segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O CORDEIRO COMEÇA A FALAR COMO DRAGÃO (2026.09.07)

Trump cercado por gigantescas máquinas de guerra, a Lua declarada americana, territórios redesenhados e, agora, o próprio presidente transformado em Lanterna Verde pela comunicação da Casa Branca. As imagens podem parecer apenas mais um capítulo da política-espetáculo produzida por inteligência artificial, mas a linguagem que elas constroem merece atenção. Para quem acompanha a trajetória profética dos Estados Unidos em Apocalipse 13, a questão não está em encontrar profecia em cada meme, e sim em observar como uma nação que nasceu associando sua identidade à liberdade passa a representar a si mesma por meio de uma estética cada vez mais ligada à força, ao domínio e à capacidade de impor sua vontade.

Donald Trump passou o domingo, 6 de setembro, publicando uma quantidade incomum de imagens em sua conta no Truth Social. Ao longo de mais de dez horas, foram 37 postagens envolvendo política, guerra, mercado financeiro, território e cenas aparentemente produzidas por inteligência artificial. Algumas eram deliberadamente fantasiosas, como as montagens em que o presidente aparecia caracterizado como Hulk Hogan, acompanhado por George Washington ou cercado por gigantescos robôs futuristas; outras carregavam mensagens geopolíticas mais reconhecíveis, entre elas a imagem da Lua acompanhada pela afirmação “The Moon Is Ours” — “A Lua é nossa” —, referências ao Estreito de Ormuz como território americano e uma montagem substituindo “New Mexico” por “New America”. Não se trata, evidentemente, de tomar essas imagens como documentos formais de política externa, mas seria igualmente insuficiente descartá-las como brincadeiras sem significado, porque propaganda política sempre comunicou muito mais do que decisões administrativas: ela revela como o poder deseja ser percebido.

Entre as imagens mais simbólicas dessa sequência, Trump aparece diante de enormes máquinas com aparência militar e elementos visuais americanos, enquanto a inscrição afirma que “eles sonharão conosco para sempre”. A cena é ficcional, provavelmente produzida ou fortemente manipulada por inteligência artificial, e nada nela deve ser confundido com a apresentação de um programa militar real. O interesse está justamente em outro lugar: na escolha de uma iconografia em que máquinas gigantescas, domínio tecnológico, intimidação e identidade nacional são reunidos para representar o poder americano. A postagem foi registrada no arquivo público das publicações de Trump em 6 de setembro, confirmando que não se trata apenas de uma montagem produzida por admiradores e posteriormente atribuída ao presidente.

Quase simultaneamente, essa mesma estética ultrapassou a conta pessoal de Trump e alcançou a comunicação institucional da Presidência. A Casa Branca publicou um vídeo no qual Trump aparece caracterizado como Lanterna Verde, personagem cujo anel permite materializar praticamente qualquer coisa que sua vontade consiga conceber. Na representação, o poder do personagem é colocado a serviço de símbolos políticos muito específicos: aparecem a fronteira, a indústria americana e elementos do poder militar dos Estados Unidos, enquanto a publicação utiliza o conhecido juramento do herói. A escolha é obviamente lúdica e não deve ser interpretada como declaração literal de governo, mas o fato de o material constar da própria biblioteca oficial de vídeos da Casa Branca mostra que a transformação do presidente em personagem dotado de poderes extraordinários já faz parte da linguagem institucional utilizada para comunicar força política.

O que chama atenção, portanto, não é uma imagem específica, mas o padrão que começa a surgir quando elas são colocadas lado a lado. A Lua aparece sob a afirmação de posse americana; nomes geográficos são reinterpretados para ampliar simbolicamente a presença dos Estados Unidos; o presidente é colocado entre máquinas de guerra e centros de comando futuristas; o poder militar aparece integrado à figura de um super-herói cuja principal característica é transformar vontade em realidade. Nada disso demonstra que Washington esteja preparando uma conquista da Lua, nem autoriza tratar montagens de inteligência artificial como anúncios antecipados de decisões militares. O que elas revelam é uma maneira de imaginar o poder: a América não apenas como nação forte, mas como força capaz de ultrapassar fronteiras, remodelar espaços e impor sua presença muito além de seu próprio território.

É justamente nesse ponto que a questão ultrapassa Donald Trump e se aproxima de uma das imagens mais intrigantes do Apocalipse. Depois de apresentar a primeira besta de Apocalipse 13, João descreve outra potência surgindo da terra e afirma que ela possuía “dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas falava como dragão” (Apocalipse 13:11). Na interpretação historicista, essa segunda potência encontra sua identificação nos Estados Unidos, não porque cada episódio da política americana deva ser transformado em cumprimento profético, mas porque a trajetória descrita no texto apresenta uma combinação singular: uma potência que começa com características associadas ao cordeiro e termina exercendo uma autoridade que assume a linguagem e os métodos do dragão.

