Nicodemos havia observado Jesus. Presenciara a purificação do templo, vira Sua autoridade, Sua compaixão pelos necessitados e os sinais que acompanhavam Seu ministério. Algo lhe dizia que aquele humilde Mestre da Galileia vinha de Deus. Mas procurá-Lo publicamente significaria colocar em risco sua reputação. Por isso foi durante a noite.
Ao encontrar Cristo, tentou iniciar uma discussão teológica. Jesus, porém, atravessou imediatamente todas as formalidades e atingiu o centro de sua necessidade: “Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.”
Nicodemos precisava descobrir que ninguém entra no Reino simplesmente porque conhece a verdade. É possível defender princípios corretos, praticar atos religiosos e ainda conservar um coração que nunca foi transformado. Cristo não lhe ofereceu uma religião aperfeiçoada. Ofereceu-lhe uma nova vida.
O novo nascimento não significa reformar exteriormente aquilo que somos. Significa permitir que Deus transforme a própria fonte de nossos pensamentos, desejos e escolhas. Jesus comparou essa obra ao vento. Não conseguimos vê-lo, mas percebemos seus efeitos. Assim também acontece quando o Espírito de Deus alcança o coração. A ira começa a ceder lugar à mansidão; o orgulho, à humildade; o egoísmo, ao amor. O que nenhuma disciplina humana consegue produzir, Deus realiza interiormente naquele que se entrega a Ele.
Mas Nicodemos ainda precisava compreender como essa transformação seria possível. Então Jesus conduziu seu pensamento a uma antiga história de Israel. No deserto, pessoas feridas pelas serpentes eram convidadas a olhar para aquilo que Moisés havia levantado e viver. Não havia poder no objeto. A cura estava na confiança na promessa de Deus.
Então veio a revelação: “Assim importa que o Filho do homem seja levantado.”
Jesus estava falando da cruz.
Nicodemos chegara naquela noite procurando respostas e descobriu que sua maior necessidade não era compreender um novo argumento, mas olhar para um Salvador. A salvação não seria conquistada por sua posição, suas obras ou seu conhecimento. Precisaria receber aquilo que somente Cristo poderia oferecer.
Anos depois, quando Jesus foi levantado no Calvário, aquelas palavras voltaram à memória de Nicodemos. O Mestre daquela noite era o Redentor do mundo. E o homem que antes tivera medo de ser visto com Cristo finalmente tomou posição ao lado dEle.
Essa transformação não aconteceu de uma vez. A semente lançada naquela conversa silenciosa permaneceu crescendo durante anos. O Espírito trabalhou pacientemente até que o discípulo escondido se tornou um homem disposto a perder posição, riqueza e reconhecimento por causa de Cristo.
Talvez essa seja uma das verdades mais profundas de sua história. Podemos estar muito próximos da religião e ainda precisar encontrar Jesus. Podemos conhecer as Escrituras e ainda necessitar de um novo coração. Porque o evangelho não veio apenas tornar pessoas ruins melhores. Veio fazer nascer uma nova vida onde o pecado havia produzido morte.
E o caminho continua sendo o mesmo mostrado naquela noite: olhar para Cristo e viver.
