Existe, porém, algo especialmente importante na oração de Davi: ele não pede apenas proteção, mas também entrega a Deus a questão do julgamento. Ele sabe que não está diante de uma simples divergência, porque existe maldade deliberada naqueles que o perseguem. Seus inimigos falam com arrogância, ameaçam e agem como se ninguém pudesse vê-los, mas Davi olha para além deles e declara que Deus conhece todas essas coisas. Sua confiança não está na capacidade de responder à violência com a mesma violência, mas na certeza de que nenhum poder humano consegue escapar do conhecimento e da justiça do Senhor.
É nesse contexto que aparece uma das expressões mais bonitas do Salmo: “Eu, porém, cantarei a Tua força; pela manhã louvarei com alegria a Tua misericórdia.” A noite ainda não terminou quando Davi pronuncia essas palavras, e os inimigos ainda estão por perto. Mesmo assim, ele consegue olhar para a manhã com esperança, porque sabe que a misericórdia de Deus não depende da facilidade das circunstâncias. Essa é uma fé que não precisa enxergar o livramento completo para começar a confiar nele. No grande conflito entre o bem e o mal, muitas vezes parece que a injustiça possui vantagem, enquanto pessoas que agem de maneira correta enfrentam oposição e sofrimento. O Salmo, entretanto, nos lembra que existe uma diferença entre aquilo que Deus permite por algum tempo e aquilo que Ele finalmente aprovará. O mal pode avançar, mas não pode ocupar o lugar que pertence somente a Deus.
Cristo também conheceu a perseguição injusta. Homens conspiraram contra Ele, procuraram motivos para condená-Lo e finalmente O levaram à cruz. Aos olhos humanos, parecia que Seus inimigos haviam conseguido aquilo que desejavam, mas a ressurreição revelou que a conspiração humana possuía limites e que a soberania de Deus permanecia intacta. Por isso, quando enfrentamos situações em que pessoas trabalham contra nós, precisamos lembrar que o resultado imediato não representa necessariamente o final da história. Deus continua vendo aquilo que não conseguimos provar, conhece aquilo que não conseguimos explicar e permanece presente quando não sabemos quanto tempo a batalha ainda irá durar.
Talvez você esteja vivendo uma situação que parece não terminar, carregando uma injustiça ainda não resolvida ou enfrentando uma ameaça cujo desfecho não consegue enxergar. O Salmo 59 não promete que a batalha terminará imediatamente, mas oferece algo mais profundo: a certeza de que Deus continua sendo refúgio durante a noite e que Sua misericórdia alcançará também a manhã. Não confunda a duração da batalha com a ausência de Deus. Mesmo enquanto você espera pelo livramento, Ele pode estar fortalecendo sua confiança e ensinando seu coração a descansar naquele que nunca perdeu o controle da história.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