A força dessa imagem está precisamente no contraste. João não vê uma potência que surge imediatamente com a aparência aterradora dos grandes impérios que dominaram o mundo antigo; ele vê algo que inicialmente apresenta características muito diferentes. A experiência americana nasceu sem rei, sem monarquia hereditária e sem uma igreja nacional nos moldes das antigas potências europeias. Sua identidade política foi construída em torno de representação, limitação do poder estatal, liberdade de consciência e liberdade religiosa, princípios que encontrariam expressão particularmente importante na Constituição e na Primeira Emenda. Isso jamais significou que a história americana tenha sido coerente com seus próprios ideais em todos os momentos — a escravidão, a segregação, o tratamento dispensado a povos indígenas e diversos episódios de intervenção externa demonstram contradições profundas —, mas significa que o país transformou a liberdade em parte essencial de sua autocompreensão histórica.

Por essa razão, a descrição profética não poderia ser mais significativa: o problema não está no modo como essa potência nasce, mas na transformação que ocorre na maneira como passa a exercer sua autoridade. Quando Apocalipse diz que ela “fala como dragão”, a linguagem bíblica não precisa ser reduzida ao tom agressivo de um governante. Estados falam através de leis, tribunais, sanções, instituições, decisões administrativas e capacidade coercitiva; sua voz é finalmente percebida naquilo que conseguem obrigar pessoas e sociedades a fazer. Donald Trump, portanto, não deve ser transformado no personagem central dessa profecia. Presidentes chegam e partem, enquanto as estruturas de poder nacional permanecem, acumulam capacidades e podem ser utilizadas de maneiras muito diferentes por governos sucessivos.

É exatamente essa distinção que torna as imagens recentes relevantes sem exigir qualquer exagero interpretativo. Trump não precisa ser identificado com o dragão para que possamos observar uma mudança na linguagem pública do poder americano. A questão é perceber que a representação da América como força irresistível, capaz de projetar sua vontade sobre territórios, adversários e até o espaço, encontra um país que já dispõe de recursos militares, econômicos, financeiros e tecnológicos sem precedentes históricos. Quando a retórica da supremacia encontra uma infraestrutura real de poder, aquilo que seria apenas espetáculo passa a merecer uma análise mais cuidadosa.

Essa observação se torna ainda mais importante quando colocada ao lado de outra transformação que já examinamos no Diário da Profecia: a construção de uma sociedade cada vez mais monitorável e administrável digitalmente. Redes de vigilância conseguem acompanhar deslocamentos; sistemas biométricos identificam indivíduos; plataformas registram comportamentos; instituições financeiras conhecem transações; algoritmos analisam quantidades de informação que nenhuma burocracia humana conseguiria processar manualmente. Nenhuma dessas tecnologias constitui a marca da besta e não existe fundamento bíblico para identificar uma câmera, um cartão, um smartphone ou um sistema de inteligência artificial com a marca descrita em Apocalipse. Entretanto, a infraestrutura tecnológica do século XXI tornou concebível algo que durante grande parte da história seria operacionalmente quase impossível: aplicar restrições individualizadas a milhões de pessoas de maneira rápida, automatizada e coordenada.

Apocalipse 13 reúne precisamente dimensões que hoje tendemos a analisar separadamente. O capítulo começa tratando de autoridade e adoração, avança para coerção e termina alcançando a esfera econômica, descrevendo um cenário em que comprar e vender se tornam instrumentos de pressão sobre a consciência. O centro da profecia não é tecnológico, mas espiritual; a tecnologia, quando muito, pode fornecer os meios pelos quais determinadas formas de controle se tornam possíveis. Por isso, a pergunta realmente importante não é se algum dos robôs publicados por Trump representa algo profético, mas o que poderá acontecer quando uma potência com capacidade tecnológica para identificar indivíduos, poder econômico para influenciar mercados e força militar para projetar sua vontade passar a considerar legítimo utilizar essas capacidades em questões relacionadas à consciência.

Há ainda outro elemento indispensável na leitura historicista desse capítulo. A segunda besta não age isoladamente: ela conduz a humanidade em direção à imagem da primeira besta, e o conflito culmina numa convergência entre poder civil, autoridade religiosa e coerção. Isso significa que o cenário profético não pode ser reduzido ao crescimento do nacionalismo americano ou ao estilo político de um presidente. A transformação decisiva ocorrerá quando estruturas de poder que originalmente deveriam proteger a liberdade de consciência forem mobilizadas para restringi-la, especialmente quando uma reivindicação religiosa receber força civil. Nesse sentido, o sinal realmente importante não será um presidente falando de territórios ou aparecendo como super-herói, mas uma mudança muito mais profunda na compreensão dos limites que o Estado deve respeitar diante da consciência.

É também por isso que a profecia continua relevante independentemente de quem ocupar a Casa Branca. Trump poderá deixar a Presidência, seus sucessores poderão rejeitar completamente sua estética e as redes sociais poderão abandonar a atual linguagem de memes produzidos por inteligência artificial, mas as capacidades acumuladas pelo Estado americano não desaparecerão com a troca de governo. A infraestrutura militar continuará existindo, os sistemas de inteligência permanecerão operacionais, as redes digitais continuarão ampliando sua capacidade, o sistema financeiro conservará enorme influência internacional e as tecnologias de identificação e monitoramento provavelmente continuarão avançando. A profecia não depende da permanência de uma personalidade porque descreve o desenvolvimento histórico de uma potência.

