Em 12 de agosto, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos tinham “controle total” do estreito. No dia seguinte, o chefe da força paramilitar Basij declarou exatamente o contrário: segundo ele, Ormuz estava “sob controle e administração do Irã”. A disputa verbal seria apenas retórica se não estivesse acompanhada por acontecimentos concretos. O tráfego de navios de commodities permaneceu bem abaixo da média de agosto, e, na sexta-feira, 14 de agosto, a Reuters informou que a circulação pelo estreito se aproximava de uma paralisação depois de novos ataques contra navios e da ameaça americana de manter por tempo indefinido o bloqueio naval ao Irã.
O que vemos em Ormuz talvez seja um dos retratos mais claros da fragilidade da ordem internacional atual. Não se trata apenas de dois países discutindo quem controla determinado trecho de mar. Trata-se de uma rota capaz de afetar combustível, fretes, seguros, inflação, produção industrial e preços de alimentos em lugares situados a milhares de quilômetros dali. Quando o estreito sofre, o mundo sente. E, quando o mundo sente, governos começam a procurar instrumentos cada vez mais fortes para restaurar aquilo que chamam de estabilidade.
Esse é um ponto particularmente importante para quem acompanha os acontecimentos a partir da perspectiva profética adventista.
A interpretação historicista de Apocalipse 13 identifica os Estados Unidos como a segunda besta, aquela que surge com aparência de cordeiro, mas que finalmente fala como dragão. No artigo anterior, observamos como a ascensão renovada do poder americano sob Trump não contradiz necessariamente a profecia; ao contrário, pode tornar mais compreensível a estrutura de poder necessária para seu desfecho. Ormuz oferece agora um exemplo concreto de como poder militar e poder econômico podem funcionar juntos.
Desde o início da guerra com o Irã, em fevereiro, Washington ampliou sanções marítimas, energéticas e financeiras e estabeleceu um bloqueio naval. Neste domingo, 16 de agosto, a Reuters informou que o governo Trump prepara uma nova rodada de pressão econômica que pode atingir refinarias chinesas, bancos que processam transações iranianas, companhias aéreas e países que auxiliem Teerã. Segundo dados do Tesouro americano citados pela agência, mais de mil pessoas, embarcações e aeronaves foram sancionadas desde o início do segundo mandato de Trump, enquanto medidas recentes atingiram a frota clandestina de petróleo iraniana, seguradoras, entidades relacionadas à aquisição de armas e ativos digitais.
Nada disso é a marca da besta, e não devemos cometer o erro de transformar cada sanção ou bloqueio em cumprimento direto de Apocalipse 13. Mas a estrutura merece ser observada. O capítulo apresenta um sistema no qual autoridade política, influência religiosa e capacidade econômica finalmente convergem até o ponto em que comprar e vender deixam de ser simplesmente operações comerciais e passam a ser instrumentos de coerção.
Ormuz mostra como isso é tecnicamente possível.
Um governo não precisa ocupar fisicamente todos os países para influenciar suas escolhas. Pode controlar acesso a mercados, rotas marítimas, sistemas financeiros, seguros, moeda, tecnologia ou energia. Pode exigir que terceiros decidam com quem comercializar, a quem financiar e quais navios assegurar. Pode transformar a interdependência econômica global em mecanismo de pressão política.
Essa capacidade não pertence apenas aos Estados Unidos. China, União Europeia, Rússia e outras potências também empregam instrumentos econômicos. A diferença é que, dentro da leitura profética adventista, a potência que finalmente exercerá protagonismo mundial no cenário de Apocalipse 13 é justamente aquela que hoje possui o maior conjunto combinado de recursos militares, financeiros, tecnológicos e diplomáticos do Ocidente.
Por isso Ormuz merece nossa atenção.
Há ainda outra dimensão profundamente bíblica no episódio: a alternância quase contínua entre guerra e promessa de paz. Em 5 de agosto, Estados Unidos e Irã indicavam que um acordo para reabrir o estreito poderia estar próximo. Irã e Omã chegaram a concordar preliminarmente sobre coordenadas para uma rota marítima, embora Teerã condicionasse a abertura à retirada do bloqueio americano. Poucos dias depois, as negociações voltaram a emperrar, os ataques aumentaram e as duas partes passaram novamente a disputar publicamente quem controla a passagem.
