Por isso ele começa dizendo: “Bendirei o Senhor em todo o tempo, o Seu louvor estará sempre nos meus lábios.” A expressão “em todo o tempo” dá profundidade à declaração. Louvar quando a resposta chega é natural; continuar reconhecendo a bondade de Deus quando ainda estamos atravessando a incerteza exige confiança. Davi não apresenta uma vida protegida de toda angústia. Pelo contrário, fala de temores, aflições e necessidades. Sua certeza nasce da descoberta de que nenhuma dessas coisas foi capaz de tornar Deus ausente.
Então ele faz um convite extraordinariamente pessoal: “Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que Nele se refugia.” Há verdades sobre Deus que podemos aprender ouvindo outras pessoas, mas existe uma dimensão da fé que somente a experiência da confiança revela. Provar não significa testar Deus de maneira presunçosa, mas colocar a vida sob Sua direção e descobrir, no caminho da obediência, que Seu caráter permanece fiel.
Essa confiança, entretanto, não pode ser separada da maneira como vivemos. Davi pergunta quem deseja amar a vida e ver dias felizes e responde: “Refreia a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente. Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la.” A graça que oferece refúgio também transforma o caráter. No grande conflito entre verdade e mentira, não basta afirmar que pertencemos a Deus; nossas palavras, escolhas e relacionamentos precisam começar a refletir Seu governo. Obediência não compra a salvação, mas revela que a misericórdia recebida está produzindo uma nova vida.
Talvez a declaração mais consoladora do Salmo apareça quando Davi afirma: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.” Deus não observa a dor à distância. Há momentos em que o coração quebrado nos faz sentir abandonados, mas a Escritura apresenta exatamente o contrário: nossa fragilidade não repele o Senhor. Ele se aproxima.
Davi não promete ausência de sofrimento: “Muitas são as aflições do justo.” A promessa vem depois: “Mas o Senhor de todas o livra.” Em Cristo, essa esperança alcança sua plenitude. O Justo sofreu, atravessou a morte e venceu. Por isso sabemos que nenhuma aflição terá domínio eterno sobre aqueles que pertencem a Ele.
Se hoje você carrega um coração ferido, não interprete suas rachaduras como prova de que Deus se afastou. Talvez seja justamente aí que você descubra Sua proximidade de maneira mais profunda. O coração pode estar quebrado, as circunstâncias podem continuar difíceis, mas existe um lugar onde a dor nunca consegue expulsar a presença de Deus. Ele permanece perto.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
