terça-feira, 6 de outubro de 2026

A CASA É SUA, MAS O ESTADO DECIDE QUEM PODE FICAR NELA (2026.10.06)

A crise habitacional espanhola chegou a um ponto em que o governo tenta impedir despejos, congelar aluguéis e prolongar contratos enquanto milhões enfrentam preços incompatíveis com a renda. Para os defensores das medidas, trata-se de impedir que famílias vulneráveis sejam lançadas às ruas. Para os críticos, o Estado está transferindo ao proprietário privado parte do custo de uma crise que ele próprio não conseguiu resolver. A disputa espanhola levanta uma questão maior: o que acontece quando possuir formalmente um bem deixa de significar poder decidir plenamente como utilizá-lo?

A Espanha vive uma emergência habitacional concreta. O Banco da Espanha calcula que o déficit poderá superar um milhão de moradias até 2028, enquanto preços de compra e aluguel avançaram muito mais rapidamente que os salários. A situação ganhou enorme repercussão depois dos despejos de duas idosas — uma delas Maricarmen Abascal, de 87 anos — provocarem protestos e acampamentos. Para muitos jovens, o aluguel médio já se aproxima da totalidade de um salário mensal típico. Portanto, a indignação social não surgiu do nada: existe efetivamente uma geração com dificuldade crescente para transformar trabalho em acesso à própria moradia. Reuters

É a resposta política que transforma essa crise numa questão ainda maior. O governo de Pedro Sánchez apresentou decretos que preveem suspensão de despejos de inquilinos vulneráveis, congelamento ou forte limitação de aumentos, extensão extraordinária de contratos e novas restrições ao mercado de locação. Algumas propostas chegaram a prever proteção contra despejos até 2030; outras versões em negociação trabalham com 2028. O pacote enfrenta resistência parlamentar e pode nem sobreviver à votação do Congresso. Reuters

Há uma lógica social compreensível nisso: impedir que idosos, famílias pobres ou pessoas vulneráveis terminem na rua. Mas existe também uma pergunta jurídica e econômica difícil de evitar. Quem deve financiar essa proteção? Se o Estado considera a habitação um problema coletivo, deveria o custo ser distribuído pela sociedade através de políticas públicas, construção de moradias e orçamento estatal, ou transferido para alguém simplesmente porque possui o imóvel onde o problema se materializou?

Essa tensão aparece inclusive dentro da própria política espanhola. O Junts, partido catalão cujo apoio pode ser decisivo para Sánchez, argumenta que prolongar contratos, impedir despejos e congelar rendas diminuirá a disposição dos proprietários de colocar imóveis no mercado, reduzindo a oferta e agravando justamente aquilo que o governo pretende combater. Não é uma conclusão consensual: defensores da regulação afirmam que o mercado desprotegido também não conseguiu produzir habitação acessível. Mas a divergência revela o verdadeiro dilema. A proteção do inquilino e a proteção da propriedade podem entrar em colisão quando o Estado tenta resolver escassez por meio da redistribuição dos direitos existentes, em vez de ampliar suficientemente a oferta. Reuters

Existe ainda o problema das ocupações ilegais, frequentemente chamadas na Espanha de okupación. É importante não misturar fenômenos diferentes: inadimplência de um locatário, vulnerabilidade social e invasão de imóvel não são juridicamente a mesma coisa. Também seria incorreto dizer que o governo espanhol simplesmente legalizou a ocupação de propriedades. O que existe é uma disputa crescente sobre a velocidade dos despejos, proteção de vulneráveis e até onde o direito de propriedade pode ser limitado em nome da função social da habitação.

É nesse ponto que aparece uma associação frequentemente feita com a Agenda 2030 — e aqui precisamos separar documento de narrativa. A Agenda 2030 das Nações Unidas não diz que as pessoas deixarão de possuir bens. Seu Objetivo 11.1 determina que, até 2030, os países busquem garantir acesso a habitação “segura, adequada e a preço acessível”. O documento não estabelece a abolição da propriedade privada. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

A famosa frase “você não terá nada e será feliz” tem outra origem. Ela realmente apareceu em material divulgado pelo Fórum Econômico Mundial a partir de um ensaio de 2016 da então parlamentar dinamarquesa Ida Auken, que imaginava uma cidade de 2030 na qual automóveis, casas, eletrodomésticos e outros produtos seriam cada vez mais utilizados como serviços em vez de possuídos individualmente. Era um cenário prospectivo sobre economia compartilhada, não uma meta da Agenda 2030 nem uma determinação para governos confiscarem propriedades. Transformar as duas coisas no mesmo documento seria factualmente incorreto. Wikipedia

Mas corrigir essa associação não elimina a questão mais interessante.

