O retrato do ímpio apresentado no Salmo é inquietante porque sua rebelião começa dentro do coração. Ele diz consigo mesmo: “Deus Se esqueceu; virou o rosto e nunca verá isto.” Essa é a essência do pecado: viver como se Deus estivesse ausente. Quando o ser humano deixa de reconhecer que existe um Criador diante de quem responderá, seus desejos tornam-se sua própria lei. Então o poder é usado contra o fraco, palavras transformam-se em instrumentos de engano e pessoas passam a ser tratadas como objetos. O grande conflito entre o bem e o mal também acontece nesse território invisível, quando precisamos decidir se viveremos diante dos olhos de Deus ou apenas segundo aquilo que conseguimos esconder dos homens.
Mas o silêncio divino nunca significa cegueira. Depois de descrever a violência dos perversos, o salmista declara: “Tu, porém, o tens visto.” Essas poucas palavras mudam todo o Salmo. Deus viu aquilo que ninguém percebeu. Viu a injustiça praticada longe das testemunhas, ouviu o clamor que não chegou aos tribunais humanos e conhece a dor daqueles que não possuem força para defender a própria causa. O pobre e o órfão não estão esquecidos. O Senhor considera cada sofrimento e, no tempo determinado, fará justiça.
Essa certeza também exige algo de nós. É fácil desejar que Deus veja o pecado dos outros; mais difícil é lembrar que Seus olhos também alcançam nossas intenções. O mesmo Senhor que julga o opressor examina o coração daquele que clama por justiça. Por isso, viver diante de Deus significa permitir que Sua graça transforme não apenas nossas ações públicas, mas também pensamentos, desejos e motivações. A obediência verdadeira começa onde ninguém mais consegue enxergar.
O Salmo termina muito diferente de como começou. O Deus que parecia distante é proclamado Rei “para todo o sempre”. As circunstâncias talvez ainda não tenham mudado, mas a perspectiva do salmista mudou. Ele sabe que o Senhor ouviu o desejo dos humildes e fortalecerá seu coração. Essa é uma esperança capaz de sobreviver ao silêncio.
Talvez hoje Deus pareça distante de alguma situação que você gostaria que Ele resolvesse imediatamente. Não confunda demora com ausência. O céu pode parecer silencioso, mas não está indiferente. Deus viu. Deus ouviu. Deus conhece. E quando toda injustiça finalmente comparecer diante de Seu trono, ficará evidente que nenhum sofrimento passou despercebido aos olhos do Rei.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
