Que contraste extraordinário.
Os sacerdotes ofereciam diariamente animais sem defeito para simbolizar o Messias. Naquele dia, o verdadeiro Cordeiro de Deus entrou no templo, mas ninguém percebeu. O sacerdote realizou a cerimônia com a mesma rotina de sempre. Tomou o Menino nos braços, pronunciou as palavras habituais e devolveu-O à mãe. Para ele, era apenas mais uma criança entre tantas outras.
Sem saber, segurava nos braços a Majestade do Céu.
Enquanto escrevia o nome "Jesus" entre os primogênitos de Israel, registrava justamente Aquele que colocaria fim ao sistema que ele próprio servia. Os sacrifícios, as ofertas, o sacerdócio e todo o ritual do templo encontravam seu cumprimento naquele pequeno Menino. O símbolo havia encontrado a realidade; a sombra estava diante do verdadeiro Corpo. Mesmo assim, os olhos acostumados à religião não reconheceram o Senhor da religião.
Essa cena revela um perigo que permanece atual. É possível estar muito perto das coisas sagradas e, ainda assim, não perceber a presença de Cristo. O sacerdote conhecia cada detalhe da liturgia, mas não conheceu o Salvador. Realizava diariamente cerimônias que anunciavam Jesus, porém não identificou Aquele para quem todas elas apontavam. A rotina espiritual pode anestesiar o coração quando a comunhão é substituída pelo hábito.
Contudo, o Céu jamais deixa Seu Filho sem testemunhas.
Entre os frequentadores do templo havia um homem chamado Simeão. Não ocupava posição de destaque. Não era sacerdote nem príncipe. Era simplesmente um homem justo, humilde e sensível à voz do Espírito Santo. Durante anos vivera alimentando uma promessa: não morreria antes de contemplar o Cristo do Senhor.
Naquele dia, conduzido pelo Espírito, entrou no templo exatamente no momento em que José e Maria apresentavam Jesus. O sacerdote nada enxergara. Os líderes nada perceberam. Mas Simeão reconheceu imediatamente aquilo que toda Jerusalém ignorava.
Tomando o Menino nos braços, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou uma das declarações mais belas das Escrituras:
"Agora, Senhor, despedes em paz o Teu servo... porque os meus olhos já viram a Tua salvação."
Para Simeão, aquele não era apenas um bebê. Era a salvação tornada visível. Era a luz prometida não somente para Israel, mas para todas as nações. Enquanto muitos aguardavam um libertador político, ele contemplava o verdadeiro Redentor da humanidade.
Logo depois, outra testemunha se aproximou.
Ana, uma idosa profetisa que havia dedicado sua vida à oração e ao serviço no templo, também reconheceu em Jesus o cumprimento das promessas divinas. Aqueles dois anciãos, quase invisíveis aos olhos da sociedade, enxergaram o que sacerdotes, escribas e governantes não conseguiram ver. Deus continua revelando Seus maiores tesouros aos corações humildes.
Mas, em meio à alegria, Simeão pronunciou palavras solenes dirigidas a Maria.
Aquele Menino seria colocado para queda e para levantamento de muitos. Seria um sinal de contradição. E uma espada atravessaria também a alma de Sua mãe.
Maria ainda sonhava com o trono de Davi restaurado. Imaginava o reinado glorioso do Messias. Ainda não compreendia que a coroa passaria primeiro pela cruz. Deus, em Sua misericórdia, preparava lentamente o coração daquela mãe para a dor que um dia contemplaria no Calvário.
Simeão também revelou um princípio que atravessa toda a experiência cristã: para sermos elevados em Cristo, precisamos primeiro cair sobre a Rocha e ser quebrantados. O maior obstáculo ao Reino de Deus nunca foi a fraqueza humana, mas o orgulho humano. Os judeus rejeitaram o Salvador porque esperavam exaltação sem humilhação. Queriam a glória da coroa, mas recusavam o caminho da cruz.
Essa continua sendo a escolha diante de cada coração.
Cristo sempre revela aquilo que verdadeiramente somos. Diante dEle, desaparecem as máscaras. O egoísmo se torna evidente. O orgulho perde seus argumentos. A cruz expõe tanto a profundidade do pecado quanto a grandeza do amor de Deus.
Foi exatamente ali que dois reinos se encontraram face a face.
No Calvário, Satanás revelou todo o ódio que nutria contra Deus. Cristo revelou todo o amor que Deus nutria pela humanidade.
O inimigo afirmou que Deus era egoísta. A cruz respondeu entregando o próprio Filho.
Satanás dizia que Deus apenas exigia. O Pai respondeu oferecendo tudo.
O acusador espalhou morte. Cristo entregou Sua própria vida para que o homem pudesse viver.
A dedicação daquele pequeno Menino no templo era apenas o início dessa maravilhosa história. O bebê apresentado diante do altar tornar-Se-ia o verdadeiro Sacerdote, o verdadeiro Sacrifício e o verdadeiro Templo. Não haveria mais necessidade de cordeiros, porque o Cordeiro perfeito ofereceria Sua vida uma vez para sempre.
No fim, toda a humanidade será colocada diante dessa mesma decisão. A cruz revelará definitivamente os pensamentos de todos os corações. Cada pessoa compreenderá quem Cristo realmente é e qual foi sua própria resposta ao amor de Deus. Então ficará evidente que o Senhor jamais negou misericórdia a quem a buscou. O Universo inteiro reconhecerá que Seu governo sempre foi justo, santo e perfeito.
Enquanto esse dia não chega, o convite permanece o mesmo.
Não basta reconhecer o Cristo da História.
É preciso receber o Cristo vivo.
Não basta admirar a criança de Belém.
É necessário entregar-Lhe o coração.
Porque Aquele Menino apresentado no templo continua sendo hoje o Salvador do mundo, o nosso Sumo Sacerdote e a esperança eterna de todos os que nEle confiam.
— Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
