A imagem é aplicada diretamente a Jerusalém. Israel havia sido comparado muitas vezes a uma videira nas Escrituras. Deus havia plantado Seu povo, cuidado dele e lhe concedido uma posição especial. Mas o problema apresentado em Ezequiel 15 é que a videira havia perdido sua função. Não produzia o fruto esperado.
A pergunta de Deus é incisiva: “Tomar-se-á dela madeira para fazer alguma obra?” (Ez 15:3). Se nem mesmo antes de ser queimada sua madeira servia para algo significativo, quanto menos depois de passar pelo fogo.
O fogo ocupa uma posição central na comparação. A madeira da videira já era considerada inadequada para grandes construções; depois de parcialmente consumida pelo fogo, tornava-se ainda mais inútil. Deus declara que Jerusalém seria entregue ao fogo justamente por sua infidelidade.
A mensagem não está na qualidade natural da videira, mas em sua finalidade. Israel havia recebido privilégios que deveriam produzir frutos espirituais. Tinha a Lei, o santuário, os profetas e a aliança. Mas esses privilégios não eram um fim em si mesmos. Existiam para conduzir o povo à fidelidade e para tornar conhecido o caráter de Deus.
Quando o propósito é abandonado, o privilégio deixa de funcionar como proteção.
Essa é uma das características mais fortes de Ezequiel: Deus não permite que Israel transforme sua eleição em uma espécie de imunidade espiritual. O povo não poderia dizer: “Somos a videira escolhida, portanto estaremos seguros”, enquanto continuava produzindo rebeldia.
O capítulo termina com uma frase que resume o objetivo do juízo: “E porei o meu rosto contra eles” (Ez 15:7). Jerusalém havia se tornado uma terra desolada porque persistira em sua infidelidade.
Há, porém, uma reflexão que ultrapassa o contexto imediato. A parábola da videira nos lembra que Deus não mede nossa vida apenas pelos privilégios que recebemos, mas pelo fruto que produzimos com aquilo que recebemos.
É possível ter conhecimento bíblico, acesso à verdade, tradição religiosa e uma identidade espiritual forte — e ainda assim não cumprir o propósito para o qual tudo isso nos foi concedido.
A videira não existe para admirar sua própria aparência. Ela existe para produzir fruto.
Esse princípio atravessa toda a Escritura. Jesus retomaria posteriormente a imagem da videira para ensinar sobre permanência, fruto e ligação com Deus. A questão nunca é simplesmente pertencer à videira, mas permanecer nela e produzir aquilo que corresponde à sua vocação.
Ezequiel 15, portanto, é um capítulo curto, mas extremamente direto. Ele desmonta a falsa segurança baseada em identidade religiosa e nos obriga a olhar para aquilo que realmente importa.
Não é suficiente ter sido plantado em um lugar privilegiado. É preciso produzir o fruto para o qual Deus nos plantou.
A pergunta de Ezequiel 15 permanece viva:
Se Deus olhar hoje para a nossa vida, encontrará apenas os sinais de que pertencemos a Ele — ou encontrará o fruto que revela que realmente permanecemos nEle?
