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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A ECOLOGIA ENCONTRA O DESCANSO (2026.09.01)

Leão XIV amplia o chamado da Igreja para participar das grandes questões do mundo. Meio ambiente, família, trabalho e repouso começam a aparecer dentro de uma mesma visão social — e existe uma razão bíblica para observar atentamente essa convergência.

Em apenas dois dias, duas manifestações de Leão XIV ofereceram uma imagem particularmente clara do lugar que a Igreja Católica pretende ocupar diante das transformações do nosso tempo. Em 1º de setembro, celebrando o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, o Papa falou da necessidade de uma “autêntica conversão ecológica”, apresentou a preservação da criação como responsabilidade pessoal e coletiva e convidou os fiéis a interromperem por alguns momentos a agitação das atividades cotidianas para recuperar a contemplação daquilo que Deus criou. No dia seguinte, ao iniciar uma série de catequeses sobre a constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, ampliou consideravelmente o horizonte: diante das mudanças rápidas e profundas do mundo contemporâneo, afirmou que a Igreja não pode permanecer como espectadora desinteressada, mas deve escutar, envolver-se e interpretar os “sinais dos tempos” à luz do Evangelho. Entre as contradições que enumerou estavam justamente o futuro do planeta, o consumo egoísta, a desigualdade produzida em meio à abundância, o avanço tecnológico e a incapacidade humana de transformar progresso em verdadeiro bem comum.

Tomadas isoladamente, essas declarações poderiam ser compreendidas simplesmente como mais uma expressão da doutrina social católica contemporânea. Inseridas, porém, na trajetória construída ao longo dos últimos anos e observadas à luz dos documentos que continuam orientando essa agenda, elas revelam algo mais amplo. A questão ecológica deixou de ser apresentada apenas como problema científico ou administrativo e passou a integrar uma visão moral da sociedade na qual ambiente, pobreza, consumo, trabalho, tecnologia, família e espiritualidade pertencem a uma mesma crise. Um documento divulgado pelo Vaticano nesta semana chegou a definir o cuidado da criação como questão teológica, sustentando que a maneira como o ser humano se relaciona com o mundo criado revela também sua relação com Deus. Na mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a degradação ambiental é igualmente relacionada a uma crise ética e cultural e, finalmente, ao próprio coração humano. A solução proposta, portanto, não pode permanecer apenas tecnológica: requer mudança de valores, de comportamentos e da organização da vida coletiva.

É precisamente nesse ponto que surge uma conexão que merece atenção especial. Quando a discussão ambiental deixa de perguntar somente quanto carbono emitimos e começa a perguntar como trabalhamos, quanto consumimos, quanto produzimos e de que maneira organizamos nosso tempo, a ideia de descanso entra naturalmente na equação. E, dentro da tradição social católica que Leão XIV herdou e explicitamente continua desenvolvendo, esse caminho já possui uma formulação religiosa concreta. A Laudato si’ não termina sua reflexão ecológica apenas falando de energia, água, biodiversidade ou mudança climática. Em seu número 237, depois de desenvolver o conceito de ecologia integral, Francisco apresenta o domingo como um dia destinado à recuperação das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo, relacionando o repouso semanal ao cuidado da natureza e dos pobres. O texto faz inclusive uma analogia com o sábado bíblico, embora transfira o centro religioso dessa experiência para a Eucaristia dominical.

Esse detalhe é especialmente relevante porque a discussão não permaneceu confinada ao documento de 2015. Em sua encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio deste ano, Leão XIV construiu outra ponte, desta vez entre transformação econômica, trabalho e família. O Papa descreve a família como um bem social primário que necessita de proteção cultural, jurídica e econômica e sustenta que as mudanças tecnológicas e laborais podem fragilizá-la profundamente. Ao avançar para as respostas necessárias, pede políticas capazes de produzir estabilidade, combater a precariedade e garantir ritmos humanos de vida, advertindo que, sem equilíbrio entre trabalho e descanso, a própria família se enfraquece. Não há, nesse trecho, proposta de legislação dominical. É importante afirmá-lo claramente. Há, entretanto, uma construção conceitual significativa: o repouso deixa de aparecer apenas como preferência individual e passa a ser tratado como componente do bem social que pode demandar respostas econômicas e políticas.

Assim, três linhas que poderiam parecer independentes começam a aproximar-se. A primeira afirma que a crise ambiental exige transformação de hábitos e uma conversão que ultrapassa soluções meramente técnicas. A segunda reconhece o descanso como elemento necessário à dignidade humana, à saúde das relações e à proteção da família. A terceira, estabelecida claramente na Laudato si’, oferece ao repouso uma expressão religiosa específica ao apresentar o domingo como espaço de restauração das relações com Deus, com o próximo e com a criação. Nenhuma dessas afirmações, separadamente ou em conjunto, autoriza dizer que o Vaticano esteja hoje preparando uma lei dominical mundial. Fazer essa afirmação seria ultrapassar as evidências. O que existe, e isso é suficientemente importante para ser observado, é uma arquitetura de ideias dentro da qual ecologia, bem comum, família, trabalho, repouso e domingo já conseguem conversar entre si sem parecer pertencer a assuntos diferentes.

Para quem conhece a profecia bíblica, essa aproximação merece atenção por uma razão que vai muito além da política ambiental. O quarto mandamento não apresenta o sábado como detalhe litúrgico. Ele estabelece uma relação entre adoração, criação, trabalho e descanso: “Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou” (Êxodo 20:11). Antes de existir qualquer discussão contemporânea sobre sustentabilidade, a Escritura já colocava limites à atividade econômica humana e estabelecia um ciclo no qual produzir não poderia ocupar todos os dias, nem o trabalhador, o estrangeiro e até os animais poderiam ser submetidos indefinidamente à lógica da produção. O sábado bíblico possui, portanto, uma dimensão espiritual, social e até ambiental extraordinariamente profunda. Seu fundamento, porém, permanece inseparável de um elemento específico: é o sétimo dia estabelecido pelo Criador.

É justamente aí que aparece a tensão profética. A tradição católica reconhece muitos dos valores inerentes ao princípio bíblico do repouso semanal, mas os reorganiza em torno do domingo. A própria Laudato si’ torna essa operação explícita quando compara o domingo ao sábado judaico e atribui ao primeiro a função de restaurar relações e estimular o cuidado da criação. Do ponto de vista historicista, isso não é um detalhe secundário, porque a profecia de Daniel descreve um poder religioso que atuaria precisamente no terreno dos “tempos e da lei” (Daniel 7:25), enquanto Apocalipse 13 desloca a crise final para a relação entre adoração, autoridade e coerção. O conflito apresentado nesses textos não nasce essencialmente de uma disputa ambiental, econômica ou trabalhista. Ele alcança a questão fundamental de quem possui autoridade sobre a consciência e sobre a adoração.

Por isso, seria um erro procurar nas declarações desta semana aquilo que elas não dizem. Leão XIV não anunciou uma lei dominical ecológica. Não apresentou um programa mundial de fechamento do comércio aos domingos. Não afirmou que a proteção da família dependerá da imposição religiosa de determinado dia. O valor profético dos acontecimentos não está em fabricar uma manchete que ainda não existe, mas em perceber como categorias anteriormente separadas podem tornar-se progressivamente compatíveis dentro do discurso público. Uma sociedade preocupada com exaustão profissional pode defender descanso. Uma sociedade preocupada com a desintegração familiar pode desejar tempo comum para pais e filhos. Uma sociedade preocupada com consumo excessivo pode enxergar valor em interrupções periódicas da atividade econômica. Uma sociedade preocupada com a crise ambiental pode considerar desejável reduzir determinados ritmos de produção e consumo. E uma tradição religiosa pode oferecer a essas preocupações uma linguagem espiritual capaz de reuni-las em torno de um dia comum.

Nada disso é, em si mesmo, necessariamente perverso. Famílias precisam de tempo. Trabalhadores precisam de descanso. A exploração econômica merece limites. A criação não deve ser tratada como recurso infinito. Há uma beleza genuinamente bíblica em interromper a obsessão produtiva e reconhecer que o homem não existe apenas para trabalhar, comprar e consumir. O discernimento profético começa justamente quando conseguimos reconhecer o valor de uma causa sem concluir que todo instrumento apresentado para promovê-la possui automaticamente a mesma legitimidade. As grandes questões da consciência raramente chegam à história anunciando-se como perseguição. Elas podem surgir acompanhadas de argumentos socialmente atraentes, necessidades reais e objetivos que grande parte da população considera desejáveis.

Esse ponto se torna ainda mais relevante diante da orientação assumida por Leão XIV em 2 de setembro. Ao dizer que a Igreja deve abandonar a passividade diante da história e envolver-se nas grandes questões humanas, o Papa reafirma uma compreensão de missão que ultrapassa a esfera privada da fé. A religião é chamada a participar da interpretação dos problemas da sociedade e a contribuir para suas respostas. Isso, por si só, não representa qualquer cumprimento profético; igrejas sempre participaram da vida social, e seria artificial transformar toda presença religiosa no espaço público em ameaça. A questão que Apocalipse nos ensina a observar é outra: o que acontece quando autoridade religiosa, consenso social e poder civil convergem em torno de matérias que alcançam a consciência? É nesse estágio, e não simplesmente na existência de uma agenda ecológica ou familiar, que o tema assume sua verdadeira dimensão profética.

