O Salmo 87 é uma celebração de Sião, a cidade que Deus escolheu. O salmista declara: “Sua fundação está nos montes santos. O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as habitações de Jacó.” Mas a grandeza de Sião não está simplesmente em sua localização ou em suas construções. Ela está na presença de Deus. A cidade representa o lugar onde o Senhor manifestou Sua aliança e, por isso, torna-se símbolo de uma realidade espiritual muito maior.
O aspecto mais surpreendente do Salmo aparece quando Deus menciona povos tradicionalmente associados a nações estrangeiras e até inimigas: “Dentre os que Me conhecem, farei menção de Raabe e Babilônia; eis aí Filístia e Tiro, com Etiópia; lá nasceram.” Pessoas que, humanamente, seriam consideradas estrangeiras passam a ser reconhecidas como pertencentes à cidade de Deus. O salmista apresenta uma visão extraordinária: a verdadeira cidadania do Reino não será determinada pela origem, pela nacionalidade ou pela história familiar, mas pelo relacionamento com o Senhor.
Então aparece a declaração: “Este nasceu lá.” A repetição transforma o Salmo em uma espécie de registro celestial de pertencimento. Deus reconhece pessoas de diferentes povos como parte de Sua comunidade. A antiga divisão entre “nós” e “eles” perde sua força diante da graça. Aqueles que antes estavam distantes podem ser recebidos como cidadãos do povo de Deus.
Essa perspectiva encontra sua expressão plena em Cristo. O evangelho não foi destinado a uma única cultura ou território. Jesus enviou Seus discípulos a todas as nações, e o Novo Testamento descreve uma comunidade formada por pessoas de diferentes povos, línguas e origens. Em Cristo, a barreira que separava aqueles que estavam perto daqueles que estavam longe é derrubada. A salvação não apaga as diferenças culturais, mas estabelece uma identidade mais profunda: todos podem pertencer ao mesmo Reino.
O Salmo termina com uma imagem de alegria: “Cantores e instrumentistas estarão lá; todas as minhas fontes estão em ti.” A cidade de Deus não é apresentada como um lugar de exclusão, mas como uma comunidade marcada pela celebração. A verdadeira fonte da alegria não está na origem dos habitantes, mas no próprio Deus que os reúne.
Essa mensagem também nos confronta. É fácil imaginar que Deus pertence mais a um grupo do que a outro, que determinadas pessoas estão mais qualificadas para receber Sua graça ou que nossa história espiritual nos concede uma posição superior. O Salmo 87 desmonta essa perspectiva. Deus é capaz de chamar para perto justamente aqueles que nós consideraríamos distantes.
Talvez essa seja uma das belezas do evangelho: Deus não pergunta primeiro de onde viemos, mas se estamos dispostos a nascer para uma nova vida Nele.
O Reino de Deus será formado por pessoas de todas as nações, e a grande alegria será descobrir que aqueles que pareciam estrangeiros aos nossos olhos também podem ter seus nomes reconhecidos pelo próprio Deus.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere