terça-feira, 11 de agosto de 2026

O país da liberdade começa a pedir mais controle (2026.08.11)

Durante boa parte de sua história, os Estados Unidos construíram sua identidade nacional em torno de uma ideia quase sagrada: o poder do Estado deveria encontrar limites diante da liberdade individual. A Primeira Emenda, a desconfiança histórica em relação à concentração de autoridade e a defesa vigorosa da liberdade de expressão ajudaram a formar aquilo que ficou conhecido como o “experimento americano”. Por isso, chama atenção uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada recentemente: 61% dos americanos disseram apoiar maior supervisão governamental sobre as empresas de redes sociais, com apoio presente tanto entre democratas quanto entre republicanos. Mais significativo ainda, 66% declararam apoiar leis que obriguem plataformas a utilizar mecanismos de verificação de idade para impedir o acesso de menores de 16 anos. A pesquisa ouviu 4.505 adultos americanos e possui margem de erro de dois pontos percentuais. (Reuters)

É preciso começar com uma distinção indispensável. Defender proteção de crianças ou exigir responsabilidade de grandes empresas de tecnologia não é automaticamente defender censura, e seria incorreto apresentar a pesquisa dessa maneira. Há problemas reais envolvendo dependência digital, exposição de menores e funcionamento das plataformas que justificam uma discussão pública séria. A própria pesquisa mostra que os entrevistados reconhecem esses danos ao mesmo tempo em que continuam utilizando intensamente as redes. (Reuters) O aspecto que merece atenção, porém, está um passo além: diante de problemas que parecem escapar ao controle individual, uma parcela expressiva da população da nação que historicamente mais exaltou a liberdade passa a considerar natural entregar ao poder público instrumentos adicionais de supervisão sobre um dos principais espaços de comunicação da sociedade.

É assim que grandes mudanças políticas normalmente acontecem. Raramente uma sociedade acorda pela manhã desejando perder liberdades. Ela abre mão delas gradualmente quando acredita que alguma ameaça suficientemente grave justifica a medida. Primeiro surge um problema real; depois, uma solução que parece razoável; em seguida, uma infraestrutura de identificação, fiscalização ou restrição que poderá permanecer disponível para finalidades muito diferentes daquelas que motivaram sua criação. Isso não significa que mecanismos de verificação de idade levarão inevitavelmente a um Estado autoritário. Significa apenas que a fronteira entre proteção legítima e poder excessivo precisa permanecer visível, especialmente quando a vida social se transfere para ambientes digitais.

Esse fenômeno ganha uma dimensão particular dentro da interpretação profética historicista. Nessa leitura, a segunda besta de Apocalipse 13, que surge “da terra” e inicialmente possui dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, representa os Estados Unidos da América: uma nação associada historicamente à liberdade civil e religiosa que, no cenário final da profecia, acabaria empregando seu poder político em favor de uma forma de coerção religiosa. Trata-se de uma interpretação teológica adventista, não de uma conclusão estabelecida pela ciência política, mas ela torna especialmente interessante observar qualquer transformação cultural na relação dos americanos com liberdade e autoridade.

O aspecto talvez mais impressionante de Apocalipse 13 é que o controle ali descrito não começa simplesmente com soldados ocupando ruas. O capítulo apresenta persuasão, autoridade, economia e religião convergindo até que a capacidade de comprar e vender seja condicionada à submissão ao sistema. A questão decisiva é a consciência. O poder passa a determinar não apenas comportamentos externos, mas a exigir conformidade em uma esfera que, biblicamente, pertence exclusivamente a Deus.

Durante muito tempo, alguém poderia perguntar como uma sociedade acostumada à liberdade aceitaria tamanho nível de intervenção sobre a vida individual. O século XXI começa a oferecer uma resposta possível — não porque as atuais leis de redes sociais sejam o cumprimento de Apocalipse 13, mas porque estamos descobrindo algo sobre o comportamento humano. Quando medo, proteção e conveniência entram em cena, populações livres podem solicitar voluntariamente instrumentos de controle que em outra época rejeitariam.

A tecnologia potencializa extraordinariamente essa possibilidade. Para controlar uma sociedade antiga eram necessários soldados, documentos físicos e enormes estruturas burocráticas. Hoje, identidade, localização, comunicação, transações financeiras, preferências e relações sociais podem ser reunidas digitalmente. Sistemas de verificação de idade já podem envolver documentos, reconhecimento facial, consentimento parental ou análise automatizada, justamente porque a tecnologia tornou possível identificar usuários em escala antes inimaginável. (Reuters) Nenhuma dessas ferramentas é intrinsecamente profética ou maligna; podem inclusive servir a finalidades legítimas. O ponto é que a infraestrutura tecnológica capaz de proteger também é capaz de restringir, dependendo de quem a controla, de quais regras forem estabelecidas e de quais garantias permanecerem em vigor.

Por isso, o alerta espiritual não deveria transformar o cristão em conspiracionista, mas em alguém especialmente cuidadoso com a liberdade de consciência. A tradição nasce defendendo exatamente esse princípio: o Estado possui funções legítimas, mas não deve ocupar o lugar de Deus nem determinar aquilo que pertence à consciência religiosa. O problema de Apocalipse 13 não é simplesmente a existência de governo; é a transformação da autoridade civil em instrumento de coerção espiritual.

Talvez seja essa a parte mais significativa da pesquisa americana. Não demonstra que Apocalipse 13 esteja sendo cumprido por uma legislação sobre redes sociais e muito menos que os americanos estejam conscientemente pedindo uma ditadura. Mostra algo mais elementar e, justamente por isso, mais importante: até uma sociedade construída sobre a ideia de liberdade pode mudar rapidamente sua percepção sobre quanto poder está disposta a entregar quando acredita que isso lhe proporcionará segurança.

E é precisamente nesse terreno que a profecia sempre colocou o conflito final: não entre pessoas “boas” e “más”, nem simplesmente entre direita e esquerda, mas entre liberdade de consciência e coerção, entre a autoridade de Deus e sistemas humanos que ultrapassam os limites que lhes foram concedidos.

A pergunta profética, portanto, não é se devemos proteger crianças ou responsabilizar empresas. Devemos. A pergunta é outra: quando uma sociedade aprende a entregar progressivamente sua autonomia em troca de proteção, saberá reconhecer o momento em que o limite foi ultrapassado?

Apocalipse 13 responde com uma advertência. Apocalipse 14 responde com um chamado à fidelidade.

E talvez nunca tenha sido tão necessário compreender a diferença entre ser protegido pelo Estado e entregar ao Estado aquilo que pertence somente à consciência.

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