Talvez por isso a questão do descanso seja tão fascinante para nosso tempo. Ela pode reunir interesses que normalmente estão separados. Ambientalistas podem enxergar redução do consumo; trabalhadores, proteção contra jornadas invasivas; famílias, recuperação de convivência; religiosos, restauração espiritual; governos, uma política social facilmente compreensível. O ponto de encontro entre essas motivações pode parecer inteiramente natural. A profecia, entretanto, convida o cristão a fazer uma pergunta adicional: se um princípio religioso vier algum dia revestido simultaneamente de argumentos ambientais, familiares, econômicos e sociais, continuaremos capazes de distinguir aquilo que é bom em seus objetivos daquilo que pode ser problemático em sua relação com a autoridade de Deus?

A Bíblia apresenta o conflito final não como uma batalha entre pessoas que desejam destruir o planeta e pessoas que pretendem salvá-lo, nem como uma disputa entre quem ama ou despreza a família. O cenário é muito mais profundo. Apocalipse descreve uma humanidade confrontada com uma questão de adoração justamente quando estruturas religiosas e políticas alcançam extraordinária capacidade de influência sobre a vida econômica e social. Isso significa que o cristão não precisa temer a ecologia, rejeitar políticas familiares ou desconfiar automaticamente de qualquer defesa do repouso. Precisa conhecer suficientemente as Escrituras para reconhecer a fronteira entre princípios legítimos de bem comum e a transferência daquilo que pertence à consciência para a esfera da coerção.

Os pronunciamentos de Leão XIV desta semana não nos permitem dizer que essa fronteira tenha sido atravessada. Permitem, contudo, observar algo importante sobre a direção do debate. Ecologia já não é somente ecologia. Trabalho já não é somente economia. Família já não é somente assunto privado. Descanso pode ser apresentado como questão de dignidade e organização social, enquanto a tradição católica já possui uma teologia que relaciona explicitamente domingo, repouso, criação e cuidado dos pobres. As peças não formam automaticamente o cenário profético, mas pertencem a categorias que a própria profecia nos ensinou a observar.

É por isso que vigilância bíblica não significa viver esperando uma declaração espetacular do Vaticano que finalmente confirme tudo. Talvez uma das maiores tentações seja justamente esperar o acontecimento final enquanto deixamos de perceber as mudanças culturais que tornam determinados acontecimentos possíveis. Sistemas de pensamento amadurecem antes das leis. Valores tornam-se consensos antes de se transformarem em políticas. E aquilo que um dia pareceria uma interferência intolerável na liberdade pode, depois de crises suficientes, apresentar-se à sociedade como proteção necessária do planeta, do trabalhador, da família ou do próprio bem comum.

Não precisamos prever quando isso acontecerá, nem afirmar que acontecerá exatamente pelo caminho que hoje conseguimos imaginar. A profecia não nos autorizou a construir calendários sobre aquilo que Deus não revelou. Ela nos deu princípios para reconhecer o caráter das forças em movimento.

Enquanto o mundo discute como salvar a criação, proteger a família e recuperar ritmos mais humanos de vida, a pergunta do cristão permanece silenciosa, mas decisiva: quando chegarmos ao ponto em que descanso, religião e poder público se encontrarem, quem determinará o dia — a conveniência da sociedade, a tradição religiosa ou a Palavra de Deus?

É nesse ponto que a ecologia deixa de ser apenas uma questão sobre o planeta.

E se torna também uma questão de consciência.

domingo, 30 de agosto de 2026

Leão XIV, Bill Gates, Sam Altman e a nova linguagem do medo (2026.08.28)

Quando o papa americano, os principais líderes da tecnologia, bilionários e grandes potências começam a falar da mesma ameaça, talvez a questão mais importante não seja descobrir uma conspiração, mas compreender que tipo de arquitetura pode estar sendo construída a partir dessa convergência

Há uma mudança de linguagem acontecendo diante de nós, e talvez ainda não tenhamos percebido toda a sua importância. Durante anos, a inteligência artificial foi apresentada quase sempre como promessa: produtividade, medicina, automação, descoberta científica, personalização, velocidade, eficiência. Os riscos existiam, evidentemente, mas ocupavam uma posição secundária diante do entusiasmo. Em 2026, porém, essa narrativa começou a mudar de maneira muito mais visível. A IA deixou de ser apenas uma ferramenta revolucionária e passou a ser descrita por algumas das figuras mais influentes do planeta como um problema potencialmente civilizacional, capaz de afetar empregos, segurança, guerra, biologia, informação, economia, liberdade e até a própria definição do que significa permanecer humano numa sociedade profundamente automatizada. O aspecto mais interessante dessa mudança não está no fato de uma ou outra pessoa ter demonstrado preocupação, mas na sucessão das vozes que passaram a dizer coisas semelhantes e no peso político, econômico, tecnológico e religioso que essas vozes carregam.

Nesse circuito contemporâneo, um personagem merece ser colocado no início da sequência: Leão XIV. O primeiro papa norte-americano não tratou a inteligência artificial como um detalhe periférico do pontificado. Ao contrário, colocou o tema no centro de uma reflexão sobre poder, dignidade humana, trabalho, moralidade e concentração tecnológica. Em maio de 2026, o Vaticano criou uma comissão específica para tratar de inteligência artificial e Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanitas, na qual advertiu que tecnologias dessa magnitude podem ampliar o poder justamente daqueles que já possuem recursos, dados, infraestrutura e influência, permitindo que pequenos grupos condicionem processos sociais, econômicos e políticos de maneiras difíceis de perceber. O papa chamou atenção para uma questão particularmente relevante: sistemas artificiais não são moralmente neutros, porque refletem escolhas, valores e critérios daqueles que os constroem, treinam e controlam. Quando uma sociedade transfere cada vez mais decisões para sistemas dessa natureza, não está apenas entregando tarefas a máquinas; está permitindo que determinadas concepções de mundo sejam incorporadas à infraestrutura que organizará a vida cotidiana.

Pouco depois, o mesmo universo de preocupações apareceu com força crescente entre alguns dos homens mais poderosos da tecnologia. Bill Gates passou a falar abertamente sobre riscos de bioterrorismo, ataques cibernéticos, substituição de empregos e dependência psicológica, defendendo inclusive mecanismos internacionais de supervisão e manifestando intenção de discutir o assunto diretamente com Xi Jinping. Sam Altman, por sua vez, há muito adverte que sistemas futuros poderão adquirir capacidades extraordinárias e reconhece o risco de que a resposta social ao medo da IA termine concentrando poder em poucas empresas ou poucas instituições. Dario Amodei, da Anthropic, Demis Hassabis, da DeepMind, e outros dirigentes do setor também passaram a empregar uma linguagem mais grave, enquanto governos, empresas e organizações internacionais aceleram discussões sobre padrões de segurança, certificação, avaliação de risco e governança global.

É justamente essa sequência que merece atenção. Não porque demonstre que exista um roteiro secreto compartilhado entre o Vaticano, Gates, Altman, Xi e as grandes empresas de tecnologia. Não existe evidência que permita afirmar isso. Mas a ausência de uma conspiração formal não elimina a possibilidade de uma convergência estrutural. Na verdade, pode ser exatamente o contrário: grandes mudanças históricas frequentemente não surgem porque meia dúzia de pessoas se reúne numa sala para desenhar tudo previamente, mas porque grupos distintos começam a perceber o mesmo problema, aproximam-se de soluções parecidas e descobrem que seus interesses, embora diferentes, podem ser atendidos dentro de uma mesma arquitetura. O Vaticano deseja proteger dignidade, trabalho e liberdade diante de sistemas cada vez mais poderosos; Gates teme riscos catastróficos e busca coordenação internacional; Altman precisa demonstrar que a tecnologia pode avançar sem escapar ao controle; governos pensam em segurança nacional, ciberataques e competição estratégica; empresas querem previsibilidade regulatória; a China deseja participar da definição das regras do futuro em vez de simplesmente aceitar regras produzidas pelo Ocidente. Ninguém precisa desejar exatamente a mesma coisa para que todos acabem contribuindo para a construção de um mesmo sistema.

Talvez essa seja a forma mais realista de compreender o que chamamos de “ajuste de bastidores”. Não necessariamente um acordo secreto, mas um processo de alinhamento progressivo entre atores muito poderosos, todos convencidos de que a inteligência artificial exige mecanismos excepcionais de governança. Quando o diagnóstico se torna comum, a discussão muda naturalmente para a solução. Quem poderá desenvolver determinados modelos? Quais capacidades serão consideradas perigosas? Quem terá autoridade para interromper um sistema? Como identificar agentes artificiais? Como fiscalizar centros de dados? Como restringir o uso de chips avançados? Como impedir que determinadas ferramentas sejam utilizadas para produzir agentes biológicos, invadir infraestruturas ou automatizar ataques? Como estabelecer padrões morais e técnicos que atravessem fronteiras nacionais? A partir desse ponto, surge inevitavelmente a necessidade de instituições, certificações, auditorias, registros, sistemas de identificação e mecanismos de controle. Cada peça pode ser justificada por uma ameaça real e cada medida pode parecer razoável quando analisada isoladamente. O problema aparece quando observamos o conjunto.

Esse talvez seja o ponto mais sensível de toda a discussão. O medo possui uma enorme capacidade de reorganizar a política. Populações normalmente resistem à concentração de poder quando se sentem seguras, mas aceitam medidas excepcionais quando acreditam que existe uma ameaça capaz de atingir suas famílias, seus empregos, suas economias ou sua própria sobrevivência. A inteligência artificial reúne praticamente todas essas possibilidades numa única narrativa: desemprego estrutural, manipulação política, colapso informacional, ataques cibernéticos, armas autônomas, fraudes em escala industrial, criação de agentes biológicos, dependência psicológica e perda de controle sobre sistemas mais inteligentes do que seus operadores. Alguns desses riscos são perfeitamente reais e merecem ser tratados com seriedade. É justamente por isso que a resposta política poderá receber apoio social tão amplo. A questão não é negar o perigo, mas perguntar quanto poder será considerado aceitável entregar àqueles que prometerem administrá-lo.

