Essa sede torna-se ainda mais intensa porque Deus parece distante. “As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite”, enquanto pessoas perguntam: “Onde está o teu Deus?” Há momentos em que essa pergunta também nasce silenciosamente dentro de nós. Sabemos aquilo em que acreditamos, lembramos do que Deus já fez, mas as circunstâncias parecem contradizer tudo. O salmista não esconde essa tensão. Sua fé não elimina as lágrimas. Ele chora e continua procurando Deus.
Então as lembranças chegam. Ele recorda quando caminhava com a multidão para a Casa de Deus entre vozes de alegria e louvor. O passado, porém, pode ser um lugar perigoso quando o presente dói. Podemos lembrar de épocas em que nossa fé parecia mais viva, a oração mais fácil e a presença de Deus mais perceptível, e transformar boas lembranças em razões para acreditar que perdemos algo definitivamente. O salmista faz outra coisa: usa a memória para alimentar esperança. Se Deus esteve presente antes, Sua aparente distância agora não significa abandono.
Por isso ele começa a falar consigo mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus.” Essa talvez seja uma das maiores lições do Salmo 42. Nem tudo aquilo que sentimos precisa receber autoridade sobre aquilo em que acreditamos. O salmista não nega sua tristeza, mas também não permite que ela seja sua única voz. Há momentos em que precisamos parar de apenas ouvir nossa alma e começar a falar com ela. O sentimento diz: “Tudo acabou.” A fé responde: “Espera em Deus.”
Mesmo assim, a angústia continua. “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das Tuas cachoeiras; todas as Tuas ondas e vagas passaram sobre mim.” É a imagem de alguém submerso. Ainda assim, no meio das águas, surge outra certeza: “Contudo, o Senhor, durante o dia, me concede a Sua misericórdia, e à noite comigo está o Seu cântico.” A noite permanece, mas agora existe uma canção dentro dela.
Cristo conhece profundamente essa sede e essa angústia. Ele entrou em nossa condição, experimentou tristeza e enfrentou a escuridão para abrir novamente o caminho até o Pai. Nele descobrimos que nossa esperança não depende da intensidade com que conseguimos sentir Deus, mas da fidelidade com que Deus continua nos sustentando.
Talvez hoje sua alma esteja abatida e você não saiba explicar exatamente por quê. Não transforme esse momento em sentença definitiva sobre sua fé. Continue buscando. Continue falando com Deus. E, quando o coração insistir que não existe saída, responda como o salmista: “Espera em Deus.” Porque uma alma abatida ainda pode ter esperança, lágrimas ainda podem coexistir com fé, e a sede que dói dentro de nós talvez seja justamente o sinal de que fomos feitos para beber de uma fonte que este mundo jamais poderia oferecer.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