Sob essa perspectiva, talvez o aspecto mais significativo das imagens recentes não seja seu conteúdo extravagante, mas a facilidade com que uma linguagem de domínio se tornou entretenimento político. Territórios podem ser redesenhados, adversários podem ser simbolicamente ameaçados, máquinas gigantescas podem representar a força nacional e o presidente pode ser transformado em um personagem cujo poder deriva da capacidade de materializar sua própria vontade. Tudo isso pode continuar sendo apresentado como humor, provocação e comunicação digital sem que qualquer imagem individual possua importância profética. Entretanto, quando uma sociedade se acostuma a imaginar poder principalmente como capacidade de impor vontade, torna-se legítimo perguntar quais limites continuarão sendo considerados invioláveis quando surgir uma crise suficientemente grave para justificar seu exercício.

Esse é o ponto em que Apocalipse 13 deixa de ser uma curiosidade sobre o futuro e se transforma numa advertência sobre a natureza do poder. A profecia não nos convida a procurar monstros escondidos em cada acontecimento político, mas a observar uma trajetória na qual princípios podem permanecer escritos enquanto a prática se distancia deles. Uma nação pode continuar exaltando liberdade em seus discursos e, ao mesmo tempo, ampliar progressivamente os mecanismos pelos quais consegue condicionar comportamentos; pode continuar celebrando a consciência individual enquanto cresce a disposição de utilizar força econômica, tecnológica ou jurídica para alcançar determinados objetivos coletivos. A passagem do cordeiro ao dragão não precisa ocorrer num único decreto nem diante de uma população consciente de que está testemunhando uma ruptura histórica. Transformações dessa natureza podem amadurecer lentamente, legitimadas por crises, necessidades reais, medos coletivos e argumentos apresentados em nome do bem comum.

É por isso que as manifestações recentes de Trump devem ser observadas com equilíbrio. Elas não constituem o cumprimento de Apocalipse 13, não demonstram que o presidente esteja conscientemente desempenhando algum papel profético e não autorizam transformar inteligência artificial, robôs imaginários ou reivindicações territoriais em símbolos apocalípticos automáticos. Elas são, contudo, expressões de uma cultura política na qual força, domínio, expansão e supremacia estão sendo apresentados de maneira cada vez mais explícita como atributos desejáveis da grandeza americana. Para quem conhece a profecia sobre uma potência que começa com aparência de cordeiro e termina falando como dragão, essa mudança de linguagem não precisa ser transformada em sensacionalismo para merecer atenção.

A grande questão continuará sendo aquilo que os Estados Unidos farão quando poder, religião, segurança nacional, tecnologia e consciência finalmente se encontrarem no mesmo conflito. Enquanto a liberdade puder ser preservada sem custo, defender a liberdade será relativamente simples; o verdadeiro teste surgirá quando permitir que uma minoria siga sua consciência parecer inconveniente para a estabilidade da maioria. É justamente nesse terreno que Apocalipse situa a crise final, porque o dragão não se revela simplesmente pela quantidade de armas que uma potência possui, mas pela disposição de utilizar autoridade para exigir aquilo que Deus reservou à consciência.

As imagens deste início de setembro talvez sejam lembradas apenas como extravagâncias da comunicação política de uma época dominada pela inteligência artificial. É possível que nenhuma delas tenha consequência histórica relevante. Ainda assim, elas nos oferecem uma oportunidade para olhar além da superfície e perceber a direção de uma transformação muito maior: a potência que surgiu proclamando liberdade continua acumulando instrumentos extraordinários de influência, vigilância, pressão econômica e força militar, enquanto parte de sua linguagem política começa a celebrar abertamente a ideia de domínio. A profecia não nos permite afirmar antecipadamente em qual episódio essa trajetória alcançará seu ponto decisivo, mas nos oferece um critério muito claro para reconhecê-lo quando chegar: a questão final não será o tamanho do poder americano, e sim o momento em que esse poder for empregado contra a liberdade de consciência que ajudou a definir a própria América.

Talvez seja justamente essa a profundidade da imagem escolhida por João. A potência não deixa necessariamente de possuir a aparência do cordeiro antes de começar a falar de outra maneira. Liberdade e coerção podem, durante algum tempo, coexistir dentro da mesma estrutura; princípios antigos podem permanecer inscritos nos monumentos enquanto novos mecanismos de poder amadurecem ao redor deles. O discernimento profético consiste em não esperar que o dragão se apresente com esse nome, mas reconhecer sua voz quando a força passar a ocupar o lugar da consciência e a autoridade humana reivindicar o direito de determinar aquilo que pertence a Deus.

Não é sobre prever eventos. É sobre entender o ambiente.

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