Leão XIV parece compreender parte desse paradoxo quando adverte contra a concentração tecnológica nas mãos de poucos. O problema é que a solução para impedir uma concentração privada pode produzir uma concentração regulatória ainda maior. Se apenas algumas empresas forem consideradas suficientemente seguras para desenvolver modelos de fronteira, essas mesmas empresas poderão consolidar uma posição quase impossível de desafiar. Se somente algumas instituições internacionais tiverem autoridade para certificar tecnologias, elas poderão adquirir influência extraordinária sobre inovação, informação e economia. Se governos exigirem sistemas de identificação e rastreamento para impedir usos perigosos, poderão criar uma infraestrutura técnica que depois servirá a finalidades muito mais amplas. Se Estados Unidos e China concluírem que determinadas capacidades precisam ser controladas conjuntamente, poderemos assistir ao surgimento de padrões globais capazes de atravessar sistemas políticos completamente diferentes. Nada disso precisa ser construído com intenções malignas para produzir consequências profundas.

É por isso que a presença da China nessa discussão é especialmente importante. Bill Gates falar em levar suas propostas diretamente a Xi Jinping mostra que qualquer arquitetura realmente global de governança da IA dependerá, em algum momento, de algum nível de entendimento entre Washington e Pequim. A China já propõe estruturas internacionais de cooperação e governança e possui uma capacidade tecnológica suficientemente grande para tornar ineficaz qualquer sistema do qual permaneça completamente excluída. Ao mesmo tempo, é um Estado de partido único, com um histórico de vigilância, controle informacional e intervenção governamental que difere profundamente das tradições liberais ocidentais. Isso cria uma contradição difícil de ignorar: para controlar uma tecnologia que pode ameaçar a liberdade, talvez o Ocidente precise negociar os parâmetros de controle com um regime que possui uma concepção muito mais ampla de autoridade estatal sobre o indivíduo.

O fato de o atual papa ser norte-americano acrescenta uma dimensão histórica particularmente interessante a essa configuração. Leão XIV não representa o governo dos Estados Unidos, e o Vaticano é uma instituição independente, mas não deixa de ser incomum que o primeiro papa americano esteja colocando a inteligência artificial no centro de sua agenda justamente quando as empresas que lideram a revolução tecnológica também são majoritariamente americanas. OpenAI, Google, Anthropic, Microsoft, Meta, Nvidia e grande parte da infraestrutura crítica da IA estão vinculadas ao ecossistema tecnológico dos Estados Unidos. Gates é americano. Altman é americano. Os chips mais avançados do mundo dependem de cadeias industriais fortemente condicionadas pela política tecnológica americana. E agora a maior liderança religiosa cristã do planeta também emerge do mesmo espaço cultural e nacional. Isso não prova coordenação, mas cria uma concentração histórica incomum de influência tecnológica, econômica, geopolítica e religiosa dentro de uma mesma matriz ocidental.

Para quem acompanha a leitura historicista adventista de Apocalipse 13, esse cenário naturalmente merece atenção, embora seja necessário evitar qualquer simplificação. A inteligência artificial não é a marca da besta, Bill Gates não é um personagem identificado pela profecia, Sam Altman não ocupa um papel bíblico específico e Leão XIV não deve ser transformado arbitrariamente em símbolo apenas porque é papa. A profecia fala de sistemas de poder, alianças, coerção, economia e adoração, não de tecnologias determinadas pelo nome. Entretanto, seria difícil negar que nossa geração está construindo uma infraestrutura que torna tecnicamente compreensíveis formas de controle que, durante séculos, pareciam quase impossíveis. Identificação digital, reconhecimento facial, análise comportamental, bancos de dados integrados, moedas digitais, sistemas de inteligência artificial, monitoramento em tempo real e redes financeiras capazes de excluir indivíduos ou países já existem ou estão em desenvolvimento. A profecia não exige que esses instrumentos sejam utilizados no desfecho final, mas o mundo moderno demonstra que a capacidade técnica para coordenação em escala global está se tornando cada vez menos abstrata.

Talvez seja esse o ponto em que a sequência Leão XIV, Gates, Altman, outros líderes tecnológicos, China e organismos internacionais se torna realmente importante. Não porque prove uma agenda secreta, mas porque revela uma mudança no centro da conversa mundial. A discussão já não é apenas sobre o que a inteligência artificial consegue fazer. É sobre quem terá autoridade para definir seus limites. E quando diferentes centros de poder começam a concordar que uma tecnologia precisa ser controlada, surge naturalmente uma segunda camada de poder: aquela exercida por quem controla os controladores. Essa camada pode incluir governos, empresas, organizações internacionais, especialistas, líderes religiosos e instituições multilaterais, cada qual oferecendo uma justificativa específica para sua participação. O Vaticano oferece legitimidade moral e uma linguagem de dignidade humana; as empresas oferecem conhecimento técnico; os governos oferecem poder jurídico; bilionários oferecem influência e acesso; a China oferece alcance geopolítico; organismos internacionais oferecem estruturas de coordenação. Nenhum desses atores precisa comandar todo o processo para que, ao final, exista uma arquitetura extremamente poderosa.

A história mostra que sistemas assim frequentemente nascem dessa maneira. Uma crise cria a necessidade de uma solução. A solução exige coordenação. A coordenação cria instituições. As instituições acumulam competências. Essas competências passam a ser consideradas normais. O que começou como resposta a um risco específico torna-se infraestrutura permanente. Não é necessário supor que alguém tenha planejado todas as etapas desde o início. Basta que cada nova etapa pareça razoável diante da anterior.

É exatamente por isso que o cristão deveria observar essa convergência com discernimento e sem paranoia. O perigo não está em acreditar que todos estejam secretamente combinados, mas em não perceber que interesses diferentes podem produzir juntos uma estrutura que nenhum deles conseguiria criar sozinho. Gates pode estar sinceramente preocupado com bioterrorismo. Altman pode estar genuinamente alarmado com sistemas futuros. Leão XIV pode estar sinceramente defendendo a dignidade humana. Governos podem estar tentando evitar ataques cibernéticos. A China pode estar procurando previsibilidade estratégica. Todas essas motivações podem ser verdadeiras e ainda assim contribuir para a construção de uma arquitetura altamente concentradora.

Talvez, portanto, a pergunta mais relevante não seja quem começou a falar de medo ou quem repetiu a preocupação de quem. O papa americano, os bilionários, os criadores da tecnologia e as grandes potências já estão inseridos na mesma discussão. O que devemos observar agora é o processo pelo qual esse diagnóstico comum será convertido em instituições, normas, sistemas de identificação, critérios de autorização e mecanismos de fiscalização. Porque talvez o aspecto profeticamente mais significativo não esteja na inteligência artificial em si, mas naquilo que a humanidade aceitará construir para administrá-la.

A ameaça pode ser real. As intenções podem ser sinceras. As soluções podem parecer necessárias. E ainda assim o resultado pode concentrar poder em níveis jamais vistos.

Por isso a pergunta decisiva talvez não seja simplesmente quem controlará a inteligência artificial. Talvez seja outra, muito mais profunda: quem controlará a estrutura criada para controlá-la?

sábado, 11 de julho de 2026

O Mundo Procura uma Voz Moral para a Inteligência Artificial (2026.07.11)

Durante muito tempo, as grandes decisões sobre o futuro da humanidade pareciam pertencer exclusivamente aos governos, às universidades e aos centros de pesquisa. Era nesses ambientes que se discutiam economia, ciência, tecnologia e os rumos da civilização. Nos últimos anos, porém, um fenômeno curioso passou a se tornar cada vez mais evidente: sempre que surge um tema capaz de transformar profundamente a vida humana, o mundo parece fazer questão de ouvir também a opinião do Vaticano.

Foi exatamente isso que aconteceu no AI for Good Global Summit, o principal encontro mundial sobre inteligência artificial promovido pelas Nações Unidas, em Genebra. Ao lado de presidentes de bancos centrais, ministros, pesquisadores, executivos das maiores empresas de tecnologia e especialistas em inteligência artificial, também havia espaço para uma mensagem oficial do Papa Leão XIV. Sua participação não foi protocolar nem meramente simbólica. O convite partiu dos próprios organizadores do evento e refletiu algo que vem se tornando cada vez mais frequente: a percepção de que as grandes transformações tecnológicas exigem não apenas conhecimento científico, mas também orientação ética e moral.

Em sua mensagem, o pontífice afirmou que a inteligência artificial levanta "algumas das maiores questões do nosso tempo sobre o futuro da humanidade". Disse que a Igreja deseja participar desse diálogo para ajudar a encontrar "novos caminhos para o bem comum" e explicou que sua recente encíclica, Magnifica Humanitas, nasceu justamente da escuta de cientistas, engenheiros, governantes, educadores e famílias preocupadas com o impacto que essa tecnologia poderá produzir sobre as próximas gerações. Ao mesmo tempo, alertou para os riscos decorrentes do uso inadequado dos algoritmos e para a possibilidade de que decisões fundamentais da vida humana sejam progressivamente transferidas para sistemas automatizados.

As palavras do papa receberam ampla acolhida. Não porque todos concordassem integralmente com suas conclusões, mas porque praticamente ninguém questionou seu lugar naquela discussão. Governos, pesquisadores e organismos internacionais trataram sua participação como algo natural. Em outras palavras, quando o mundo se reúne para discutir uma das tecnologias mais revolucionárias da história, considera legítimo reservar um espaço para que o líder da Igreja Católica contribua para o debate.

