A Reuters informou nesta sexta-feira que os estoques mundiais de interceptadores do sistema Patriot estão sendo fortemente pressionados pela demanda criada pelas guerras atuais. O Patriot é operado por 19 países e tornou-se um dos principais sistemas utilizados contra mísseis balísticos e de cruzeiro. Segundo os números apresentados pela agência, aproximadamente 65% do estoque norte-americano de interceptadores Patriot teria sido consumido, enquanto a Arábia Saudita teria utilizado cerca de 86% de seus estoques em pouco mais de um mês durante o conflito regional envolvendo o Irã. (Reuters)
O quadro não se limita ao Patriot. Poucos dias antes, fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que os Estados Unidos haviam utilizado “virtualmente todos” os seus mísseis de precisão de longo alcance disponíveis para determinadas operações durante os meses de guerra com o Irã. O desgaste alcançou diferentes categorias de armamentos: Patriot, THAAD, ATACMS, PrSM e até parte significativa dos Tomahawk. A questão estratégica tornou-se tão séria que o debate americano passou a envolver diretamente a capacidade de manter prontidão para uma eventual crise simultânea envolvendo potências como Rússia ou China. (Reuters)
Essa talvez seja a parte mais reveladora da notícia. O mundo não está apenas assistindo a várias guerras. Ele começa a descobrir que a própria máquina destinada a sustentá-las possui limites.
A indústria tenta reagir. O governo americano firmou acordos bilionários para ampliar drasticamente a produção de componentes de sistemas como Patriot e THAAD, e o Pentágono pretende multiplicar sua capacidade produtiva. Um contrato do Exército dos Estados Unidos para interceptadores Patriot pode chegar a US$ 58,6 bilhões. Ainda assim, transformar dinheiro em capacidade militar não acontece instantaneamente. Fábricas precisam ser ampliadas, cadeias de fornecedores reorganizadas, componentes produzidos e sistemas montados. (Reuters)
Nesta própria sexta-feira, o executivo-chefe da alemã Rheinmetall advertiu que a expansão da produção de determinados mísseis levará tempo e que a reconstrução de estoques pode demorar mais de dois anos. Ou seja: mesmo as maiores economias do planeta estão descobrindo que não existe um botão capaz de produzir imediatamente aquilo que anos de conflitos conseguem consumir em meses. (Reuters)
Na Ucrânia, esse problema já deixou de ser uma discussão teórica. Kiev afirma que as entregas de interceptadores recebidas dos aliados em 2026 caíram para aproximadamente um terço do nível observado em 2025. Ao mesmo tempo, os ataques russos com mísseis continuam aumentando, criando uma equação cada vez mais difícil para os países que fornecem sistemas de defesa: proteger seus próprios estoques ou continuar abastecendo aliados envolvidos diretamente em guerras. (Reuters)
Existe aqui uma imagem profundamente significativa para quem observa os acontecimentos sob a perspectiva bíblica.
Durante séculos, os impérios confiaram em seus exércitos. Cavalos, carros, muralhas, navios, canhões, aviões e, agora, mísseis guiados por sistemas digitais. A tecnologia muda; a lógica humana permanece. Cada geração acredita ter construído uma estrutura suficientemente poderosa para garantir sua segurança.
Mas a Bíblia nunca tratou o poder militar como fundamento permanente da estabilidade.
O salmista escreveu: “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus” (Salmo 20:7). Na época, carros e cavalos representavam o que hoje chamaríamos de superioridade tecnológica militar. O princípio continua extraordinariamente atual: aquilo que parece produzir segurança absoluta sempre encontra algum limite.
Isso não significa que a atual escassez de sistemas de defesa seja, isoladamente, o cumprimento de uma profecia específica. Seria imprudente fazer essa afirmação. Mas ela se encaixa em um quadro muito mais amplo descrito pelas Escrituras: um mundo progressivamente marcado por guerras, rumores de guerras, perplexidade entre as nações e tentativas cada vez mais desesperadas de produzir segurança por meios humanos.
Jesus advertiu: “Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras” (Mateus 24:6). A importância dessa passagem não está apenas na existência de guerras — elas sempre acompanharam a humanidade —, mas no ambiente de inquietação que elas produzem.
Hoje, essa inquietação é globalizada.
Uma guerra no Oriente Médio consome interceptadores que poderiam estar disponíveis para a Europa. Uma guerra na Europa reduz estoques que poderiam ser necessários no Pacífico. Uma possível crise no estreito de Taiwan faz governos calcularem quantos sistemas precisam conservar. E, enquanto isso, fábricas trabalham para reconstruir arsenais que os conflitos atuais consomem mais rapidamente do que conseguem ser repostos.
As guerras deixaram de ser episódios regionais independentes. Elas estão conectadas pela mesma indústria, pelas mesmas cadeias de suprimento, pelos mesmos sistemas de defesa e, muitas vezes, pelos mesmos países fornecedores.
Essa interdependência torna o sistema mais poderoso, mas também mais vulnerável.
Existe ainda outra ironia. Quanto mais inseguro o mundo se torna, mais recursos são destinados à preparação militar; quanto maior a preparação, maior também a percepção de que uma guerra futura pode ocorrer. Assim, medo gera armamento, armamento alimenta rivalidades e rivalidades produzem novas razões para o medo.
É uma engrenagem antiga vestida com tecnologia do século XXI.
Na cosmovisão profética adventista, os acontecimentos finais não encontram um planeta em verdadeira segurança. Encontram sociedades pressionadas por crises políticas, econômicas e sociais, procurando desesperadamente mecanismos capazes de restaurar ordem e estabilidade. É justamente nessas circunstâncias que populações podem aceitar concentrações extraordinárias de autoridade em troca da promessa de proteção.
Por isso, talvez a notícia mais importante não seja que determinado país possui menos mísseis do que possuía alguns meses atrás. A notícia mais profunda é outra: até as estruturas construídas pelas maiores potências para garantir sua segurança estão revelando limites.
Os governos responderão aumentando a produção. Novas fábricas serão abertas. Contratos bilionários serão assinados. Estoques voltarão a crescer.
Até que uma nova crise coloque novamente o sistema à prova.
A história humana tem repetido esse ciclo durante milênios.
A profecia bíblica, porém, conduz o olhar para além dele. Daniel contemplou impérios extraordinariamente poderosos surgindo e desaparecendo até que finalmente Deus estabelecesse um Reino diferente de todos os anteriores — um Reino cuja segurança não dependeria de arsenais, fronteiras ou capacidade industrial.
É por isso que, num momento em que as nações contam mísseis e calculam quanto tempo conseguiriam sustentar outra guerra, talvez a antiga declaração das Escrituras seja mais contemporânea do que nunca:
“Uns confiam em carros e outros em cavalos; nós, porém, faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.”
Salmo 20:7
