sexta-feira, 4 de setembro de 2026

TRADIÇÃO (DTN42)

Escribas e fariseus vindos de Jerusalém aproximaram-se de Jesus procurando algum motivo para acusá-Lo. Como não conseguiam condená-Lo por violar a lei de Deus, voltaram-se para aquilo que, na prática, havia adquirido entre eles quase a mesma autoridade: a tradição dos anciãos. Ao longo do tempo, inúmeras regras haviam sido acrescentadas aos mandamentos divinos, especialmente relacionadas à purificação cerimonial. O problema não estava simplesmente na existência de costumes, mas no lugar que passaram a ocupar. Aquilo que homens haviam estabelecido começara a ser tratado como mais sagrado que aquilo que Deus havia ordenado.

Foi nesse contexto que os fariseus perguntaram por que os discípulos de Jesus comiam sem realizar as lavagens cerimoniais prescritas pela tradição. Cristo não entrou numa discussão sobre os detalhes do ritual. Foi diretamente à questão central: “Por que transgredis vós também o mandamento de Deus pela vossa tradição?” E apresentou um exemplo contundente. Deus ordenara que os filhos honrassem pai e mãe, mas os líderes religiosos haviam criado mecanismos pelos quais alguém poderia declarar seus bens como dedicados ao templo e, sob aparência de devoção, deixar de ajudar os próprios pais necessitados. A religião exterior havia se tornado um meio de contornar a própria vontade de Deus.

Jesus então aplicou a eles as palavras de Isaías: “Este povo honra-Me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de Mim.” Era possível possuir uma aparência rigorosa de religião e, ao mesmo tempo, estar espiritualmente distante de Deus. O problema do farisaísmo não era excesso de obediência, mas uma obediência deslocada. Eram rigorosos naquilo que homens haviam estabelecido enquanto negligenciavam os grandes princípios da lei divina. A tradição deixara de ser instrumento e se transformara em autoridade.

Cristo aprofundou ainda mais a questão ao ensinar que a verdadeira contaminação não acontece de fora para dentro. Não eram alimentos, mãos não lavadas cerimonialmente ou a negligência de determinadas formalidades que tornavam alguém impuro diante de Deus. A verdadeira impureza nasce no coração. Pensamentos maus, orgulho, engano, cobiça e toda transgressão da vontade divina revelam um problema que nenhuma cerimônia externa consegue remover. Pureza espiritual não é aparência cuidadosamente preservada; é transformação interior.

Os discípulos perceberam que os fariseus haviam ficado profundamente ofendidos com aquelas palavras e avisaram Jesus. Ele, porém, não suavizou a verdade para preservar a aprovação dos líderes religiosos: “Toda planta que Meu Pai celestial não plantou será arrancada.” Nenhuma tradição, por mais antiga, respeitada ou amplamente aceita que seja, adquire autoridade simplesmente porque atravessou gerações. Tudo precisa ser submetido à Palavra de Deus.

Essa advertência ultrapassa os dias dos fariseus. Também podemos transformar hábitos religiosos, costumes culturais, opiniões de líderes ou maneiras tradicionais de fazer as coisas em critérios de fidelidade. Uma prática pode ser antiga e ainda assim não ter sido ordenada por Deus; pode ser popular e ainda assim não expressar Sua vontade. O perigo surge quando deixamos de perguntar “O que Deus disse?” e passamos a perguntar apenas “Como sempre fizemos?”

Cristo não nos chama a uma religião construída apenas sobre formas exteriores. Ele procura um coração verdadeiramente submetido a Deus, no qual a obediência nasce do amor e a Palavra permanece acima das opiniões humanas. A tradição pode ter seu lugar, mas jamais o trono. Esse pertence somente a Deus.

Por isso, permanece atual a advertência de Jesus: “Em vão Me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” A verdadeira fidelidade começa quando permitimos que a Palavra de Deus examine não apenas aquilo que fazemos, mas também aquilo em que acreditamos — e temos humildade suficiente para abandonar qualquer tradição quando ela toma o lugar da verdade.

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