Esse detalhe talvez seja mais significativo do que o próprio conteúdo da mensagem.

Afinal, estamos falando do menor Estado soberano do planeta. O Vaticano não desenvolve modelos de inteligência artificial. Não fabrica semicondutores. Não possui centros de dados comparáveis aos das grandes empresas de tecnologia. Não lidera pesquisas em computação nem controla gigantes do setor digital. Ainda assim, quando o futuro da inteligência artificial entra na pauta mundial, sua voz é considerada relevante.

Esse fenômeno merece uma reflexão.

Vivemos em uma época que costuma medir influência pelo tamanho da economia, pela capacidade militar ou pelo domínio tecnológico. Sob esse critério, seria natural esperar que os protagonistas da discussão fossem exclusivamente Estados Unidos, China, União Europeia e as grandes empresas do setor. Entretanto, o que vemos é algo diferente. Em praticamente todos os grandes debates globais — mudanças climáticas, imigração, guerra, pobreza, bioética e agora inteligência artificial — o Vaticano ocupa um lugar que vai muito além de seu tamanho territorial.

Não se trata apenas de prestígio religioso.

Trata-se de autoridade moral.

Ao longo das últimas décadas, a Santa Sé construiu uma presença constante nos principais fóruns internacionais. O papa passou a ser ouvido não apenas como líder espiritual de mais de um bilhão de católicos, mas como interlocutor em temas que envolvem toda a humanidade. Essa transformação ocorreu de forma gradual. Hoje parece natural, mas poucas décadas atrás dificilmente alguém imaginaria que um encontro organizado pelas Nações Unidas sobre inteligência artificial reservaria espaço para uma mensagem papal como parte oficial de sua programação.

É justamente esse aspecto que chama atenção quando observado sob a perspectiva da profecia bíblica.

A interpretação historicista de Apocalipse nunca sugeriu que a influência do papado seria exercida apenas por meio da religião. Pelo contrário. O texto apresenta um poder cuja capacidade de influência alcança dimensões políticas, econômicas e sociais. Não é um poder baseado em divisões militares nem em riqueza material. É uma autoridade reconhecida por governos, instituições e povos.

Talvez seja exatamente isso que este episódio ilustra.

O mundo vive uma revolução tecnológica sem precedentes. Empresas disputam bilhões de dólares em investimentos. Países competem pela liderança em inteligência artificial. Bancos centrais alertam para profundas transformações econômicas. E, em meio a toda essa corrida tecnológica, surge uma pergunta que ninguém parece conseguir responder apenas com algoritmos: quem estabelecerá os princípios morais que orientarão essa nova era?

É justamente nesse vazio que a voz do Vaticano encontra espaço.

Quanto mais a tecnologia amplia seu poder, maior parece ser a busca por uma referência ética capaz de orientar seu uso. E, gostemos ou não dessa realidade, poucos líderes possuem hoje a projeção internacional do papa para ocupar esse papel.

Naturalmente, isso não significa que toda manifestação do Vaticano represente o cumprimento imediato de uma profecia. A história é muito mais complexa do que interpretações simplistas permitem imaginar. Mas também seria difícil ignorar o movimento que vem ocorrendo diante de nossos olhos. A cada nova crise global, cresce a presença da Santa Sé nos debates internacionais. A cada nova transformação tecnológica, sua opinião é solicitada. A cada novo desafio enfrentado pela humanidade, aumenta o reconhecimento de sua autoridade como voz moral.

Talvez essa seja uma das mudanças mais silenciosas do nosso tempo.

Não estamos assistindo apenas ao avanço da inteligência artificial.

Estamos vendo, paralelamente, a consolidação de uma liderança religiosa como participante permanente das discussões que definirão o futuro da civilização.

A profecia não nos convida a enxergar cada notícia como um cumprimento isolado das Escrituras. Ela nos ensina a observar tendências, perceber trajetórias e compreender como o cenário é preparado ao longo da história.

E, quando um pequeno Estado de apenas quarenta e quatro hectares é ouvido ao lado das maiores potências tecnológicas do planeta para discutir o futuro da humanidade, talvez estejamos diante de uma dessas tendências que merecem ser observadas com muita atenção.

sábado, 30 de maio de 2026

O Vaticano se Aproxima da Inteligência Artificial (2026.05.30)

A maioria das pessoas enxergou a notícia apenas como mais um encontro entre religião e tecnologia. Afinal, em um mundo dominado por algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais, parece natural que líderes religiosos também desejem participar da discussão. Mas talvez estejamos diante de algo muito mais significativo do que um simples debate ético sobre o futuro tecnológico da humanidade.

Nos últimos dias, ganhou destaque a aproximação entre o Vaticano e alguns dos principais desenvolvedores de inteligência artificial do planeta. Representantes de empresas que hoje controlam ferramentas capazes de influenciar informação, comportamento e percepção coletiva participaram diretamente das discussões relacionadas à nova encíclica Magnifica Humanitas. O encontro foi apresentado como uma tentativa de construir princípios morais para orientar o desenvolvimento tecnológico e proteger a dignidade humana diante da revolução digital.

À primeira vista, a proposta parece não apenas legítima, mas necessária.

Quem poderia ser contra limites éticos para tecnologias capazes de manipular imagens, vozes, informações e emoções? Quem seria contra proteger empregos, combater a desinformação e impedir que poucas empresas concentrem poder excessivo sobre bilhões de pessoas?

O problema não está nas preocupações levantadas. O problema está no padrão histórico que começa a surgir.

A profecia bíblica nunca descreveu os acontecimentos finais como uma batalha entre o bem evidente e o mal evidente. Pelo contrário. O Apocalipse apresenta um cenário muito mais sofisticado. Um sistema que surge falando em paz, estabilidade, unidade e proteção da humanidade. Um poder que conquista influência não inicialmente pela força, mas pela autoridade moral. Um sistema que oferece soluções para crises reais e, justamente por isso, conquista a confiança do mundo.

É impossível ler Apocalipse 13 sem perceber que o centro da profecia não é apenas perseguição. É influência.

O texto descreve um poder religioso que exerce enorme autoridade sobre as nações e que atua em conjunto com estruturas políticas e econômicas capazes de alcançar alcance global. Historicamente, dentro da interpretação historicista, identificamos a besta que emerge do mar como o sistema papal ao longo da história. Não se trata de indivíduos específicos, mas de uma estrutura religiosa que exerceu influência extraordinária sobre reis, governos e povos durante séculos.

O que chama atenção hoje é a forma como novos elementos começam a se conectar a esse cenário.

Durante grande parte da história, controlar informação significava controlar livros, universidades, púlpitos ou meios de comunicação tradicionais. Hoje, pela primeira vez, poucas plataformas digitais possuem capacidade de influenciar praticamente toda a humanidade em tempo real. Algoritmos decidem o que bilhões de pessoas veem. Sistemas de inteligência artificial moldam opiniões, filtram conteúdos, sugerem narrativas e, progressivamente, se tornam intermediários entre o indivíduo e sua percepção da realidade.

Nunca houve algo semelhante.

E é justamente nesse momento que surge uma aproximação entre uma das maiores autoridades religiosas do mundo e algumas das estruturas tecnológicas mais influentes da história humana.

Isso não significa que exista uma conspiração secreta acontecendo. A própria profecia não exige esse tipo de leitura simplista. O que ela descreve é algo muito mais plausível e, por isso mesmo, muito mais impressionante: uma convergência gradual de interesses em torno da necessidade de governar um mundo cada vez mais instável.

A humanidade enfrenta crises simultâneas. Crise de verdade. Crise de identidade. Crise de autoridade. Crise econômica. Crise tecnológica. E toda crise produz a mesma pergunta: quem poderá oferecer direção?

Nesse ambiente, cresce a busca por autoridades capazes de restaurar confiança. As empresas tecnológicas oferecem ferramentas. Os governos oferecem regulamentação. As instituições religiosas oferecem legitimidade moral. Separadamente, cada uma possui influência limitada. Juntas, possuem capacidade de moldar o futuro da civilização.

Talvez seja exatamente isso que torne a aproximação atual tão relevante.

A nova encíclica fala repetidamente sobre a necessidade de proteger a humanidade da manipulação, do excesso tecnológico e da lógica desumanizante dos algoritmos. São preocupações legítimas. Mas a solução apresentada aponta para algo igualmente significativo: a necessidade de uma autoridade moral capaz de orientar o desenvolvimento tecnológico global.

E aqui a linguagem do Apocalipse se torna extraordinariamente atual.

A profecia descreve um mundo que, no período final da história, busca unidade. Não porque as pessoas desejam perder liberdade. Mas porque estão cansadas do caos. O mundo procura estabilidade. Procura segurança. Procura verdade em meio à confusão. E justamente nesse ambiente sistemas globais de influência tornam-se não apenas aceitáveis, mas desejáveis.

Quando João descreve que "todas as nações beberam do vinho" desse sistema religioso, a imagem é profundamente simbólica. O vinho representa ensino, influência, cosmovisão. Representa uma forma de enxergar a realidade que se espalha até alcançar alcance global.

Durante séculos, isso acontecia através de estruturas religiosas tradicionais.

Hoje existe uma infraestrutura infinitamente mais poderosa.

Plataformas digitais.
Inteligência artificial.
Algoritmos.
Sistemas globais de informação.

Pela primeira vez na história humana, existe a possibilidade prática de disseminar uma narrativa comum para bilhões de pessoas simultaneamente.

Talvez por isso o encontro entre religião e inteligência artificial seja muito mais significativo do que parece.

Não porque a tecnologia seja má. Não porque discutir ética seja errado. Mas porque a profecia descreve precisamente um período em que influência espiritual, poder institucional e capacidade global de comunicação convergem de maneira sem precedentes.

