Eliú descreve o trovão como manifestação de uma grandeza diante da qual o coração estremece. A tempestade que para o homem parece desordem obedece a limites que ele não estabeleceu. A água cai onde Deus determina, os ventos percorrem caminhos que ninguém controla e as nuvens se deslocam cumprindo propósitos que ultrapassam nossa percepção. Algumas trazem correção; outras, provisão e misericórdia. O mesmo céu que assusta também alimenta a terra. Há nisso uma poderosa lição espiritual: aquilo que enxergamos apenas como ameaça pode estar inserido em uma obra muito maior do que nossa experiência imediata permite perceber.
O problema não está em perguntar. Jó perguntou, lamentou e derramou diante de Deus sua perplexidade. O perigo começa quando nossas perguntas se transformam em tribunal e passamos a exigir que o Criador responda segundo os limites da criatura. Eliú pergunta a Jó se ele conhece o equilíbrio das nuvens ou consegue explicar as maravilhas daquele que é perfeito em conhecimento. A resposta é evidente. Se não compreendemos plenamente sequer os fenômenos que acontecem diante dos nossos olhos, como poderíamos dominar todos os caminhos daquele que sustenta o universo? A fé não exige que abandonemos a razão; exige que reconheçamos humildemente até onde ela consegue chegar.
É nesse limite que a confiança começa a amadurecer. Deus não nos deve uma explicação para que continue sendo justo. Seu caráter não muda quando nossas circunstâncias mudam. Ele permanece santo quando a noite chega, misericordioso quando a resposta demora e soberano quando os acontecimentos escapam completamente de nossas mãos. No grande conflito entre o bem e o mal, uma das maiores vitórias do inimigo seria convencer-nos de que a bondade de Deus deve ser medida pelo conforto presente. A Escritura nos conduz na direção oposta: obedecemos e confiamos porque conhecemos quem Ele é, não porque conseguimos antecipar tudo aquilo que fará.
Jó 37 termina à beira de algo extraordinário. Eliú fala da majestade divina, e logo Deus mesmo falará da tempestade. Depois de tantos discursos humanos, aproxima-se o momento em que a voz do Criador ocupará o silêncio. Talvez algumas das nossas perguntas também permaneçam sem resposta por algum tempo. Ainda assim, quando as nuvens se acumularem e o horizonte desaparecer, podemos descansar na certeza de que acima da tempestade existe um trono que nunca foi abalado. Não precisamos compreender todos os caminhos de Deus para confiar naquele que os conhece desde o princípio até o fim.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