Porque existe uma transformação econômica real na qual acesso substitui progressivamente propriedade. Moradia alugada, automóveis por assinatura, software licenciado, entretenimento por streaming, armazenamento em nuvem e serviços digitais transformam aquilo que anteriormente era comprado definitivamente em relações permanentes de dependência contratual. Isso não prova uma conspiração coordenada. Mostra uma mudança estrutural: uma pessoa pode usufruir de cada vez mais coisas enquanto possui cada vez menos delas.

A Espanha torna essa discussão especialmente concreta porque a casa representa justamente o contrário desse modelo. Para milhões de famílias, possuir uma residência significa independência, patrimônio transmissível aos filhos e proteção contra mudanças futuras do mercado. Quando o Estado amplia progressivamente sua capacidade de determinar quanto o proprietário pode cobrar, quando pode recuperar o imóvel, por quanto tempo determinado ocupante pode permanecer e sob quais circunstâncias o contrato precisa continuar, o título de propriedade permanece, mas algumas faculdades tradicionalmente associadas a ele tornam-se condicionadas.

Isso não significa que toda limitação seja ilegítima. Nenhuma sociedade moderna trata propriedade como direito absolutamente ilimitado. Zoneamento, tributação, proteção ambiental, direitos dos locatários e regras urbanísticas existem justamente porque o exercício de um direito pode afetar terceiros. A questão que a Espanha coloca é de proporção: em que momento regular o exercício da propriedade para proteger vulneráveis começa a deslocar para o indivíduo obrigações que pertencem ao Estado?

Essa discussão ganha uma dimensão ainda maior quando colocada ao lado das transformações que temos acompanhado. Identidade digital, dinheiro progressivamente desmaterializado, serviços por assinatura, cidades conectadas, inteligência artificial e administrações capazes de cruzar enormes quantidades de informação estão criando sociedades nas quais o acesso pode se tornar tão importante quanto a propriedade. Quem controla as condições de acesso passa a exercer uma forma de poder extraordinariamente eficiente.

É aí que a perspectiva profética oferece uma chave diferente. Apocalipse 13 não anuncia simplesmente uma sociedade sem propriedade privada. O texto fala de algo mais específico: chega um momento em que a participação econômica pode ser condicionada — ninguém pode comprar ou vender sem satisfazer determinada exigência vinculada à autoridade e à adoração.

Portanto, o ponto profético não é afirmar que a legislação espanhola seja a realização da Agenda 2030, muito menos que congelamentos de aluguel sejam a marca da besta. Seria forçar tanto os fatos quanto o texto bíblico. O que merece atenção é uma mudança mais profunda: uma civilização pode continuar reconhecendo formalmente a propriedade enquanto transfere progressivamente o poder real para os sistemas que determinam as condições de seu uso.

Você ainda possui.

Mas depende de autorização para utilizar, alugar, movimentar, transferir ou acessar.

Essa diferença pode parecer pequena enquanto as instituições permanecem benevolentes e as restrições possuem objetivos socialmente legítimos. Torna-se muito maior se, algum dia, as condições deixarem de ser apenas econômicas e passarem a envolver consciência, comportamento ou conformidade.

A crise espanhola não demonstra que esse futuro chegou. Mostra algo mais imediato: quando uma sociedade não consegue produzir habitação suficiente, o conflito deixa de ocorrer apenas entre pobres e ricos e passa a acontecer entre direitos. O inquilino reivindica o direito de permanecer. O proprietário reivindica o direito de dispor. E o Estado assume para si a autoridade de decidir onde termina um e começa o outro.

Talvez seja exatamente essa palavra — autoridade — que mereça ser observada.

Porque o mundo descrito em Apocalipse não começa com pessoas acordando numa manhã e descobrindo que perderam tudo. Ele culmina quando uma estrutura de poder possui capacidade suficiente para estabelecer as condições sob as quais todos poderão participar da vida econômica.

E uma sociedade organizada cada vez mais em torno do acesso pode descobrir, tarde demais, que a pergunta decisiva já não é apenas “o que é meu?”, mas “quem determina se eu posso usá-lo?”

Não é sobre prever eventos. É sobre entender o ambiente.

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