O mais impressionante é que tudo isso acontece sob bandeiras que parecem nobres: proteção da dignidade humana, combate à desinformação, defesa da verdade e preservação da civilização.

E talvez seja justamente por isso que o discernimento espiritual será tão necessário nos últimos momentos da história.

Porque os maiores enganos nunca se apresentam como engano.

Eles chegam oferecendo exatamente aquilo que um mundo cansado mais deseja receber.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A Encíclica Sobre Inteligência Artificial e o Mundo Que Está Sendo Preparado (2026.05.28)

Existe algo profundamente revelador no fato de uma das maiores autoridades religiosas do planeta decidir dedicar sua primeira grande encíclica à inteligência artificial. Isso não acontece por acaso. E talvez a maior parte das pessoas ainda não tenha percebido a profundidade do que está começando a se formar diante dos nossos olhos.

Durante décadas, o mundo acreditou que a tecnologia seria a grande libertadora da humanidade. Mais velocidade significaria mais progresso. Mais conectividade significaria mais liberdade. Mais automação significaria mais qualidade de vida. Mas lentamente começou a surgir uma sensação estranha de que algo se perdeu no caminho. O homem moderno tornou-se hiperconectado, mas emocionalmente esgotado. Nunca houve tanta informação circulando, e ao mesmo tempo nunca foi tão difícil discernir verdade de manipulação. O avanço tecnológico trouxe conforto, produtividade e eficiência, mas também produziu ansiedade coletiva, dependência digital e uma sociedade incapaz de desacelerar.

Talvez seja exatamente por isso que a nova encíclica papal tenha um tom tão simbólico.

Ao falar sobre inteligência artificial, manipulação digital, concentração de poder tecnológico e perda da dignidade humana, o documento não está apenas discutindo máquinas. Ele está descrevendo uma civilização cansada. Uma humanidade que começa lentamente a perceber que a lógica da produtividade ilimitada, da hiperconectividade permanente e do domínio tecnológico absoluto talvez esteja consumindo aquilo que existe de mais humano dentro do próprio homem.

O texto denuncia a manipulação mediática produzida pelos algoritmos, critica a concentração de dados nas mãos de poucas corporações e alerta para uma mentalidade tecnocrática que passa a enxergar o ser humano como algo a ser otimizado, aperfeiçoado e integrado à máquina. Mas existe uma linha ainda mais profunda atravessando tudo isso: a ideia de que a humanidade precisa recuperar limites.

E talvez seja justamente aqui que a encíclica se torna tão profeticamente significativa.

Porque, historicamente, toda vez que civilizações entram em colapso emocional e moral, surge inevitavelmente o discurso da necessidade de reorganização coletiva da vida humana. O homem moderno começa a perceber que perdeu silêncio, contemplação, descanso e equilíbrio. E quando essa percepção cresce em escala global, o mundo naturalmente começa a procurar soluções capazes de restaurar aquilo que foi destruído pelo excesso de velocidade da própria civilização.

A encíclica parece caminhar exatamente nessa direção.

Embora não proponha diretamente um “dia universal de descanso”, ela constrói silenciosamente toda a estrutura filosófica que pode tornar esse discurso cada vez mais aceitável no futuro. Porque, no fundo, o documento sugere que a humanidade precisa desacelerar para continuar sendo humana.

Esse talvez seja o ponto mais importante de todos.

A inteligência artificial ameaça empregos. Os algoritmos moldam emoções. A hiperconectividade dissolve relações humanas reais. O trabalho invade permanentemente a vida privada. O fluxo digital nunca para. O homem moderno já não consegue descansar nem mentalmente. E diante desse cenário começa a surgir uma pergunta inevitável: como preservar a dignidade humana numa civilização que transformou produtividade em absoluto?

Historicamente, a resposta para crises assim frequentemente aparece através da defesa de ritmos coletivos de reorganização social. Pausa. Contemplação. Limites para o mercado. Tempo protegido da lógica econômica. Recuperação da vida comunitária. Descanso como princípio civilizacional.

E é impossível não perceber como esse raciocínio se aproxima de discursos que já vinham amadurecendo há anos dentro do cenário religioso global, especialmente ligados à ideia de uma reorganização ética da sociedade diante das crises ambiental, econômica e tecnológica.

A Bíblia descreve repetidamente momentos em que sistemas religiosos e políticos passam gradualmente a caminhar juntos sob a justificativa de preservar ordem, estabilidade e bem coletivo. Não de forma inicialmente opressiva. Mas através de soluções consideradas razoáveis, humanas e moralmente necessárias para enfrentar períodos de caos.

Talvez seja exatamente isso que torne este momento tão delicado.

Porque o mundo moderno está emocionalmente preparado para aceitar estruturas cada vez maiores de coordenação moral. As pessoas estão cansadas. Exaustas digitalmente. Psicologicamente fragmentadas. Socialmente aceleradas. E quanto mais cresce essa fadiga coletiva, mais plausível se torna a ideia de que a humanidade precisa de limites universais para sobreviver ao próprio sistema que construiu.

Perceba como os elementos começam lentamente a convergir:
tecnologia fora de controle,
crise de verdade,
manipulação algorítmica,
esgotamento humano,
necessidade de proteção social,
autoridades religiosas oferecendo direção moral,
e o surgimento gradual de uma linguagem global sobre “restaurar a humanidade”.

Dentro da interpretação historicista da profecia bíblica, isso possui enorme peso simbólico. Porque sempre entendemos que os eventos finais não surgiriam primeiro como perseguição explícita, mas como amadurecimento progressivo de consensos morais globais apresentados como soluções legítimas para crises reais da humanidade.

E talvez seja exatamente isso que a Magnifica Humanitas represente.

Não apenas uma encíclica sobre inteligência artificial.

Mas um dos primeiros grandes documentos de uma nova fase histórica, em que tecnologia, espiritualidade, política e reorganização social começam novamente a ocupar o mesmo centro de poder civilizacional.

O mais impressionante talvez seja perceber que tudo isso acontece em nome de algo aparentemente nobre: proteger a dignidade humana.

E é justamente aí que a profecia se torna tão séria.

Porque os maiores movimentos da história raramente começaram apresentando sua face final logo no início. Primeiro surgem como respostas necessárias para um mundo cansado, confuso e desesperado por equilíbrio.

Talvez seja exatamente o ambiente que começa a se formar agora.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

No Dia da Terra, lideranças assinam acordo sobre clima

Nova York (RV) – Neste 22 de abril, em que o mundo comemora o Dia da Terra, mais de 150 países devem assinar o acordo sobre mudanças climáticas alcançado em dezembro do ano passado em Paris, na COP 21.

Jamais, na história da Organização das Nações Unidas, um número tão grande de países (162) assinaram uma convenção internacional no primeiro dia em que fica aberta para assinatura. Em cerimônia oficial na sede da ONU, em Nova York, mais de 60 chefes de Estado e de governo, entre eles a brasileira Dilma Rousseff, estarão presentes.

Entre os signatários estarão algumas das maiores potências industriais do mundo e vários dos principais emissores de gases do efeito estufa, como China, Estados Unidos, Índia, Japão e vários países da União Europeia.

O primeiro pacto universal de combate à mudança climática indica medidas como o compromisso das nações em reduzirem as emissões de gases de efeito estufa e assim, evitar que a temperatura média global suba mais do que 2º C, limitando o aumento a 1,5°C.

Os prejuízos causados pelo aquecimento da Terra são inúmeros. O derretimento das calotas polares causa o avanço do nível do mar, e o número de áreas desertas por causa da falta de chuva e do calor extremo, cresce. Segundo cientistas, o planeta já esquentou 1°C, suficiente para desequilibrar a natureza.

O Dia da Terra, Casa Comum, é uma festa que pertence à humanidade e não é regulada por uma entidade ou organismo, nem está relacionado com reivindicações políticas, nacionais, religiosas ou ideológicas.

No Brasil, o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, parceiro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, atua no desenvolvimento de políticas de proteção ao clima, cobrar a responsabilidade do poder público; aumentar o nível de conhecimento nas organizações e na sociedade sobre as causas das mudanças climáticas, estratégias e abordagens para enfrentá-las.

Fonte - Radio Vaticano

Nota DDP:  As potências seculares vão se alinhando e, embora se afirme que o tema esteja acima de questões religiosas, não se pode perder de vista a pressão que entidades neste segmento têm feito, especialmente a igreja de roma. Nesse sentido a matéria "Dia da Terra segue pegada ecológica do Papa Francisco". Destacamos:

"O professor universitário Pedro Aguiar Pinto afirmou que o Dia da Terra é um convite à redução pessoal da “pegada ecológica” e disse que o Papa Francisco aborda o tema de forma “inovadora” na encíclica ‘Laudato Si’"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Papa recebe Leonardo DiCaprio: Laudato si em pauta

Cidade do Vaticano (RV) – O ator e ambientalista estadunidense Leonardo DiCaprio foi recebido pelo Papa na manhã desta quinta-feira (28/01).

DiCaprio, que concorrerá novamente ao Oscar de melhor ator por sua atuação em The Revenant, também é reconhecido por suas ações em defesa do meio ambiente.

Foi propriamente o reconhecido engajamento no campo da proteção ambiental que o levou a querer encontrar o Papa Francisco, no qual ele reconhece uma autoridade em matéria, em particular com a publicação da Carta encíclica Laudato si sobre o cuidado da casa comum.

No final do ano passado, o ator discursou na Assembleia da ONU sobre as mudanças climáticas, em Paris. Recentemente, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, anunciou que, por meio de sua fundação, doou 15 milhões de dólares para projetos ambientais e petições junto à lideranças econômicas para que combatam o aquecimento global.

