sexta-feira, 2 de outubro de 2026

UMA FRANÇA ENTRE O ALTAR E AS BARRICADAS (2026.10.02)

Em menos de uma semana, a França produziu duas imagens extraordinariamente diferentes de si mesma. No sábado, cerca de 800 mil pessoas ocuparam uma extensa faixa de Paris para a missa de Leão XIV. Dias depois, escolas foram bloqueadas, incêndios se espalharam diante de estabelecimentos de ensino e jovens enfrentaram a polícia em várias cidades. Entre as duas cenas está uma Europa que procura administrar simultaneamente crise social, imigração, perda de referências comuns e crescente fragmentação política. O dado mais interessante talvez não esteja em nenhuma dessas crises isoladamente, mas na pergunta que inevitavelmente surge quando uma sociedade começa a perder sua capacidade de produzir ordem por consenso.

O movimento estudantil francês começou com reivindicações concretas: falta de professores, classes superlotadas, infraestrutura deteriorada e insatisfação com as condições de ensino. Entretanto, em poucos dias ultrapassou os limites das escolas. Em 1º de outubro, mais de mil estabelecimentos registravam mobilizações; incêndios, depredações e confrontos ocorreram de Paris e Saint-Denis a Nantes, Estrasburgo, Marselha e outras cidades. O governo convocou uma reunião de crise, enquanto autoridades afirmaram que grupos externos estavam circulando entre escolas para estimular confrontos. A esquerda radical rejeitou as acusações de organizar a violência, e entidades também questionaram a intensidade da resposta policial. A França, portanto, não enfrenta simplesmente uma “rebelião de imigrantes”: as evidências disponíveis não permitem essa conclusão. O qu
e existe é uma revolta estudantil real que passou a conviver com grupos violentos, instrumentalização política e uma crise de autoridade que o próprio governo considera suficientemente séria para mobilizar forças especializadas. Reuters

Essa precisão importa porque a imigração pertence à história europeia atual por razões muito mais profundas do que a aparência dos manifestantes. Não é possível determinar pelas fotografias quem é imigrante, descendente de imigrantes ou cidadão francês de várias gerações. O problema documentável é estrutural: a Europa tenta integrar populações culturalmente diversas enquanto enfrenta pressão migratória, envelhecimento demográfico, radicalização política e divergências cada vez maiores sobre fronteiras, identidade e pertencimento. Foi exatamente nesse ambiente que Leão XIV, poucos dias antes das barricadas, falou sobre aquilo que o Vaticano chamou de uma migração “sem precedentes” para a Europa e defendeu simultaneamente acolhimento e integração, insistindo que uma sociedade multicultural necessita de valores compartilhados e recordando as raízes cristãs do continente. Vatican News

A proximidade temporal é impressionante. Em 26 de setembro, cerca de 800 mil pessoas compareceram à missa papal nos Champs-Élysées, aproximadamente 200 mil além das inscrições previstas. Uma zona de segurança de três quilômetros atravessou o coração de Paris, 14.500 agentes e profissionais foram mobilizados e aproximadamente 2.400 sacerdotes e diáconos participaram da celebração. Em um país onde a secularização parecia durante décadas indicar o desaparecimento progressivo da religião do espaço público, a imagem foi poderosa: uma multidão imensa novamente reunida em torno de uma autoridade religiosa no coração de uma das capitais simbólicas da modernidade secular. Reuters

Leão XIV não utilizou aquela visita para defender fechamento cultural da Europa. Fez praticamente o contrário. Pediu acolhimento e integração dos migrantes, cooperação entre Igreja e Estado, diálogo numa sociedade multicultural e recuperação das raízes cristãs europeias como fonte de valores capazes de sustentar liberdade, democracia, dignidade humana, responsabilidade, verdade e justiça. Ao terminar a viagem em Metz, retomou a experiência dos fundadores da integração europeia e apresentou a herança cristã como recurso para reconstruir paz e unidade num continente fragmentado. Vatican News

É precisamente essa combinação que merece atenção. O papa não está simplesmente dizendo à Europa que receba estrangeiros; está argumentando que acolhimento sem integração não basta e que a integração necessita de alguma compreensão comum da sociedade à qual se chega. Ao mesmo tempo, sua resposta para esse vazio não é uma neutralidade cultural absoluta. É a recuperação de uma herança moral cristã capaz, segundo ele, de oferecer fundamentos para a convivência europeia.

