Há algo profundamente verdadeiro nessa oração. Davi não disfarça sua angústia para parecer mais espiritual. Ele sente como se Deus o tivesse esquecido e diz isso ao próprio Deus. Essa aparente contradição revela uma fé surpreendente: mesmo quando não consegue perceber a presença divina, continua dirigindo-se ao Senhor. O silêncio de Deus não o leva a abandonar a oração; torna sua oração ainda mais intensa. A fé bíblica não exige que finjamos estar bem. Ela nos permite levar ao Criador até aquilo que não conseguimos compreender sobre Sua maneira de agir.
Davi também revela outra dimensão do sofrimento: “Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia?” Algumas das batalhas mais exaustivas não acontecem ao nosso redor, mas dentro de nós. Pensamentos retornam, possibilidades são reconstruídas inúmeras vezes e tentamos encontrar soluções para aquilo que nossas mãos não conseguem controlar. É nesse cárcere interior que o inimigo procura transformar demora em abandono e silêncio em ausência. Mas aquilo que sentimos sobre Deus em determinado momento não altera quem Deus é.
Então Davi pede: “Atenta para mim, responde-me, Senhor, Deus meu! Ilumina os meus olhos.” Ele não pede apenas que as circunstâncias mudem; pede luz para atravessá-las. Há situações em que Deus transforma primeiro nosso olhar antes de transformar aquilo que estamos olhando. A graça começa a operar dentro do coração enquanto a batalha exterior ainda permanece.
E então acontece uma das mudanças mais belas dos Salmos. Nada no texto indica que os inimigos desapareceram ou que uma resposta visível chegou. Mesmo assim, Davi declara: “No tocante a mim, confio na Tua graça; regozije-se o meu coração na Tua salvação.” Ele começou perguntando até quando Deus o esqueceria e termina cantando porque o Senhor lhe tem feito muito bem. A memória da fidelidade passada torna-se fundamento para confiar no futuro.
Talvez sua oração hoje também seja apenas: “Até quando?” Não tenha medo de pronunciá-la. Deus não se ofende com a sinceridade de um coração que continua buscando-O. Apenas não permita que a pergunta seja sua última palavra. Depois de derramar diante Dele tudo aquilo que pesa, recorde quem Ele tem sido. Entre o “até quando?” e o louvor talvez ainda exista uma longa espera, mas há uma verdade que permanece durante todo o caminho: quando não conseguimos enxergar a mão de Deus, ainda podemos confiar em Seu caráter.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
