quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Já Não se Pode Confiar nas Palavras (SL12)

Há épocas em que a mentira deixa de ser exceção e começa a parecer parte normal da vida. Palavras são escolhidas não para revelar a verdade, mas para produzir efeitos; elogios escondem interesses, promessas duram apenas enquanto são convenientes e pessoas aprendem a dizer exatamente aquilo que o outro deseja ouvir. É nesse ambiente que Davi abre o Salmo 12 com um clamor quase desesperado: “Salva-nos, Senhor, porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens.” Sua angústia não nasce apenas da existência de pessoas más, mas da percepção de que a fidelidade está se tornando rara.

O problema central do Salmo está na boca. “Falam com falsidade uns aos outros; falam com lábios bajuladores e coração fingido.” A palavra, que deveria comunicar aquilo que existe no coração, torna-se instrumento para esconder o coração. E quando a linguagem perde seu compromisso com a verdade, os relacionamentos começam a desmoronar. Não sabemos mais em quem confiar, porque aquilo que ouvimos pode não corresponder àquilo que realmente existe. O pecado não destrói apenas por meio da violência; muitas vezes destrói primeiro por meio da falsificação da verdade.

Há ainda algo mais grave. Os arrogantes dizem: “Com a língua prevaleceremos; os lábios são nossos; quem é senhor sobre nós?” Aqui aparece novamente a antiga rebelião da criatura contra o Criador. O homem imagina que suas palavras lhe pertencem de maneira absoluta e que ninguém possui autoridade para julgá-las. Mas a liberdade bíblica nunca significou independência moral de Deus. Nossas palavras também estão sob Seu governo. Aquilo que dizemos, omitimos, exageramos ou manipulamos participa do conflito entre verdade e mentira que atravessa toda a história humana.

Então, no meio de tantas vozes, outra voz se levanta: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, Eu Me levantarei agora, diz o Senhor.” Deus ouviu aquilo que os poderosos preferiram ignorar. Ele conhece o sofrimento produzido por promessas quebradas, acusações falsas e palavras usadas para ferir. Seu silêncio não é indiferença. No momento determinado, Ele se levanta em favor daqueles que foram esmagados.

Davi estabelece então o contraste decisivo: enquanto as palavras humanas são contaminadas pela duplicidade, “as palavras do Senhor são palavras puras, prata refinada em forno de barro, purificada sete vezes”. Deus nunca precisa corrigir uma promessa porque falou impulsivamente, esconder uma intenção ou reformular a verdade para proteger Seus interesses. Sua Palavra é confiável porque Seu caráter é imutável.

Talvez vivamos cercados por muitas vozes e cada uma reivindique para si a verdade. O Salmo 12 nos chama não apenas a discernir aquilo que ouvimos, mas a examinar aquilo que dizemos. Em um mundo acostumado à mentira, fidelidade também significa falar de modo que nossas palavras possam permanecer diante de Deus. Quando já não sabemos em quem confiar, existe uma voz que nunca enganou ninguém. Os homens podem mudar seus discursos conforme as circunstâncias; a Palavra do Senhor permanece pura. E quem constrói a vida sobre ela não precisa viver à mercê das mentiras de seu tempo.

Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere

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