima, enfrentem as desigualdades e tirem as pessoas da pobreza”, é outra proposta, destacando que “um elemento primordial” para esta realidade “é pôr fim à era dos combustíveis fósseis”.

É pedido que as pessoas tenham acesso à água e à terra para desenvolverem sistemas alimentares “sustentáveis” e “resistentes às condições climáticas”.

O ‘Apelo de cardeais, patriarcas e bispos de diversas partes do mundo à COP21’ pretende também que se assegure que o acordo de 2015 aponte para uma abordagem de adaptação que responda às “necessidades imediatas das comunidades mais vulneráveis” e tenha presente as alternativas locais.

“Os responsáveis pelas alterações climáticas têm a responsabilidade de apoiar os mais vulneráveis na sua adaptação, a gerirem perdas e danos, e devem partilhar a tecnologia e o saber-fazer necessários”, propõe o número nove.

Os responsáveis eclesiais concluem que tudo “implica uma educação e uma consciência ecológica sérias”, no documento disponível no sítio online da Aliança Internacional de Organizações Católicas de Desenvolvimento (CIDSE).

Fonte - Ecclesia 

Nota DDP: O documento fala também de um 'acordo global justo de mudança', que garanta os direitos humanos, dentre eles, o de trabalho (item 3), onde logicamente se insere o descanso semanal, tão defendido pelo Vaticano...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Encíclica Laudato si será apresentada na FAO

Cidade do Vaticano (RV) – A Encíclica do Papa Francisco Laudato si’ será apresentada oficialmente na sede da Organização das Nações para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no próximo dia 26 de outubro.

A iniciativa se insere numa série de diálogos promovidos pela FAO sobre o tema: “Comunicar para promover a mudança”.

A apresentação da Encíclica foi promovida e organizada pela FAO e pela Missão permanente da Santa Sé na Organização, que tem sede em Roma. O tema do diálogo será: “Os desafios da Encíclica Laudato si’ à luz do programa de desenvolvimento pós-2015”

Entre os participantes, estão o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva, e os Cardeais Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, e Peter K. A. Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz.

Fonte - Radio Vaticano


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Aquecimento extremo trará ‘mortes em massa’, alertam especialistas

Um vídeo exibido a uma plateia pequena na última segunda-feira, em Brasília, mostrava sem eufemismos o que poderia acontecer com o planeta caso o aquecimento global saísse de controle e atingisse o patamar de 4oC a 7oC. Imagens de florestas queimando, lavouras mortas e inundações se sucediam enquanto uma narradora vaticinava “mortes em massa para pessoas que não tiverem ar-condicionado 24 horas por dia” e “migrações forçadas”. “Nos tornaremos parte de um ambiente extinto”, sentenciou. O fato de que a cidade passava por uma onda de calor, tendo registrado dias antes a maior temperatura desde sua fundação, ajudava a compor a atmosfera.

Num pequeno palco, em poltronas brancas, um grupo formado em sua maioria por homens de meia idade assistia à exibição. Entre eles estavam alguns membros da elite da ciência do clima, como Carlos Afonso Nobre e José Marengo, membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, e Sir David King, representante para Mudanças Climáticas do Reino Unido.

Até não muito tempo atrás, esses mesmos homens descontariam como alarmismo ou ficção científica as afirmações do vídeo. Hoje, são as pesquisas deles que embasam os cenários de apocalipse pintados ali.

Os cientistas reunidos em Brasília fazem parte de um grupo internacional reunido por David King em 2013 para tentar produzir uma avaliação de riscos de mudanças climáticas extremas. O trabalho foi iniciado nos EUA, na Índia, na China e no Reino Unido e agora começa a ser feito no Brasil. Ele parte do princípio de que a probabilidade de que o aquecimento da Terra ultrapasse 4oC é baixa, mas as consequências potenciais são tão dramáticas que os governos deveriam considerá-las na hora de tomar decisões sobre corte de emissões e adaptação.

“Trata-se de uma visão muito diferente da mudança climática”, afirmou King, um físico sul-africano que serviu durante anos como conselheiro-chefe para ciência do primeiro-ministro Tony Blair. “O IPCC fez um ótimo trabalho, mas é preciso uma avaliação do risco de que aconteça algo catastrófico ligado à mudança climática.”

Ele citou como exemplo os piores cenários de mudança climática projetados para a China: elevações do nível do mar que afetassem a costa leste do país, lar de 200 milhões de pessoas, quebras da safra de arroz – que têm de 5% a 10% de chance de ocorrer mesmo com elevações modestas na temperatura – e ondas de calor que estejam acima da capacidade fisiológica de adaptação do ser humano.

“Com mais de três dias com temperaturas superiores a 40oC e muita umidade você não consegue compensar o calor pela transpiração e morre”, afirmou King.

Com um aquecimento de 4oC a 7oC, estresses múltiplos podem acontecer de uma vez em várias partes do mundo. “Estamos olhando para perdas maciças de vidas”, afirmou King. “Seria o colapso da civilização.”

RUMO A 4o C

Os modelos climáticos usados pelo IPCC projetam diferentes variações de temperatura de acordo com a concentração de gás carbônico na atmosfera. Esses cenários se chamam RCP, sigla em inglês para “trajetórias representativas de concentração”, e medem quanto muda o balanço de radiação do planeta, em watts por metro quadrado. Eles vão de 2.6 W/m2 – o cenário compatível com a manutenção do aquecimento na meta de 2oC, considerada pela ONU o limite “seguro” – a 8.5 w/m2, que é para onde o ritmo atual de emissões está levando a humanidade.

