Quando Jesus chegou a Cafarnaum, alguns anciãos judeus foram ao Seu encontro para interceder pelo centurião. Eles tinham bons argumentos: diziam que aquele homem amava a nação e havia construído uma sinagoga. Em outras palavras, julgavam que ele merecia ser atendido. O próprio centurião, porém, enxergava a situação de maneira bem diferente. Ao saber que Jesus vinha em direção à sua casa, mandou dizer que não se considerava digno de recebê-Lo sob seu teto. E foi justamente dessa humildade que nasceu uma das mais belas declarações de fé dos Evangelhos: “Dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará.”
Como militar, ele entendia perfeitamente o que significava autoridade. Estava acostumado a dar uma ordem e vê-la cumprida. Se mandasse um soldado ir, ele ia; se ordenasse que outro viesse, ele vinha. E, de alguma maneira, percebeu que a autoridade de Jesus era infinitamente maior. Cristo não precisava tocar no enfermo, entrar em sua casa ou sequer estar perto dele. Se realmente possuía a autoridade divina que o centurião havia reconhecido, bastava falar. A doença também teria de obedecer. Jesus ficou admirado e declarou diante da multidão que nem mesmo em Israel havia encontrado tamanha fé. Naquela mesma hora, o servo foi curado.
A cena revela uma diferença profunda entre a religião baseada em méritos e a fé verdadeira. Os líderes disseram a Jesus que o centurião era digno de receber o favor porque havia feito coisas boas. O centurião dizia exatamente o contrário: “Não sou digno.” Ele não apresentou suas obras como moeda de troca, nem tentou convencer Cristo de que merecia alguma coisa. Apenas reconheceu sua necessidade e confiou no poder do Salvador. É assim que o pecador se aproxima de Deus: não exibindo aquilo que fez, mas descansando naquilo que Cristo pode fazer.
Pouco depois, Jesus seguiu para Naim, e o capítulo muda completamente de cenário. Se em Cafarnaum encontramos um homem cheio de fé pedindo pela vida de seu servo, em Naim encontramos uma mulher que não pede absolutamente nada. Jesus e a multidão que O acompanhava aproximavam-se da cidade quando encontraram um cortejo fúnebre saindo pelos portões. O morto era um jovem, filho único de uma viúva. Aquela mulher já havia perdido o marido e agora caminhava para sepultar também o filho, seu último vínculo familiar e seu amparo.
Jesus a viu no meio da multidão e foi tomado de compaixão. Não esperou que ela O procurasse. Não exigiu uma declaração de fé nem perguntou se acreditava que Ele poderia fazer alguma coisa. Simplesmente aproximou-Se e disse: “Não chores.” Humanamente, talvez não houvesse palavras mais difíceis de dizer a uma mãe que caminhava atrás do corpo do próprio filho. Mas quem pronunciava aquelas palavras era Aquele que tinha poder para transformar a razão de seu choro.
Jesus tocou o esquife, os carregadores pararam e o cortejo inteiro ficou em silêncio. Então Sua voz rompeu aquele ambiente de morte: “Jovem, eu te mando: Levanta-te.” O rapaz abriu os olhos, sentou-se e começou a falar. Jesus o tomou e o entregou à mãe. Em poucos instantes, a procissão que caminhava para um sepultamento transformou-se numa celebração. O povo, tomado de temor e reverência, glorificava a Deus dizendo: “Deus visitou o Seu povo.”
As duas histórias colocadas lado a lado revelam algo muito bonito sobre Cristo. O centurião sabia exatamente o que queria e teve fé suficiente para pedir. A viúva de Naim estava tão mergulhada na dor que não pediu coisa alguma. Jesus atendeu aos dois. Há momentos em que nossa fé consegue dizer: “Senhor, basta uma palavra.” Em outros, mal conseguimos organizar uma oração. A dor fala por nós. O mesmo Salvador que ouviu a fé do centurião também percebeu silenciosamente as lágrimas daquela mãe.
Mas Naim não termina apenas com a alegria daquela família. A ressurreição do jovem apontava para uma promessa muito maior. Ele voltou à vida, mas ainda estava sujeito à morte. Cristo, porém, venceu definitivamente a sepultura e prometeu voltar. A voz que um dia disse diante dos portões de Naim “Levanta-te” será novamente ouvida quando “os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro”.
É por isso que este capítulo fala tanto à fé quanto à dor. O centurião nos ensina que nenhuma distância limita o poder de Cristo; a viúva de Naim nos lembra que nenhuma tristeza passa despercebida aos Seus olhos. Quando temos forças para pedir, podemos confiar em Sua palavra. Quando nem forças para pedir restam, podemos confiar em Sua compaixão. Porque Jesus continua sendo Senhor tanto sobre a enfermidade quanto sobre a morte.
