Em uma França construída politicamente sobre a laicidade, Leão XIV escolheu falar não apenas aos católicos, mas ao Estado, à UNESCO e ao mundo tecnológico. O movimento merece ser observado com precisão: Roma não está pedindo formalmente poder sobre governos. Está defendendo algo mais fundamental — que a religião não seja confinada à vida privada e que sua visão moral participe da construção das respostas públicas para as grandes crises do nosso tempo. OSV News - We've got the Church covered
A escolha da França torna a mensagem particularmente significativa. Leão XIV iniciou em 25 de setembro a primeira visita papal ao país em 18 anos, recebido por Emmanuel Macron e com uma agenda que reúne Palácio do Eliseu, UNESCO, Notre-Dame, Lourdes e, ao final, Metz. Paz, inteligência artificial, dignidade humana e futuro da Europa estão entre os temas centrais. Não se trata, portanto, apenas de uma peregrinação religiosa. É também uma viagem diplomática a uma das principais potências políticas da União Europeia e a uma das sociedades que mais claramente institucionalizaram a separação entre religião e Estado. Reuters Connect
Foi justamente nesse ambiente que o papa enfrentou diretamente a questão da presença religiosa na sociedade. Segundo o relato da Catholic News Service, Leão argumentou que uma sociedade secular não precisa expulsar a contribuição da fé do espaço público. A distinção é importante: ele não propôs a substituição do Estado secular por um Estado confessional. Sua argumentação é que convicções religiosas podem contribuir para o debate sobre o bem comum, dignidade, solidariedade e limites éticos das decisões políticas. OSV News - We've got the Church covered
É nesse ponto que a notícia deixa de ser apenas francesa.
Horas depois, Leão XIV entrou na sede da UNESCO, uma agência das Nações Unidas formada por Estados e dedicada a educação, ciência e cultura. Ali, seu discurso percorreu exatamente os assuntos que estão se tornando centrais para a governança internacional: inteligência artificial, educação, tecnologia, verdade, paz e dignidade humana. Ao advertir contra uma espécie de “paraíso de máquinas”, o papa sustentou que o progresso tecnológico não pode definir sozinho o futuro da humanidade e defendeu discernimento ético para orientar seu desenvolvimento. Vatican News
O detalhe mais importante talvez esteja na arquitetura do movimento. Roma não precisa apresentar um programa explicitamente religioso para participar da discussão sobre o futuro da sociedade. Ela entra pela ética da inteligência artificial, pela dignidade humana, pela paz, pela educação, pelo trabalho, pela ecologia e pelo bem comum. São problemas reais, muitos deles urgentes, para os quais governos reconhecidamente ainda procuram respostas.
E Leão XIV está construindo uma linha bastante coerente nesse terreno. Dias antes da viagem, pediu que sistemas de inteligência artificial fossem desenvolvidos de maneira a favorecer unidade e paz, e não divisão. A Reuters registra que o pontífice vem defendendo também formas internacionais de regulação da IA. Na própria preparação da visita à França, o Vaticano apresentou como temas centrais não apenas vida e paz, mas os desafios da inteligência artificial e a própria identidade europeia. Reuters
Quando colocamos esse episódio ao lado de outros movimentos recentes que temos acompanhado, aparece uma sequência que merece atenção sem necessidade de exagerá-la: doutrina social aplicada às decisões econômicas e políticas; diálogo com empresas, instituições e organismos internacionais; preocupação com inteligência artificial; ecologia; trabalho; defesa do descanso; formação para a vida pública; e agora, no coração da França secular, a defesa explícita de que a fé tenha voz no espaço público.
Nenhum desses elementos constitui, isoladamente, aquilo que Apocalipse 13 descreve.
Mas a leitura historicista nunca dependeu da ideia de que o conflito final começaria com alguém anunciando abertamente uma perseguição religiosa. O texto apresenta uma convergência progressiva entre autoridade religiosa, poder civil e mecanismos sociais e econômicos, culminando somente depois numa questão de adoração e obediência. Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja se o discurso de Leão XIV na França “cumpre a profecia”. Claramente não há base factual para afirmar isso. A pergunta é se estamos assistindo à reconstrução das condições culturais pelas quais a religião pode voltar a ser considerada uma voz legítima na organização da sociedade.
E aqui existe uma ironia histórica difícil de ignorar.
Durante grande parte da modernidade ocidental, a trajetória parecia seguir no sentido contrário. A religião recuava institucionalmente enquanto o Estado secular, a ciência e a tecnologia avançavam. Agora, precisamente quando a tecnologia se torna poderosa demais para que a tecnologia responda às próprias perguntas, retorna a questão moral: quem decidirá os limites?
Um algoritmo pode otimizar uma decisão, mas não consegue estabelecer por si mesmo o que é dignidade. A inteligência artificial pode aumentar produtividade, mas não determinar quanto trabalho é humanamente desejável. A economia pode calcular o custo de interromper a produção, mas não decidir se existe um bem social superior ao consumo permanente. A ciência pode medir alterações climáticas, mas não determinar sozinha quais sacrifícios uma sociedade deve considerar moralmente obrigatórios.
Esses vazios exigem valores.
E quem oferece uma visão moral articulada, internacional, institucionalizada e capaz de conversar simultaneamente com governos, universidades, empresas, trabalhadores e organismos multilaterais ganha relevância quando o mundo começa a procurar esses valores.
É aqui que a recente discussão sobre o “princípio do sábado” ganha outra dimensão. Como vimos, um documento teológico autorizado no pontificado de Leão XIV recuperou a ideia de que a própria Terra necessita de descanso periódico. Isso não equivale a propor legislação dominical. Mas a tradição social católica possui há muito uma tradução concreta para o princípio bíblico do descanso semanal: o domingo. Se algum dia questões ambientais, laborais, familiares e espirituais convergirem numa discussão pública sobre um período comum de repouso, Roma não precisará inventar uma doutrina nova. A estrutura conceitual já existe.
O mesmo vale para a política. A Igreja não precisa governar diretamente o Estado para influenciar aquilo que o Estado considera moralmente desejável. Sua força histórica sempre foi maior quando conseguiu apresentar determinados valores religiosos como valores universais capazes de organizar a sociedade.
É por isso que a França importa.
Não porque Macron tenha entregado poder político ao Vaticano — não entregou. Não porque a UNESCO esteja se tornando uma instituição religiosa — não está. E não porque Leão XIV tenha apresentado qualquer projeto para impor observância religiosa — não apresentou.
A importância está no movimento mais profundo: num momento de crises tecnológicas, ambientais, militares e sociais, a religião está sendo novamente apresentada não apenas como assunto da consciência individual, mas como participante da construção da ordem pública.
Apocalipse 13 descreve um estágio muito posterior e muito mais grave, quando persuasão se transforma em coerção e autoridade religiosa encontra força política suficiente para alcançar inclusive a vida econômica. Ainda estamos muito longe dessa descrição nos fatos aqui analisados. Mas quem observa a profecia historicamente não acompanha apenas o momento final. Observa também as condições que tornam determinados acontecimentos concebíveis.
Talvez uma das mudanças mais importantes do nosso tempo esteja acontecendo exatamente aí: depois de décadas perguntando como manter a religião fora da política, uma sociedade assustada com aquilo que criou começa novamente a perguntar que autoridade moral poderá ajudá-la a decidir seus limites.
E Roma está dizendo que tem algo a oferecer.
