Essa verdade é especialmente importante porque o orgulho humano frequentemente cria a impressão de que aqueles que possuem poder podem fazer o que quiserem. O Salmo descreve os arrogantes levantando a cabeça e falando com soberba: “Não levanteis a vossa fronte; não levanteis a vossa fronte contra o céu.” A advertência é clara: posição, riqueza, influência ou autoridade não colocam ninguém acima do julgamento de Deus. Aquilo que os homens conseguem controlar é limitado pelo governo do Senhor.
O salmista utiliza então uma imagem impressionante: “Porque na mão do Senhor há um cálice cujo vinho espuma.” O cálice representa o juízo divino. Enquanto os homens podem imaginar que o mal ficará impune, Deus conhece perfeitamente cada ação e cada intenção. Seu julgamento não é impulsivo nem arbitrário. Ele espera o momento certo e julga com uma justiça que nenhum tribunal humano consegue reproduzir plenamente.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre a justiça de Deus e a vingança humana. O ser humano frequentemente deseja que o outro sofra porque foi ferido. Deus, por outro lado, julga a partir de um conhecimento perfeito. Ele vê aquilo que aconteceu em segredo, conhece as motivações e compreende todas as consequências. Por isso, o Salmo nos convida a abandonar a necessidade de ocupar o lugar do juiz. Podemos buscar justiça pelos meios corretos, mas não precisamos carregar a responsabilidade de determinar o destino final de quem nos fez mal.
Essa mensagem encontra profundo significado na experiência de Cristo. Jesus foi submetido a um julgamento injusto, enquanto aqueles que O condenaram pareciam possuir toda a autoridade. Entretanto, a cruz não significou a vitória definitiva da injustiça. Deus transformou aquilo que parecia a maior derrota em instrumento de redenção, e a ressurreição demonstrou que o julgamento humano jamais poderia determinar o resultado final da história.
O Salmo também confronta uma tentação muito comum: acreditar que nossa própria força é responsável pelo lugar que ocupamos. “Porque não é do Oriente, não é do Ocidente, nem do deserto que vem a exaltação. Deus é o juiz; a um abate, a outro exalta.” Toda verdadeira exaltação está, em última instância, sob a autoridade de Deus. Isso deveria produzir humildade tanto em quem está subindo quanto em quem está descendo.
Talvez você esteja vivendo uma situação em que alguém parece estar prosperando justamente por fazer aquilo que é errado. Pode ser difícil assistir a isso sem questionar se a justiça realmente existe. O Salmo 75 responde lembrando que o fato de Deus ainda não ter julgado não significa que Ele não esteja vendo. Existe um tempo determinado, e o Senhor não precisa da nossa ansiedade para cumprir Sua justiça.
Por isso, não permita que a arrogância dos outros produza amargura em você. Continue fazendo o que é correto, mesmo quando o caminho da integridade parecer mais difícil. A justiça de Deus pode parecer demorada aos nossos olhos, mas nunca chega atrasada.
O Salmo termina retomando o compromisso de louvor: “Quanto a mim, declararei isso para sempre; cantarei louvores ao Deus de Jacó.” A confiança de quem pertence a Deus não depende de ver imediatamente a queda dos injustos. Ela nasce da certeza de que existe um Juiz que conhece toda a história e que, no momento determinado, colocará cada coisa em seu devido lugar.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
