Davi sabe que ninguém consegue aproximar-se do Senhor confiando em sua própria perfeição. “Prevalecem as nossas iniquidades; Tu no-las perdoas.” A presença de Deus começa com o perdão. O mesmo Deus que criou os céus e estabeleceu os montes é também aquele que escuta a oração de seres humanos frágeis e pecadores. Essa combinação entre majestade e misericórdia atravessa toda a Bíblia e encontra sua expressão mais completa em Cristo, por meio de quem somos reconciliados com Deus e convidados a permanecer em Sua presença.
Depois de olhar para a graça, Davi volta os olhos para a criação. Deus é apresentado como aquele que firma os montes, acalma os mares e estabelece os limites das nações. O salmista contempla a terra como uma obra continuamente sustentada pelo Criador. A chuva chega, os rios se enchem, os campos recebem água e a vegetação cresce. “Tu visitas a terra e a regas; Tu a enriqueces grandemente.” A imagem é de uma criação que depende continuamente da provisão divina. A vida não existe de maneira autônoma; ela continua porque Deus a sustenta.
O Salmo também apresenta Deus como aquele que prepara a terra para produzir alimento. Ele rega os sulcos, aplaina os torrões e abençoa o crescimento das plantações. Os campos se revestem de rebanhos, os vales se cobrem de trigo e, por toda parte, a criação parece responder à bondade do Criador. Essa visão nos lembra que aquilo que frequentemente tratamos como rotina — a chuva, o alimento, a fertilidade da terra e a sucessão das estações — também pode ser contemplado como expressão da providência de Deus.
Existe aqui uma lição espiritual importante. A mesma terra que recebe a chuva precisa ser preparada para produzir. A graça de Deus é abundante, mas não deve produzir em nós apenas admiração passageira. Ela deve encontrar um coração disposto a responder. Cristo utilizou muitas vezes imagens da agricultura para explicar o Reino de Deus, mostrando que a Palavra é como uma semente e que diferentes corações respondem a ela de maneiras diferentes.
O Salmo 65 termina com uma imagem de abundância: “Coroas o ano da Tua bondade, e as Tuas pegadas destilam fartura.” Davi olha para a criação e reconhece nela as marcas da providência divina. Isso não significa que toda estação da vida será igualmente fértil. Existem períodos de seca, perda e espera, tanto na natureza quanto na experiência humana. Mas a fidelidade de Deus não depende de uma única estação.
Talvez hoje você esteja vivendo uma fase em que ainda não consegue enxergar frutos. O Salmo nos convida a lembrar que Deus continua trabalhando mesmo quando o processo acontece debaixo da terra, longe dos nossos olhos. Aquele que rega os campos também conhece o coração que espera; e o Deus que faz a terra florescer continua capaz de produzir vida onde, por algum tempo, tudo parece permanecer seco.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
