A escolha aconteceu longe da agitação das cidades. Jesus gostava das montanhas, dos campos e das margens do lago. Ali, cercado pelas obras da criação, ensinava verdades que nenhuma construção humana poderia ilustrar tão bem. A natureza era como uma grande sala de aula aberta, onde o coração encontrava paz e os pensamentos podiam se voltar para Deus.
Antes de escolher os doze, Jesus passou a noite em oração. Ele sabia exatamente quem estava chamando. Conhecia as qualidades de cada um, mas conhecia também suas fraquezas, seus temperamentos e as lutas que ainda enfrentariam. Mesmo assim, chamou-os.
E isso talvez seja uma das partes mais bonitas deste capítulo.
Jesus não escolheu homens prontos.
Pedro era impulsivo. Tomé tinha dificuldade para crer. Filipe demorava a compreender. João e Tiago tinham um temperamento tão forte que foram chamados de “filhos do trovão”. Mateus carregava o passado de publicano. Simão vinha de um ambiente completamente diferente. Eles tinham personalidades, histórias e opiniões que facilmente poderiam colocá-los uns contra os outros.
Mas havia algo capaz de uni-los: Cristo.
Quanto mais se aproximassem dEle, mais se aproximariam uns dos outros. Jesus não estava apenas formando pregadores. Estava transformando homens. João é um exemplo marcante. A convivência diária com a mansidão e a paciência de Cristo foi mudando aquele discípulo impetuoso. Ele ouviu repreensões, foi corrigido e confrontado, mas permaneceu perto do Mestre. E, contemplando Jesus, seu caráter foi sendo transformado.
Judas também recebeu sua oportunidade. Jesus conhecia seu coração e sabia onde sua ambição poderia levá-lo. Ainda assim, tratou-o com paciência. Judas ouviu as mesmas verdades, caminhou pelos mesmos caminhos e esteve diante do mesmo exemplo de amor abnegado. O problema não foi falta de oportunidade. Foi sua resistência em permitir que Cristo mudasse aquilo que ele insistia em conservar.
Essa diferença é importante. Os outros discípulos também tinham defeitos. A diferença é que continuaram aprendendo.
Quando chegou o momento da consagração, Jesus reuniu aquele pequeno grupo ao Seu redor, ajoelhou-Se entre eles, colocou as mãos sobre eles e orou. Estavam sendo separados para levar ao mundo aquilo que haviam visto e ouvido.
Deus poderia ter confiado essa missão aos anjos. Mas escolheu pessoas.
Pessoas frágeis, limitadas, ainda em processo de transformação. O poder da missão não estaria na perfeição dos mensageiros, mas em Cristo operando através deles. Por isso Paulo mais tarde escreveria que carregamos um tesouro em “vasos de barro”, para que fique evidente que a excelência do poder pertence a Deus.
E talvez seja justamente aí que o capítulo deixa de falar apenas dos doze e começa a falar de nós.
Cristo continua chamando pessoas imperfeitas. Não espera que primeiro eliminemos todas as nossas fraquezas para depois nos aproximarmos dEle. Ele nos chama para perto, ensina, corrige, transforma e então nos envia.
A pergunta não é se temos falhas.
A pergunta é se estamos dispostos a permanecer com Jesus tempo suficiente para que Ele transforme nosso caráter e use nossa vida.
