Diante da majestade desse Deus, surge uma pergunta inevitável: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no Seu santo lugar?” A resposta conduz imediatamente ao caráter: “O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente.” Mãos falam daquilo que fazemos; coração fala daquilo que somos quando ninguém está olhando. Deus não aceita a separação confortável entre religião e vida. A santidade que Ele deseja alcança atitudes, intenções, palavras e lealdades.
Se formos sinceros, essa descrição também revela nossa insuficiência. Quem poderia apresentar-se diante do Deus santo alegando mãos absolutamente limpas e coração perfeitamente puro? É aqui que a necessidade da graça se torna inevitável. O padrão divino não é reduzido para acomodar nosso pecado. Em Cristo encontramos aquele que corresponde perfeitamente a esse padrão e, pela fé, recebemos perdão e uma nova vida. A graça não torna a obediência desnecessária; torna possível uma existência que começa a desejar aquilo que Deus deseja. Santificação é permitir que o Rei governe também os territórios interiores que durante tanto tempo reservamos para nós mesmos.
Então o Salmo muda de cenário. Portas antigas aparecem diante de uma procissão e ouvimos uma ordem grandiosa: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória.” A pergunta ecoa: “Quem é o Rei da Glória?” A resposta vem poderosa: “O Senhor, forte e poderoso, o Senhor, poderoso nas batalhas.” O Deus que reivindica a terra não é uma ideia religiosa distante. Ele é Rei. No grande conflito entre o bem e o mal, Seu governo foi desafiado, mas jamais destruído. Cristo entrou na batalha, enfrentou o pecado e a morte e saiu vitorioso. O Rei da Glória permanece soberano.
Mas existe uma dimensão profundamente pessoal nessa imagem. As portas que precisam se abrir não estão apenas diante de uma cidade. Existem portas dentro de nós. Podemos admirar o Rei, falar sobre Ele e ainda manter áreas da vida fechadas ao Seu governo. O Salmo não apresenta Cristo simplesmente como visitante que deseja alguns momentos de nossa atenção, mas como Rei que possui legítimo direito de entrada.
Por isso, a pergunta final não é apenas “Quem é o Rei da Glória?”, mas se abriremos diante Dele aquilo que ainda tentamos governar sozinhos. A terra é Dele. A vida é Dele. O futuro é Dele. Quando o Rei da Glória se aproxima, a resposta da fé não é apenas contemplá-Lo do lado de fora, mas levantar as portas e deixá-Lo entrar.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