DiCaprio também fez uma doação para as obras de caridade do Pontífice.

O Papa presenteou DiCaprio com uma cópia da Encíclica Laudato Si e da Exortação Evangelii Gaudium.

Fonte - Radio Vaticano

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Papa falou sobre mudanças climáticas com Secretário-Geral da OEA

O Papa Francisco recebeu nesta sexta-feira no Vaticano o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, com quem abordou o desafio da mudança climática.

Esta é a primeira vez que o pontífice argentino recebe Almagro, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai durante o governo José Mujica, e desde 26 de maio secretário-geral da organização continental.

O Secretário-Geral da OEA realizou uma visita de dois dias à Itália e ao Vaticano para apresentar a situação na região e reviver o papel da organização.

Almagro cumprimentou algumas horas após o encontro com Francisco em um tweet "a impressionante liderança do Papa para a sustentabilidade e éticos valores do planeta que unem a humanidade".

Um acordo global sobre combate às alterações climáticas é o foco de uma conferência histórica em Paris sobre as alterações climáticas em duas semanas, para a qual estão convidados todos os líderes do planeta.

Num segundo tweet, o Secretário-Geral da OEA afirmou que o Papa abordou a questão do diálogo inter-religioso para a prevenção de conflitos.

O Papa apoia a criação com a OEA do Intituto do Diálogo Interreligioso das Américas, que se inspira no fundado na Argentina há 15 anos, de acordo com fontes do Vaticano.

Um projeto que se baseia na mensagem da encíclica do Papa "Laudato se", na qual Francisco associa a defesa dos pobres à proteção ambiental.

Duranta sua estada em Roma, Almagro tem programadas uma série de reuniões com representantes políticos.

Tanto a Itália como a Santa Sé são observadores na OEA, cuja sede se encontra em Washington.

Fonte - SWI 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

FAO: desenvolvimento humano integral se ‘impõe ao mundo’

Roma (RV) – A Missão da Santa Sé junto à FAO promoveu um debate sobre a Encíclica Laudato si, nesta segunda-feira (26/10), na sede da organização em Roma.

O diálogo contou com a presença dos cardeais Peter Turkson e Jean-Louis Tauran e do Diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, que falou sobre impacto do documento para as decisões sobre o desenvolvimento sustentável.

Graziano recordou a repercussão do discurso do Papa Francisco nas Nações Unidas em Nova Iorque – no país que é o “centro do consumo e da produção não-sustentável”. O diretor geral afirmou que as novas metas de desenvolvimento sustentável para 2030 devem levar em consideração o desenvolvimento humano integral proposto pela Igreja, “uma tradição que hoje ‘se impõe’ ao mundo”.

Fonte - Radio Vaticano

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ambiente: Igreja exige à COP 21 acordo climático «justo, vinculativo e transformativo»

Cidade do Vaticano, 26 out 2015 (Ecclesia) – O Conselho Pontifício Justiça e Paz lançou hoje um apelo por um acordo “justo, juridicamente vinculativo e autenticamente transformativo” na próxima Conferência sobre as Mudanças Climáticas (COP 21), com dez propostas específicas de orientação.

“Apelamos à COP 21 que formule um acordo internacional para limitar o aumento global da temperatura aos parâmetros atualmente sugeridos pela comunidade científica global, de modo a evitar impactos climáticos catastróficos, especialmente para os mais pobres e para as comunidades mais vulneráveis”, subscrevem cardeais, patriarcas e bispos de todo o mundo, em representação das associações continentais de Conferências Episcopais.

Os representantes da Igreja Católica nos cinco continentes estão de acordo quanto à “existência de uma responsabilidade comum, mas também diferenciada”, de todas as nações na questão climática.

“É imperativo que se trabalhe em conjunto em prol de um empreendimento comum”, acrescentam.

Os signatários, em nome próprio e das populações ao seu cuidado, manifestam “esperança” nas negociações da COP 21, que vai decorrer entre 30 de novembro e 11 de dezembro, em Paris.

Este desafio, inspirado na Encíclica ‘Laudato si’ do Papa Francisco, foi apresentado hoje em conferência de imprensa com 10 propostas específicas de orientação, onde se começa por pedir “atenção não apenas às dimensões técnicas” mas particularmente éticas e morais das alterações climáticas.

Depois, propõe-se a definição do clima e da atmosfera como “bens comuns globais”, que pertencem e se destinam a todos; o terceiro ponto frisa a importância de um “acordo global justo, de mudança”.

A quarta proposta incentiva os participantes da COP 21 a impor “limites estritos ao aumento global da temperatura” e um objetivo de “completa descarbonização para meados do século”.

“Novos modelos de desenvolvimento e estilos de vida que sejam compatíveis com o clima, enfrentem as desigualdades e tirem as pessoas da pobreza”, é outra proposta, destacando que “um elemento primordial” para esta realidade “é pôr fim à era dos combustíveis fósseis”.

É pedido que as pessoas tenham acesso à água e à terra para desenvolverem sistemas alimentares “sustentáveis” e “resistentes às condições climáticas”.

O ‘Apelo de cardeais, patriarcas e bispos de diversas partes do mundo à COP21’ pretende também que se assegure que o acordo de 2015 aponte para uma abordagem de adaptação que responda às “necessidades imediatas das comunidades mais vulneráveis” e tenha presente as alternativas locais.

“Os responsáveis pelas alterações climáticas têm a responsabilidade de apoiar os mais vulneráveis na sua adaptação, a gerirem perdas e danos, e devem partilhar a tecnologia e o saber-fazer necessários”, propõe o número nove.

Os responsáveis eclesiais concluem que tudo “implica uma educação e uma consciência ecológica sérias”, no documento disponível no sítio online da Aliança Internacional de Organizações Católicas de Desenvolvimento (CIDSE).

Fonte - Ecclesia 

Nota DDP: O documento fala também de um 'acordo global justo de mudança', que garanta os direitos humanos, dentre eles, o de trabalho (item 3), onde logicamente se insere o descanso semanal, tão defendido pelo Vaticano...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Encíclica Laudato si será apresentada na FAO

Cidade do Vaticano (RV) – A Encíclica do Papa Francisco Laudato si’ será apresentada oficialmente na sede da Organização das Nações para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no próximo dia 26 de outubro.

A iniciativa se insere numa série de diálogos promovidos pela FAO sobre o tema: “Comunicar para promover a mudança”.

A apresentação da Encíclica foi promovida e organizada pela FAO e pela Missão permanente da Santa Sé na Organização, que tem sede em Roma. O tema do diálogo será: “Os desafios da Encíclica Laudato si’ à luz do programa de desenvolvimento pós-2015”

Entre os participantes, estão o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva, e os Cardeais Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, e Peter K. A. Turkson, Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz.

Fonte - Radio Vaticano


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Papa intervém em encontro sobre mudanças climáticas

Cidade do Vaticano (RV) – Na próxima sexta-feira, 11 de setembro, Papa Francisco deve intervir sobre o tema da crise climática ao receber os participantes do encontro internacional “Justiça Ambiental e Mudanças Climáticas”. Em virtude da Conferência Internacional em Paris, em dezembro, a Igreja Católica se confronta com especialistas, mundo político e empresarial para fazer o ponto da situação e contribuir na construção de uma solução compartilhada. O presidente da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável que está promovendo o evento, Edo Ronchi, afirmou que “a crise climática ainda pode ser vencida”.

As mudanças climáticas influenciam os âmbitos da justiça, da saúde e da paz e, se a rota não for invertida, o êxito será dramático. As populações mais pobres, em relação à alimentação, direitos e sobrevivência, já estão pagando o seu preço. É o que afirma a ciência, é o que enfatiza o Papa na Encíclica Laudato si’ e também serve de base para o encontro em Roma. Serão dois dias de evento que terminará com a audiência no Vaticano.

Padre Augusto Chendi, subsecretário do Pontifício Conselho da Pastoral para os Agentes de Saúde, diz que a Encíclica do Papa será pontual no evento já que “uma das chaves de leitura é justamente essa prioridade que o Santo Padre coloca à dignidade da pessoa humana em relação à dimensão puramente funcional ou econômica. Sabemos que, somente agindo nessa inversão, a dignidade da pessoa humana, incluindo o bem fundamental da saúde, será protegida e eventualmente promovida”.

Edo Ronchi, em entrevista a Rádio Vaticano, lembrou que “a questão da igualdade na distribuição do esforço necessário para contrastar as mudanças climáticas será o centro das negociações em Paris. Ali deverão ser estabelecidos objetivos coerentes, legalmente vinculados e periodicamente verificados”. E acrescentou: “Não se tem mais tempo! As emissões continuam crescendo mesmo se em 2014 chegaram a se estabilizar. A China não pode esperar 2030 para reduzir as próprias emissões, é muito tarde. É preciso começar antes. Os Estados Unidos não aplicaram o Protocolo de Kyoto na redução dos 7%: naquele período, isto é, de 1990-2012, as emissões foram aumentadas em 10%”.

Algumas medidas-chaves também foram sugeridas por ele para serem adotadas para contrastar o aumento da temperatura em nível planetário: “a proibição de construção de novas centrais de carvão; a eliminação até 2020 dos investimentos em combustíveis fósseis e a introdução de uma taxa de carvão; o fortalecimento de políticas e medidas de reserva energética em todos os setores; o desenvolvimento das fontes renováveis; a intervenção sobre a mobilidade e os transportes, reduzindo o crescimento da demanda de mobilidade veicular privada”.