Coloque agora essas palavras diante das imagens desta semana. Escolas incendiadas, professores ameaçados, jovens mascarados, forças de choque nas ruas e um governo convocando uma célula de crise não demonstram que a imigração tenha causado a revolta. Demonstram algo talvez mais profundo: a dificuldade crescente do Estado europeu para manter coesão entre grupos que já não necessariamente compartilham a mesma confiança nas instituições, a mesma interpretação da ordem pública ou sequer a mesma expectativa sobre o futuro. As reivindicações escolares são legítimas para muitos estudantes; a violência é real; a instrumentalização política também está sendo disputada. Tudo isso pode coexistir. Le Monde.fr

É nesse ponto que Paris deixa de ser apenas uma notícia francesa.

Uma sociedade consegue conviver com enorme diversidade enquanto possui instituições fortes, prosperidade suficiente e um conjunto mínimo de valores compartilhados. Quando essas três bases começam a enfraquecer simultaneamente, a demanda política tende a mudar. A pergunta deixa gradualmente de ser apenas quanto pluralismo podemos acomodar e passa a ser quem conseguirá restaurar alguma forma de unidade.

E justamente nesse momento uma antiga instituição reaparece oferecendo uma linguagem de ordem moral.

Não por meio de uma reivindicação de governo clerical. Leão XIV não pediu isso. Sua estratégia pública tem sido muito mais sofisticada: religião como fonte de dignidade humana; doutrina social como instrumento para economia e trabalho; ética para inteligência artificial; ecologia como responsabilidade moral; acolhimento acompanhado de integração; raízes cristãs como fundamento cultural; multilateralismo como instrumento de paz. Durante a mesma viagem, na UNESCO, ele colocou essa visão diretamente diante de uma instituição internacional e advertiu sobre a crise das estruturas multilaterais existentes. Reuters

A perspectiva profética torna essa trajetória particularmente relevante. Apocalipse 13 não descreve uma sociedade persuadida pela religião apenas porque se tornou mais devota. Descreve uma convergência posterior entre autoridade religiosa e poder civil num mundo submetido a pressões extraordinárias. Isso não significa que os tumultos franceses sejam cumprimento daquela profecia, nem que a política migratória de Leão XIV esconda um plano de dominação. Os fatos não permitem essas conclusões. Mas existe um princípio histórico que merece ser observado: quanto maior a desordem, maior o valor político atribuído a quem consegue oferecer ordem; quanto maior a fragmentação, maior a procura por uma autoridade capaz de falar em unidade.

Por isso, talvez as duas imagens de Paris não sejam tão desconectadas quanto parecem. De um lado, uma juventude revoltada contra instituições que considera incapazes de responder às suas necessidades, num continente profundamente dividido sobre imigração, identidade, economia e futuro. Do outro, centenas de milhares reunidos em torno de uma figura religiosa que fala exatamente sobre unidade, integração, dignidade, paz e raízes comuns.

A Europa ainda não encontrou a síntese entre essas forças. Talvez nem encontre. Mas, se a desordem social continuar crescendo, a questão central deixará de ser apenas como administrar cada crise e passará a ser qual visão de sociedade poderá novamente produzir coesão.

Nesse momento, a autoridade mais influente pode não ser necessariamente aquela que disponha inicialmente de mais polícia, mais dinheiro ou mais votos. Pode ser aquela capaz de convencer populações cansadas de que possui uma linguagem moral suficientemente ampla para colocar ordem no caos.

A França desta semana não prova que esse processo esteja acontecendo.

Mas oferece uma imagem difícil de esquecer: em poucos dias, Paris viu as barricadas da fragmentação e uma das maiores manifestações religiosas de sua história recente ocuparem as mesmas páginas do noticiário.

Para quem observa os movimentos de longo prazo, é justamente entre essas duas fotografias que pode estar a notícia mais importante.

Não é sobre prever eventos. É sobre entender o ambiente.

Related Posts with Thumbnails