Mas contemplar os céus não é suficiente. A criação pode revelar poder e majestade, porém não consegue explicar plenamente a vontade daquele que a criou. Por isso, no meio do Salmo, Davi deixa de olhar para o firmamento e volta os olhos para a Palavra. “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma.” Seus preceitos alegram o coração, Seus mandamentos iluminam os olhos e Seus juízos são verdadeiros e justos. Aquilo que o pecado procura apresentar como prisão, Davi descreve como tesouro “mais desejável do que ouro” e “mais doce do que o mel”. A lei não compete com a graça. Ela revela o caráter daquele que nos salva e mostra o caminho pelo qual a vida restaurada aprende novamente a caminhar.
Então acontece algo decisivo. Depois de olhar para o céu e para as Escrituras, Davi finalmente olha para dentro de si: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?” Quanto mais claramente enxergamos a santidade de Deus, menos espaço existe para a ilusão de nossa própria bondade. Há pecados que reconhecemos imediatamente, mas existem também falhas ocultas, hábitos que aprendemos a justificar e motivações que permanecem escondidas até de nós mesmos. Por isso Davi pede purificação dos erros desconhecidos e proteção contra pecados deliberados. Santificação não é apenas abandonar aquilo que já sabemos estar errado; é permitir que Deus continue iluminando áreas que ainda não conseguimos enxergar.
O movimento do Salmo é extraordinário: dos céus para a Palavra, da Palavra para o coração. Deus fala por meio daquilo que criou, fala de maneira objetiva naquilo que revelou e então deseja falar às profundezas da vida daquele que O escuta. No grande conflito entre verdade e mentira, não basta admirar a obra de Deus ou conhecer Seus mandamentos. A verdade precisa alcançar o caráter.
Por isso Davi termina com uma oração que deveria acompanhar cada novo dia: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na Tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu.” Talvez essa seja a resposta adequada depois de contemplarmos um céu estrelado. O Deus que governa galáxias também se importa com aquilo que pensamos em silêncio e com as palavras que escolhemos pronunciar. Os céus anunciam Sua glória sem dizer uma palavra. A pergunta é se nossa vida, depois de ouvir Sua voz, começará também a anunciá-la.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