Alguns especialistas mundiais no assunto já confirmaram presença como o diretor da Earth Institute da Columbia University, Jeffrey Sachs, e o presidente do Instituto de Pesquisa Grantham, Nicholas Stern. O Convênio Internacional está sendo promovido pelos Pontifícios Conselho da Justiça e da Paz e para os Agentes de Saúde.

Fonte - Radio Vaticano

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Lideranças religiosas assinam Declaração Fé no Clima

Rio de Janeiro (RV) - Lideranças de 12 comunidades religiosas assinaram no Rio de Janeiro, a Declaração Fé no Clima, na qual manifestaram posicionamento de consenso sobre as mudanças climáticas. O documento pretende ser uma contribuição informal do segmento religioso brasileiro à 21ª Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), que ocorrerá a partir de 30 de novembro, em Paris.

Documento será enviado ao Governo e ao Papa

A declaração será encaminhada à Presidente Dilma Rousseff e aos ministros do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Foi sugerido também, na ocasião, que a declaração seja enviada ao Papa Francisco, como um desdobramento da reflexão proposta na encíclica papal Laudato Si – Sobre o Cuidado da Casa Comum, além das entidades de meio ambiente dos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro.

Os líderes religiosos participaram do Encontro Internacional Fé no Clima, promovido pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), em parceria com a organização Gestão de Interesse Público (GIP). O ponto central da declaração é que as mudanças climáticas não podem ser um tema apropriado no campo político e econômico, mas devem evidenciar a preocupação com as questões ambiental, de justiça e igualdade social e que isso não seja esquecido nas negociações entre os países.

Comunidades e juventude

A Declaração Fé no Clima mostra a existência de sinergia também em relação à importância da confluência entre o conhecimento tradicional e o conhecimento científico e das comunidades tradicionais na defesa da natureza. O documento destaca o papel da juventude como propagadora da ideia de proteção do planeta. As lideranças religiosas sustentaram que o governo brasileiro precisa ser mais ambicioso no que se refere à redução das emissões de gases de efeito estufa, compatível com a necessidade de limitar o aumento da temperatura global a 2 graus Celsius até 2100.

As lideranças assumiram o compromisso de levar para suas comunidades o debate sobre as mudanças climáticas, em linguagem de fácil acesso para todos, que permita refletir sobre como a humanidade pode transformar os modos de vida, de forma a promover a sensibilização e mobilização efetiva sobre o tema. Reiteraram, também, a interdependência entre todos os seres do planeta, colocando o ser humano como mais um ente importante da criação e não o dominador sobre as demais criaturas.

Fonte - Radio Vaticano

Nota DDP: As forças político religiosas vão se alinhando nas questões do clima e, principalmente nas orientações papais como norteadoras desse movimento.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Vaticano: Papa denuncia «crise ecológica» mundial

Francisco convida cristãos a celebrar Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a 1 de setembro

Cidade do Vaticano, 26 ago 2015 (Ecclesia) – O Papa recordou hoje a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, que o próprio instituiu, e apelou à união dos cristãos para enfrentar a “crise ecológica” mundial.

“Na próxima terça-feira, 1 de setembro, vai celebrar-se a Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Em comunhão de oração com os nossos irmãos ortodoxos e com todas as pessoas de boa vontade, queremos oferecer o nosso contributo para a superação da crise ecológica que a humanidade está a viver”, declarou, na audiência pública semanal que decorreu na Praça de São Pedro.

Francisco anunciou que a data vai ser celebrada na Basílica do Vaticano pelas 17h00 (menos uma hora em Lisboa), convidando os fiéis da Diocese de Roma a unir-se aos responsáveis e profissionais da Cúria Romana nesta Liturgia da Palavra.

“Em todo o mundo, as várias realidades eclesiais locais programaram iniciativas oportunas de oração e de reflexão para tornar esta jornada um momento forte, também em vista da assunção de estilos de vida coerentes”, acrescentou.

O Papa instituiu na Igreja Católica este "Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação", que se vai realizar anualmente a partir do próximo dia 1 de setembro, na mesma data que já era comemorada pela Igreja Ortodoxa.

A criação desta celebração foi comunicada numa carta ao presidente do Conselho Pontifício da Justiça e da Paz e ao presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, respetivamente o cardeal Peter Turkson e o cardeal Kurt Koch.

“Devemos, antes de tudo, procurar no nosso rico património espiritual as motivações que alimentam a paixão pelo cuidado da criação, recordando sempre os que creem em Jesus Cristo, Verbo de Deus que se fez homem por nós”, escreveu Francisco.

Para o Papa argentino, um Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação vai oferecer aos fiéis e às comunidades a oportunidade de “renovarem a adesão pessoal à vocação de protetores da criação”.

Esta celebração decorre da publicação, a 18 de junho, da encíclica ‘Laudato si’, na qual Francisco propõe uma mudança de fundo na relação da humanidade com o meio ambiente, alertando para as consequências já visíveis do aquecimento global e das alterações climáticas.

As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade”, escreve o Papa, no primeiro documento do género inteiramente dedicado a questões ecológicas.

Fonte - Ecclesia

Papa pede vida coerente com a defesa do meio ambiente

O papa Francisco pediu aos cristãos nesta quarta-feira, 26 de agosto, que assumam um estilo de vida coerente com a salvaguarda "da criação", numa nova intervenção em defesa do meio ambiente e contra o consumismo.

Na centésima audiência geral de seu pontificado, perante multidão reunida na Praça de São Pedro, o pontífice reafirmou o apelo por uma mudança no modo de vida, feito em junho na encíclica Laudado si, seis meses antes da conferência de Paris (COP21) sobre as alterações climáticas.

Pela primeira vez, católicos e ortodoxos vão promover, no sábado (29), um Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a fim de contribuir, segundo o papa, "para a solução da crise ecológica que a humanidade está vivendo".

O papa não gosta de ver o documento reduzido a uma "encíclica verde", pois considera o texto mais como uma encíclica sobre justiça social

Iniciativas locais de oração e reflexão estão previstas e deverão fazer da jornada um "momento forte para que também possam ser escolhidos estilos de vida coerentes", afirmou Francisco.

O Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, instituído pelo papa, vai ocorrer anualmente em 1º de setembro, data que já tinha sido fixada pela Igreja Ortodoxa.

Na encíclica Laudato si (Louvado seja, em latim), o papa defende um modo de vida mais sóbrio e mais tranquilo, lembrando que os problemas ambientais estão intimamente ligados aos sistemas sociais, econômicos e ao domínio das finanças e da tecnologia.

Em entrevista ao diário chileno El Mercurio, citado pelo jornal L'Osservatore Romano, o presidende da Academia Pontifícia das Ciências, o argentino Marcelo Sánchez Sorondo, disse que o papa não gosta de ver o documento reduzido a uma "encíclica verde", pois considera o texto mais como uma encíclica sobre justiça social, na medida em que a "questão do clima tem repercussão sobre os povos mais pobres".

De acordo com o Vaticano, Francisco recebeu 3 milhões de peregrinos em Roma, em dois anos e meio de audiências gerais, Angelus e audiências especiais.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Fé no clima: o ECOmenismo ganha força

Todos pela Terra

À primeira vista, a diversidade de participantes faz até a gente pensar naquelas piadas clássicas (“um padre, um rabino e um pastor evangélico entram num boteco e...”), mas a conversa é séria. Nesta terça, dia 25 de agosto, um grupo variado e bastante representativo de lideranças religiosas do Brasil e do exterior vai se reunir no Rio de Janeiro para manifestar o apoio de suas denominações à luta contra as mudanças climáticas causadas pela ação humana. Estou falando do Encontro Internacional Fé no Clima, organizado pelo Iser (Instituto de Estudos da Religião), em parceria com o GIP (Gestão de Interesse Público). Como os leitores mais assíduos deste blog devem imaginar, a ação conjunta inter-religiosa se inspira no exemplo da encíclica Laudato Si, uma espécie de chamado às armas do papa Francisco para evitar os piores efeitos da mudança climática, e tem a intenção de influenciar os debates da Conferência do Clima da ONU em Paris, que acontece no fim deste ano.

Os 12 participantes devem falar tanto da visão que suas tradições religiosas possuem sobre a necessidade de respeitar o ambiente quanto das ações concretas que suas comunidades estão tomando em relação aos problemas ambientais. No fim das contas, deverão assinar um documento de consenso, a Declaração Fé no Clima, que será encaminhada ao governo federal.

Confira a lista de participantes: André Trigueiro (espírita e jornalista), Ariovaldo Ramos (pastor evangélico), Mãe Beata de Yemanjá (Iyalorixá do Ilê Omi Ojuarô), Dolores (Inkaruna) Ayay Chilón, professor de Quechua, da tradição Andina, Mãe Flávia Pinto (umbandista), Rv. Fletcher Harper (pastor episcopal norte americano), Pe. Josafá Carlos de Siqueira S.J (Igreja Católica), Kola Abimbola (Babalorixá Yorubá e acadêmico nigeriano), Léo Yawabane (tradição indígena Huni Kuin, do Acre), Lama Padma Samten (monje budista), Rabino Nilton Bonder (tradição judaica) e Timóteo Carriker (pastor presbiteriano).

Espero voltar a esse assunto em breve, até porque algumas das visões expressas pelo papa Francisco em sua encíclica ambiental chegam perto de ser revolucionárias. De qualquer modo, conseguir juntar tantas crenças juntas em favor de um objetivo no qual a ética e o conhecimento científico caminham lado a lado já merece comemoração.

(Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo)

Nota Criacionismo: Você ainda duvida do poder de coesão que a bandeira ecológica tem e da crescente influência do papa como líder incontestável desse movimento que transpõe os limites religiosos e arranca suspiros de admiração até dos jornalistas? Cinco anos atrás, concedi entrevista ao jornalista Reinaldo (autor do texto acima), na qual expus minha opinião sobre o ECOmenismo (confira aqui).

domingo, 23 de agosto de 2015

A Besta da terra - Parte 3

Ainda outro fator colaborador na aproximação entre a Igreja Romana e o protestantismo foi o movimento ecumênico. Formalmente, o início do ecumenismo ocorreu com a Conferência Missionária Mundial, em junho de 1910, em Edinburgh, Escócia, organizada e presidida pelo metodista norte-americano John R. Mott. “John R. Mott tinha um alvo bem definido ao realizar essa conferência: fazer Jesus Cristo conhecido por todos neste mundo. Com a intenção de alcançar esse alvo, ele buscava a união do maior número possível de cristãos para dar início a uma evangelização mundial abrangente”. (Michael Urban, Ecumenismo – O retorno a Babel, p.25).

Ele conseguir reunir mais de 1300 delegados, “representantes oficiais de várias sociedades missionárias. Ao organizar esta conferência, Mott convocou estas sociedades e não as igrejas. Isto possibilitou a busca de cooperação na missão e afastou o risco da busca de uma única igreja que congregasse todas as denominações cristãs”. (Wikipédia – John Raleigh Mott).

Com o aumento de poder e influência desse movimento, a Igreja Romana, mesmo antes do estabelecimento do Vaticano, sentiu necessidade de pronunciar-se. No início de 1928 o papa Pio XI publicou uma encíclica sobre a “promoção da verdadeira unidade de religião”. Nela o bispo de Roma repudia o desejo de união a qualquer custo dos cristãos dizendo que “estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis”. E conclui: “é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembleias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo”. (Encíclica Mortalium Animos, 06 de janeiro de 1928).

Em 1946, John R. Mott ganhou o prêmio Nobel da Paz pelo seu “longo e frutífero trabalho em unir os povos de muitas nações, raças e comunhões num vínculo comum de espiritualidade”. (Michael Urban, Ecumenismo – O retorno a Babel, p.26). E em 1948, também com seu apoio, surge a maior organização ecumênica mundial: O Conselho Mundial de Igrejas (CMI). John Mott torna-se presidente do CMI em 1954, e em janeiro de 1955 veio a falecer.

Na 3ª Assembleia Geral do CMI, realizada em 1961, Nova Déli (Índia), “houve pela primeira fez observadores católicos presentes”. (Michael Urban, Ecumenismo – O retorno a Babel, p.37). A partir desse ano, as ideias marxistas foram recebidas pelo CMI e nascia o “evangelho social”. Logo em seguida, o pensamento católico sobre o ecumenismo alcançaria o ponto da virada com o Concílio Vaticano II. Como tomar parte no movimento ecumênico sem abrir mão da primazia de Roma? Várias decisões e declarações deste concílio prepararam o catolicismo para assumir mais tarde o protagonismo dentro do movimento ecumênico. Especialmente as que preparavam o terreno para o surgimento do carismatismo dentro do catolicismo. “O Vaticano II foi um verdadeiro Pentecostes como o mesmo João XXIII havia desejado e ardentemente pedido”. (A História Renovação Carismática Católica). “E não vê nenhum motivo para que se estabeleça uma oposição entre ‘carisma’ e ‘ministério’ ou ‘carisma’ e ‘instituição’”. (Ibidem). “A Renovação Carismática Católica... teve origem com um retiro espiritual realizado em fevereiro de 1967 na Universidade de Duquesne (Pittsburgh, Pensylvania, EUA)”. (Ibidem). “E com a cooperação do Movimento Carismático, o pensamento ecumênico se alastrou de maneira explosiva dentro da igreja católica”. (Michael Urban, Ecumenismo – O retorno a Babel, p.38).

Embora a Igreja Romana continuasse afirmando ser o único meio de salvação, o Concílio Vaticano II alterou profundamente a linguagem ecumênica oficial da igreja com um decreto do papa Paulo VI: “Esta cooperação [de todos os cristãos], que já se realiza em não poucas nações, deve ser aperfeiçoada sempre mais, principalmente nas regiões onde se verifica a evolução social ou técnica. Vai ela contribuir para apreciar devidamente a dignidade da pessoa humana, promover o bem da paz, aplicar ainda mais o Evangelho na vida social, incentivar o espírito cristão nas ciências e nas artes e aplicar toda a espécie de remédios aos males da nossa época, tais como a fome e as calamidades, o analfabetismo e a pobreza, a falta de habitações e a inadequada distribuição dos bens. Por essa cooperação, todos os que creem em Cristo podem mais facilmente aprender como devem entender-se melhor e estimar-se mais uns aos outros, e assim se abre o caminho que leva à unidade dos cristãos”. (Decreto Unitatis Redentigratio, 21 de novembro de 1964).

Com uma nova embalagem e tendo como eixo central de união o carismatismo, “em 1968 foi criado um grupo comum de trabalho com a incumbência de manter o contato entre o Vaticano e o Conselho Mundial de Igrejas”. (Michael Urban, Ecumenismo – O retorno a Babel, p.38). “E pela primeira vez na história, o papa Paulo VI visitou a sede do Concílio Mundial de Igrejas em 1969”. (La Ecumenicidad Religiosa para el Nuevo Orden Mundial, p. 24). Todos os esforços da Igreja Romana continuaram nessa direção: incentivar a união de todos os cristãos mantendo a primazia de Roma. E foi durante o pontificado de João Paulo II que a diplomacia papal mais priorizou o ecumenismo buscando conquistar definitivamente os “irmãos separados”. Segundo as palavras de João Paulo II: “Desde o começo de meu pontificado, fiz do ecumenismo a prioridade de minha preocupação e ação pastoral”. (Liliane Borges, O ecumenismo no pontificado de João Paulo II).

Por isso, nos primeiros anos do pontificado de João Paulo II, o protagonismo de Roma dentro do movimento ecumênico aliado ao surgimento da Direita Religiosa nos EUA culminou na união diplomática entre os dois Estados. Alberto Rivera, ex-jesuíta, “explica que estando sob o juramento dos jesuítas, foi-lhe dito que um sinal secreto seria dado aos jesuítas quando o movimento ecumênico houvesse acabado com o protestantismo, em preparação para a assinatura de uma concordata entre o Vaticano e os Estados Unidos. O sinal seria que um presidente [norte-americano] faria o juramento [de posse] em frente a um obelisco. Pela primeira vez na historia dos Estados Unidos, a cerimônia de juramento foi mudada para o lado oeste do Capitólio, e o presidente Reagan fez o juramento em frente ao monumento de Washington. Isso aconteceu em 20 de janeiro de 1981”. (Los Padrinos - Alberto Tercera Parte, p. 26).

Posteriormente, no mesmo mandato do presidente Reagan, em 10 de janeiro de 1984, os EUA estabeleceram relações diplomáticas com o Vaticano - algo impensável para os Pais Fundadores da América.

Trinta anos mais tarde, o ecumenismo já é capaz de produzir cenas que só a profecia bíblica poderia antecipar. No início de 2014, diversos ministros carismáticos e pentecostais presentes em uma reunião nos EUA, patrocinada pelo ministério evangélico Kenneth Copeland Ministries, ouvem a preleção do bispo anglicano Tony Palmer, o qual apresenta um vídeo gravado por ele mesmo, com uma mensagem pessoal do papa Francisco apelando à união completa dos cristãos sob a liderança do Vaticano. Antes de apresentar o vídeo Palmer se apresenta como o profeta Elias enviado “para converter o coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais”, demonstrando não haver mais razões para protestar contra a Igreja Católica, e convidando todos a se unirem. Depois de assistirem o vídeo do papa Francisco, os líderes do evento dão glória a Deus, bem como recebem e pronunciam uma benção do e para o Vaticano.

Embora Roma venha enfatizando o “escândalo da divisão” do cristianismo desde o Concílio Vaticano II, e promovendo o diálogo com as várias denominações cristãs “separadas” de Roma, e também com as diversas religiões não cristãs, essa mesma postura de contemporização e relativismo tem afastado igrejas e grupos cristãos mais conservadores. A principal razão para isso é que “o quadro escatológico da igreja de Deus antes da segunda vinda não é o de uma megaigreja reunindo toda a humanidade, mas o de um 'remanescente' da cristandade, aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus (Apocalipse 14:12)”. (Bert Beverly Beach, Ecumenism - Boon or Bane?).

O ecumenismo papal conseguiu cumprir seu papel como cavalo de Tróia graças à atitude do próprio protestantismo: “O catolicismo na verdade em muito se assemelha ao protestantismo que hoje existe; pois o protestantismo moderno muito se distancia daquele dos dias da Reforma”. (EGW, O Grande Conflito, p. 571). Por tudo isso, pode-se notar que a besta da terra já atingiu o ponto profético onde fará com que os habitantes da terra adorem a primeira besta. E aqueles que não receberem a marca da besta (guarda do domingo) nem o número do seu nome, terão sua liberdade econômica bloqueada (Ap 13:17). "Pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis". (Ap 13:18).

O número 666 era associado às religiões de mistério na antiga Babilônia e usado na adoração ao sol. O que confirma novamente que as duas bestas do apocalipse 13, ao proporem um governo mundial, e a guarda universal do domingo estarão agindo sob a mesma influência pagã-ocultista das antigas religiões de mistério. Contra esse futuro sistema religioso Deus pronunciou a mais solene advertência nas Escrituras: “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro”. (Ap 14:9 e 10).

E também deixou um convite: “Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos”. (Ap 18:4).

“Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que EU SOU”. (Jo 13:19).

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