O salmista, porém, faz algo importante: em vez de abandonar sua confiança, ele começa a recordar. “Lembra-Te da Tua congregação, que adquiriste desde a antiguidade.” Ele volta à história e se lembra de que Israel não surgiu por acaso. Deus havia escolhido, conduzido e redimido aquele povo. Quando o presente parece contradizer as promessas, a memória da fidelidade passada pode se tornar uma âncora para a esperança presente.
O Salmo também descreve com detalhes a arrogância dos inimigos. Eles destruíram portas, queimaram o santuário e profanaram aquilo que era sagrado. O mais doloroso, entretanto, é que parecem ter conseguido fazer tudo isso sem encontrar resistência. “Não vemos mais os nossos sinais; já não há profeta.” O silêncio torna a crise ainda mais angustiante. Quando não recebemos respostas e não conseguimos perceber a intervenção de Deus, somos tentados a concluir que Ele deixou de agir.
Mas o salmista não termina nessa conclusão. Ele olha novamente para Deus e lembra de Seu poder sobre a criação: “Tu, ó Deus, és o meu Rei desde a antiguidade; Tu és quem operas feitos salvadores no meio da terra.” Aquele que abriu o mar, estabeleceu os limites da terra e domina as forças da natureza não perdeu Seu poder apenas porque, naquele momento, o povo não conseguia enxergá-lo.
Essa é uma das grandes lições do Salmo 74: o silêncio de Deus não significa ausência de Deus. Existem períodos em que Sua atuação permanece escondida aos nossos olhos. A fé não consiste em negar a devastação, mas em reconhecer que aquilo que vemos não representa toda a realidade.
Cristo também atravessou um momento assim. Na cruz, o céu parecia silencioso. Seus discípulos não conseguiam compreender como o Messias poderia terminar daquela maneira. Para eles, parecia que o inimigo havia vencido e que as promessas haviam fracassado. Mas a ressurreição revelou que Deus estava realizando Seu propósito justamente quando Sua ação parecia menos evidente.
O Salmo termina com um pedido para que Deus se levante e defenda Sua própria causa. O salmista ainda não possui todas as respostas, mas continua acreditando que a história pertence ao Senhor. Essa esperança é particularmente importante quando contemplamos injustiças, perdas ou situações que parecem permanecer sem explicação.
Talvez você também esteja atravessando um período em que parece que Deus está distante. Talvez tenha orado sem receber a resposta esperada ou esteja olhando para alguma área da vida e perguntando por que o Senhor permitiu que determinadas coisas acontecessem. Não transforme o silêncio em abandono. Quando não conseguir compreender o que Deus está fazendo, volte ao que Ele já fez. Recorde Sua fidelidade, Sua Palavra e Suas promessas.
Porque nossa fé não depende de enxergarmos Deus trabalhando a cada instante. Há momentos em que a única coisa que conseguimos fazer é lembrar quem Ele é enquanto esperamos que a realidade volte a revelar aquilo que a fé já sabe: Deus continua sendo Rei.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
