O Salmo começa com uma convocação incomum: “Batei palmas, todos os povos; celebrai a Deus com vozes de júbilo.” Não é apenas Israel sendo chamado a adorar. São todos os povos. Desde o início, a visão ultrapassa fronteiras nacionais. O Deus da Bíblia não é apresentado como uma divindade local competindo com os deuses de outras nações. Ele é o Rei de toda a terra.
Essa verdade tinha enorme significado no mundo antigo, onde povos associavam suas vitórias ao poder de suas divindades. Israel, porém, deveria aprender que nenhuma fronteira limitava a autoridade do Senhor.
Mas existe algo ainda mais profundo. O Salmo não apresenta apenas um Deus poderoso. Ele apresenta um Deus que governa a história segundo Seu propósito. “Deus é o Rei de toda a terra; salmodiai com harmonioso cântico.” Reis surgem e desaparecem, impérios alcançam o auge e depois entram para os livros de história, mas o trono de Deus não participa dessa sucessão.
Ele permanece.
Isso não significa que tudo o que acontece no mundo expresse a vontade de Deus. A Bíblia revela uma humanidade em rebelião e um grande conflito entre o bem e o mal. Pessoas continuam livres para escolher caminhos contrários ao caráter divino, e essas escolhas produzem consequências reais. Ainda assim, a rebelião jamais transformou Satanás ou qualquer poder humano no soberano definitivo da história.
O mal possui espaço de atuação, mas não possui o trono.
Então o salmista declara: “Deus subiu por entre aclamações, o Senhor, ao som de trombeta.” A imagem é de uma entronização vitoriosa. Para o cristão, é difícil ler essas palavras sem lembrar da ascensão de Cristo. Depois da cruz e da ressurreição, Jesus retornou ao Pai. Aquilo que aos olhos humanos parecia derrota tornou-se vitória.
A cruz havia mostrado algo surpreendente sobre esse Rei: Ele vence de maneira diferente dos reis deste mundo. Não conquistou pela opressão, mas pelo sacrifício. Não tomou vidas para estabelecer Seu Reino; entregou a própria vida para salvar Seus inimigos.
Por isso Sua autoridade não deveria produzir apenas temor, mas adoração.
O Salmo termina dizendo que “os príncipes dos povos se reúnem com o povo do Deus de Abraão”. A promessa feita a Abraão já apontava para um propósito universal: por meio de sua descendência, todas as famílias da terra seriam alcançadas. O Reino de Deus nunca foi pensado como propriedade exclusiva de um povo. Seu convite atravessa fronteiras, línguas e gerações.
Talvez precisemos lembrar disso especialmente quando o mundo parece instável.
Nossa esperança não está na permanência de um governo, na força de uma nação nem na capacidade humana de controlar a história. Essas coisas possuem seu lugar e suas responsabilidades, mas nenhuma delas merece o peso da nossa confiança final.
Acima dos tronos que mudam existe um trono que permanece. Acima dos poderes que disputam a história existe um Rei que não precisa disputar Sua soberania.
E chegará o momento em que aquilo que hoje reconhecemos pela fé será visto plenamente por toda a criação.
Até lá, o Salmo 47 nos chama a viver com essa certeza:
o mundo pode mudar de mãos muitas vezes, mas nunca saiu das mãos de Deus.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
