Essa diferença é essencial. Fé não é negar a existência da escuridão, mas saber onde está a luz. Não é imaginar que somos invulneráveis, mas conhecer nossa fortaleza. Por isso, quando Davi contempla a possibilidade de um exército acampado contra ele, declara: “Ainda assim terei confiança.” A segurança não nasce da comparação entre suas forças e as do inimigo. Nasce de quem permanece ao seu lado quando suas próprias forças já não bastam.
Surpreendentemente, porém, o centro do Salmo não é a batalha. Quando poderia pedir armas, estratégias ou destruição imediata dos adversários, Davi revela seu maior desejo: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor.” É como se ele dissesse que existe algo mais importante do que escapar dos inimigos: não perder a presença de Deus enquanto os enfrenta. Essa é uma das marcas da maturidade espiritual. A oração deixa de ser apenas “Senhor, tira-me daqui” e passa também a dizer: “Senhor, não permitas que esta crise me afaste de Ti.”
Mas Davi não permanece emocionalmente inabalável durante todo o Salmo. Em determinado momento, seu clamor se torna intenso: “Não escondas de mim o Teu rosto.” Até imagina o abandono daqueles que deveriam estar mais próximos: “Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá.” A fé bíblica não elimina a fragilidade humana. Ela nos ensina onde levá-la. Davi sente medo, deseja respostas e conhece a possibilidade da solidão, mas transforma tudo isso em oração.
No grande conflito entre o bem e o mal, uma das estratégias mais persistentes do inimigo é convencer-nos de que estamos sozinhos. Por isso, permanecer na presença de Deus é também resistência espiritual. Cristo revelou definitivamente que as trevas não possuem a última palavra. Nele encontramos luz, salvação e um caminho que nenhum poder do mal poderá apagar.
O Salmo termina sem nos dizer que todos os problemas de Davi foram resolvidos. Em vez disso, oferece uma ordem ao próprio coração: “Espera pelo Senhor, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo Senhor.”
Talvez essa seja a palavra necessária hoje. Você não precisa conhecer antecipadamente o desfecho para continuar confiando. Quando não puder avançar, espere. Quando o coração enfraquecer, permaneça. O medo pode bater à porta, mas não precisa governar a casa quando o Senhor é a luz, a salvação e a fortaleza de quem habita nela.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