“O RCP 8.5 nos dá quase 100% de probabilidade de o aquecimento ultrapassar os 4oC no fim deste século”, afirmou Sir David King. E quais seriam as chances de mais de 7oC? Até o fim do século, baixas. “Eu sou velho, então estou bem. Mas tenho dois netos que vão viver até o fim do século, e eles vão querer ter netos também. Não ligamos para o futuro?”

Segundo Carlos Nobre, avaliar e prevenir riscos de um aquecimento extremo é como comprar um seguro residencial: mesmo com probabilidade baixa de um desastre, é algo que não dá para não fazer, porque os custos do impacto são basicamente impossíveis de manejar.

Para o Brasil, esses riscos são múltiplos: vão desde a redução em 30% da vazão dos principais rios até o comprometimento do agronegócio e extinção de espécies. Cenários regionais traçados a partir dos modelos do IPCC já apontam para aquecimentos de até 8oC em algumas regiões do país neste século, o que tornaria essas áreas essencialmente inabitáveis por longos períodos.

“Mesmo se limitarmos as emissões a 1 trilhão de toneladas de CO2, [limite compatível com os 2oC] ainda podemos ultrapassar os 3oC”, afirmou o cientista, atualmente presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Segundo ele, não há outro caminho a tomar que não seja limitar as concentrações de CO2 na atmosfera a 350 partes por milhão. Ocorre que já ultrapassamos as 400 partes por milhão em 2014, e os compromissos registrados pelos países para o acordo de Paris não são capazes nem mesmo de garantir o limite te 1 trilhão de toneladas.

Única mulher do painel, Beatriz Oliveira, da Fiocruz, apontou o risco de muita gente no Brasil literalmente morrer de calor, em especial nas regiões Norte e Nordeste. “Você poderia ficar exposto e realizar atividades externas no máximo por 30 minutos. O resto do dia teria de passar no ar-condicionado”, disse.

Questionada pela plateia ao final do evento, a pesquisadora mencionou um único lado positivo do aquecimento extremo: a redução na incidência de doenças transmitidas por insetos, como a dengue. “Nem o mosquito sobrevive”, disse.

Fonte - Ecodebate

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ONU: Ban Kin-moon sublinha liderança moral do papa

Cidade do Vaticano, 11 set 2015 (Ecclesia) - O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, confessou a sua...

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Papa intervém em encontro sobre mudanças climáticas

Cidade do Vaticano (RV) – Na próxima sexta-feira, 11 de setembro, Papa Francisco deve intervir sobre o tema da crise climática ao receber os participantes do encontro internacional “Justiça Ambiental e Mudanças Climáticas”. Em virtude da Conferência Internacional em Paris, em dezembro, a Igreja Católica se confronta com especialistas, mundo político e empresarial para fazer o ponto da situação e contribuir na construção de uma solução compartilhada. O presidente da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável que está promovendo o evento, Edo Ronchi, afirmou que “a crise climática ainda pode ser vencida”.

As mudanças climáticas influenciam os âmbitos da justiça, da saúde e da paz e, se a rota não for invertida, o êxito será dramático. As populações mais pobres, em relação à alimentação, direitos e sobrevivência, já estão pagando o seu preço. É o que afirma a ciência, é o que enfatiza o Papa na Encíclica Laudato si’ e também serve de base para o encontro em Roma. Serão dois dias de evento que terminará com a audiência no Vaticano.

Padre Augusto Chendi, subsecretário do Pontifício Conselho da Pastoral para os Agentes de Saúde, diz que a Encíclica do Papa será pontual no evento já que “uma das chaves de leitura é justamente essa prioridade que o Santo Padre coloca à dignidade da pessoa humana em relação à dimensão puramente funcional ou econômica. Sabemos que, somente agindo nessa inversão, a dignidade da pessoa humana, incluindo o bem fundamental da saúde, será protegida e eventualmente promovida”.

Edo Ronchi, em entrevista a Rádio Vaticano, lembrou que “a questão da igualdade na distribuição do esforço necessário para contrastar as mudanças climáticas será o centro das negociações em Paris. Ali deverão ser estabelecidos objetivos coerentes, legalmente vinculados e periodicamente verificados”. E acrescentou: “Não se tem mais tempo! As emissões continuam crescendo mesmo se em 2014 chegaram a se estabilizar. A China não pode esperar 2030 para reduzir as próprias emissões, é muito tarde. É preciso começar antes. Os Estados Unidos não aplicaram o Protocolo de Kyoto na redução dos 7%: naquele período, isto é, de 1990-2012, as emissões foram aumentadas em 10%”.

Algumas medidas-chaves também foram sugeridas por ele para serem adotadas para contrastar o aumento da temperatura em nível planetário: “a proibição de construção de novas centrais de carvão; a eliminação até 2020 dos investimentos em combustíveis fósseis e a introdução de uma taxa de carvão; o fortalecimento de políticas e medidas de reserva energética em todos os setores; o desenvolvimento das fontes renováveis; a intervenção sobre a mobilidade e os transportes, reduzindo o crescimento da demanda de mobilidade veicular privada”.

Alguns especialistas mundiais no assunto já confirmaram presença como o diretor da Earth Institute da Columbia University, Jeffrey Sachs, e o presidente do Instituto de Pesquisa Grantham, Nicholas Stern. O Convênio Internacional está sendo promovido pelos Pontifícios Conselho da Justiça e da Paz e para os Agentes de Saúde.

Fonte - Radio Vaticano

Democratas escrevem ao papa Francisco

#Politica #Vaticano

Posted by Diário da Profecia on Quarta, 9 de setembro de 2015
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