A pressão aumenta. Pessoas zombam de sua confiança: “Confiou no Senhor! Livre-o Ele.” Davi se vê cercado por inimigos, sua força desaparece, seu coração parece derreter dentro do peito e suas mãos e pés estão ameaçados. Suas vestes são repartidas e lançam sortes sobre sua roupa. Séculos depois, essas imagens encontrariam em Cristo uma realização impressionante. Na cruz, Jesus pronunciaria as palavras iniciais deste Salmo enquanto ao Seu redor homens zombariam, repartiriam Suas vestes e lançariam sortes sobre elas. Aquilo que em Davi era sofrimento extremo torna-se, em Cristo, parte da revelação do preço da redenção.
A cruz nos permite enxergar a profundidade do grande conflito. O Filho de Deus entra voluntariamente no território da nossa condenação. Aquele que não conheceu pecado experimenta as consequências terríveis que o pecado introduziu no mundo. O Calvário demonstra simultaneamente que a lei de Deus não pode simplesmente tratar o mal como irrelevante e que Seu amor pelo pecador é insondável. Justiça e graça encontram-se naquele que sofre para que os culpados possam ser reconciliados.
Mas o Salmo 22 não termina no abandono. No meio da angústia surge a súplica: “Tu, porém, Senhor, não Te afastes de mim.” E então o tom muda. O homem que perguntava por que Deus o havia abandonado passa a declarar: “Ele não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu quando Lhe gritou por socorro.” O lamento transforma-se em louvor. A aparente ausência de Deus não era a conclusão da história.
O horizonte então se amplia até alcançar “todos os confins da terra”. Povos e gerações futuras ouvirão aquilo que Deus fez. A dor individual transforma-se em testemunho universal. É impossível, à luz de Cristo, não perceber aqui a sombra da cruz avançando em direção à vitória da ressurreição e ao anúncio da salvação entre as nações.
Talvez existam momentos em que você também ore e encontre apenas silêncio. O Salmo 22 não exige que você negue essa experiência. Ele permite perguntar “por quê?” sem abandonar o “Deus meu”. Essa pequena expressão contém uma fé extraordinária. Quando não compreender Seus caminhos, continue pertencendo a Ele. Na cruz, aquilo que parecia abandono tornou-se o caminho da redenção. E desde então sabemos que o silêncio de uma sexta-feira jamais deve ser interpretado como o fim da história. Deus ainda pode transformar o lugar do maior sofrimento no começo da maior vitória.
