É possível dizer que Deus existe e organizar a vida como se Ele não existisse.
O insensato da Bíblia não é necessariamente alguém com pouca inteligência. É alguém que retira Deus do centro de suas decisões. Quando isso acontece, desaparece também uma referência essencial para distinguir o bem do mal. Por isso Davi continua: “Corrompem-se e praticam iniquidade.”
O Salmo então muda a perspectiva. Agora é Deus quem olha: “Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus.”
A imagem é poderosa.
Enquanto a humanidade avalia a si mesma por aparência, sucesso, reputação ou poder, Deus contempla o coração. E o diagnóstico não é confortável: “Todos se extraviaram.”
Davi não está simplesmente dividindo o mundo entre pessoas boas e pessoas ruins. Está revelando um problema que alcança toda a humanidade.
Séculos depois, Paulo retomaria essas palavras em Romanos para mostrar que todos estamos debaixo do pecado. Isso impede que leiamos o Salmo apenas apontando para os outros. A pergunta precisa voltar-se para nós: em quais áreas da minha vida tenho agido como se Deus não estivesse presente?
Talvez confessemos nossa fé no sábado ou no domingo, mas durante a semana tomemos decisões sem perguntar o que Deus pensa. Talvez oremos sobre grandes crises, mas administremos dinheiro, relacionamentos, palavras e desejos como se pertencêssemos exclusivamente a nós mesmos.
Essa também é uma forma prática de dizer: “Não há Deus.”
No grande conflito entre o bem e o mal, essa foi justamente a proposta original da rebelião: a criatura poderia encontrar liberdade afastando-se da autoridade do Criador. Desde o Éden, essa mentira continua assumindo novas formas.
Mas autonomia sem Deus não produziu liberdade. Produziu corrupção, violência, medo e morte.
O Salmo descreve homens que devoram o povo de Deus “como quem come pão” e acrescenta: “Deus não invocam.” Quando Deus deixa de ser referência, o próximo também começa a perder seu valor. Não é por acaso que amor a Deus e amor ao próximo aparecem unidos nas Escrituras.
Entretanto, o Salmo não termina no diagnóstico.
Davi olha para Sião e clama: “Quem dera que de Sião viesse já a salvação de Israel!”
Aquilo que era esperança para Davi encontrou sua resposta definitiva em Cristo. Deus não permaneceu distante observando a humanidade perdida. Ele entrou em nossa história para buscar e salvar.
Jesus veio justamente para pessoas que haviam se extraviado.
Por isso o Salmo 53 não deve produzir apenas condenação dos que não creem. Deve produzir exame do coração.
Talvez a pergunta mais importante hoje não seja simplesmente: “Eu acredito que Deus existe?”
Mas:
“A maneira como estou vivendo demonstra que acredito que Ele está aqui?”
Porque a verdadeira fé não é apenas reconhecer a existência de Deus.
É viver cada parte da vida consciente de Sua presença, de Sua autoridade e de Sua graça.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
