Asafe começa então a fazer perguntas difíceis: “Rejeitará o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício? Cessou perpetuamente a Sua graça?” Essas perguntas revelam o que acontece quando uma crise prolongada altera nossa percepção de Deus. O sofrimento pode fazer parecer que aquilo que Deus realizou no passado já não vale para o presente. O salmista chega a pensar que a mão do Senhor talvez tenha mudado. Não é falta de fé reconhecer essa luta interior. O problema seria permitir que a dúvida se tornasse a conclusão definitiva.
A mudança começa quando Asafe decide lembrar. “Recordo os feitos do Senhor; pois me lembro das Tuas maravilhas da antiguidade.” Em vez de continuar olhando apenas para aquilo que não consegue compreender, ele volta os olhos para a história. Recorda os caminhos de Deus, Seus grandes feitos e Sua fidelidade. A memória transforma-se em instrumento de fé. Quando o presente não oferece respostas suficientes, o passado com Deus pode fornecer evidências de que Seu caráter não mudou.
Então o Salmo alcança um de seus momentos mais impressionantes. Asafe recorda o Êxodo e pergunta: “O Teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande como o nosso Deus?” Ele lembra que Deus abriu caminho pelo mar, fez as águas tremerem e conduziu Seu povo como um rebanho pela mão de Moisés e Arão. O detalhe mais significativo é que o caminho de Deus pelo mar não deixou uma trilha visível. O povo precisava avançar confiando naquele que podia abrir um caminho onde nenhum caminho existia.
Essa lembrança aponta para uma verdade importante. Muitas vezes queremos compreender antecipadamente como Deus resolverá uma situação. Gostaríamos de enxergar a estrada inteira antes de dar o próximo passo. Mas o Deus do Salmo 77 é justamente aquele que “abriu no mar o Seu caminho e as Suas veredas, nas grandes águas”. O caminho estava ali, embora não pudesse ser percebido pelos olhos humanos. Deus não precisava tornar o percurso previsível para continuar sendo fiel.
Essa experiência encontra seu significado mais profundo em Cristo. Durante Sua vida terrena, Jesus também atravessou momentos em que o caminho parecia contradizer as expectativas humanas. A cruz parecia o fim de todas as promessas, mas a ressurreição revelou que Deus estava conduzindo a história para uma vitória que ninguém conseguia enxergar naquela noite. O silêncio de Deus não significava ausência; fazia parte de um propósito que só seria compreendido depois.
Talvez você esteja vivendo exatamente esse tipo de momento. Talvez esteja orando há algum tempo e não consiga perceber uma resposta. Talvez esteja perguntando se Deus ainda está conduzindo sua história. O Salmo 77 não oferece uma explicação para cada sofrimento, mas mostra onde procurar quando as explicações não aparecem: na fidelidade que Deus já demonstrou.
Não permita que uma fase difícil apague tudo aquilo que Deus já fez. Quando o presente parecer silencioso, recorde as antigas misericórdias. Quando o caminho desaparecer diante dos seus olhos, lembre-se de que Deus já abriu caminhos onde não existiam. A fé nem sempre consegue enxergar a estrada, mas consegue reconhecer quem está conduzindo.
E, às vezes, é justamente quando não conseguimos ver o caminho que precisamos confiar ainda mais naquele que conhece perfeitamente o destino.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