É impossível observar essa sucessão sem lembrar o alerta de Paulo em 1 Tessalonicenses 5:3: “Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição.”
Esse verso não autoriza afirmar que qualquer tratado contemporâneo envolvendo Ormuz seja aquele anúncio final de “paz e segurança”. Mas revela um padrão espiritual importante. O ser humano procura segurança em acordos que frequentemente duram pouco, alianças que mudam, garantias militares que dependem de interesses e sistemas econômicos que podem ser abalados em questão de dias.
Em junho, um acordo temporário havia produzido esperança de reabertura da rota e de redução das hostilidades. Dois meses depois, o estreito voltou ao centro da crise. A história continua repetindo uma verdade que a Bíblia nunca escondeu: a paz construída apenas pelo homem é extraordinariamente frágil.
Talvez a cena mais simbólica de tudo isso seja justamente a contradição atual. Washington afirma possuir controle. Teerã afirma possuir controle. Mas os navios comerciais continuam hesitando em atravessar.
A realidade não obedece completamente à declaração de nenhum dos dois.
Isso resume muito da condição humana. Reis afirmam controlar. Governos anunciam vitória. Mercados procuram estabilidade. Generais estabelecem estratégias. Diplomatas anunciam acordos. Ainda assim, um míssil, uma mina marítima, uma decisão política ou um ataque inesperado pode alterar completamente aquilo que parecia resolvido.
Não é difícil compreender por que Jesus descreveu os últimos tempos como um período de “angústia das nações em perplexidade” (Lucas 21:25). Perplexidade é justamente a sensação de possuir instrumentos poderosos e, ao mesmo tempo, não conseguir controlar as consequências de tudo aquilo que foi colocado em movimento.
Ormuz é pequeno no mapa.
Mas nele vemos concentrados quase todos os grandes dilemas de nosso tempo: petróleo, guerra, comércio, rivalidade entre potências, China, Estados Unidos, Irã, sanções, tecnologia militar, inflação e a busca desesperada por segurança.
Para quem observa Apocalipse 13, existe ainda uma pergunta inevitável. Se a profecia aponta para uma potência americana capaz de exercer influência política e econômica extraordinária nos acontecimentos finais, não seria natural que, antes desse momento, víssemos justamente uma ampliação de sua capacidade de determinar as regras sob as quais o restante do mundo negocia, comercializa e procura segurança?
A pergunta merece ser feita.
A resposta definitiva pertence ao desenvolvimento da própria história.
O cristão não precisa anunciar que cada movimento naval é profético, nem transformar Trump ou qualquer outro presidente em personagem que a Bíblia não nomeou. Precisa apenas manter os olhos abertos. A profecia apresenta tendências, estruturas e um desfecho. À medida que essas estruturas se tornam mais visíveis, aquilo que parecia impossível às gerações anteriores começa a parecer tecnicamente simples.
Talvez esse seja o aspecto mais importante de Ormuz.
O mundo moderno construiu uma civilização extraordinariamente sofisticada, mas concentrou partes fundamentais de sua sobrevivência em alguns poucos pontos vulneráveis. Um estreito bloqueado pode elevar o combustível. Combustível caro aumenta transporte. Transporte caro pressiona alimentos. Inflação pressiona juros. Juros pressionam governos, empresas e famílias.
Uma guerra localizada transforma-se em crise mundial.
E, quando a crise mundial chega, cresce também o desejo por alguém suficientemente poderoso para restabelecer a ordem.
É exatamente nesse momento que a profecia nos ensina a ter cuidado.
Porque o Apocalipse não adverte apenas sobre o caos.
Adverte também sobre as soluções que o mundo aceitará para acabar com ele.
Por isso, diante dos navios parados, das ameaças, dos bloqueios e das novas promessas de acordo, talvez a questão mais importante não seja saber quem controla hoje o Estreito de Ormuz.
A questão é perceber para onde caminha um mundo que, a cada crise, parece disposto a concentrar mais poder nas mãos daqueles que prometem segurança.
“Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição.”
1 Tessalonicenses 5:3
Ormuz poderá reabrir. Um novo acordo poderá ser anunciado. Os preços poderão cair novamente e as manchetes desaparecerão por algum tempo.
Mas a fragilidade que essa crise revelou continuará ali.
E a profecia nos convida a observar não apenas quando a próxima guerra começará, mas também quem terá poder suficiente para prometer ao mundo que poderá fazê-la parar.
