quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Rei Governa com Justiça (SL72)

O Salmo 72 apresenta a oração de um rei por outro rei. Salomão pede que Deus conceda ao governante “os Teus juízos” e a capacidade de julgar o povo com justiça. Desde o início, porém, a linguagem ultrapassa aquilo que qualquer monarca humano conseguiria realizar plenamente. O rei ideal descrito pelo salmista governa com justiça perfeita, defende os necessitados, protege os pobres e faz com que a paz floresça sobre a terra. Por isso, o Salmo se tornou também uma das grandes passagens messiânicas das Escrituras, apontando para um Reino que encontraria sua realização definitiva em Cristo.

O aspecto mais marcante dessa descrição é a relação entre poder e caráter. O governante não recebe autoridade para exaltar a si mesmo, acumular riquezas ou subjugar os mais frágeis. Sua responsabilidade é exatamente o contrário: “Julgue ele os aflitos do povo, salve os filhos dos necessitados e esmague o opressor.” Na perspectiva bíblica, a verdadeira autoridade é inseparável da justiça. Quanto maior o poder recebido, maior também a responsabilidade diante de Deus pelo modo como esse poder é utilizado.

O Salmo descreve um reino no qual o justo florescerá e haverá abundância de paz. O rei será como chuva que desce sobre a terra, trazendo vida onde havia aridez. Essa imagem revela que o governo de Deus não produz apenas submissão; produz vida. O poder exercido segundo a vontade divina restaura aquilo que a opressão destrói. Por isso, o salmista deseja que o domínio desse rei alcance os confins da terra e que todos os povos sejam abençoados por meio dele.

Aqui encontramos uma dimensão que ultrapassa claramente a história dos reis de Israel. Nenhum deles cumpriu integralmente essa descrição. Salomão começou seu reinado pedindo sabedoria, mas sua própria história terminou marcada por contradições. Outros reis foram ainda mais distantes do ideal apresentado pelo Salmo. A promessa, portanto, aponta para um Rei diferente, cujo governo não seria limitado pelas fragilidades dos governantes humanos.

Cristo é apresentado nas Escrituras como esse Rei. Seu Reino não se estabelece pelos mecanismos de dominação que caracterizam os poderes deste mundo. Ele se aproxima dos pobres, acolhe os marginalizados, confronta os opressores e oferece misericórdia aos que reconhecem sua necessidade. Na cruz, Sua aparente derrota revelou justamente a natureza de Seu governo: Ele vence não reproduzindo a violência do mundo, mas entregando a própria vida para salvar.

O Salmo 72 também fala de um domínio que alcança todas as nações. “Todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam.” Essa perspectiva encontra eco na promessa bíblica de que o evangelho seria anunciado a todos os povos e de que, finalmente, o Reino de Deus substituirá os sistemas humanos marcados pelo pecado. A esperança cristã não está na construção de um governo humano perfeito, mas na volta daquele cujo caráter é perfeitamente justo.

Há ainda uma lição para aqueles que exercem qualquer forma de autoridade. O Salmo nos lembra que liderança nunca deve ser medida apenas pelo tamanho do poder, pela quantidade de pessoas submetidas a alguém ou pelos resultados alcançados. Deus avalia também aquilo que acontece com os vulneráveis sob nossa responsabilidade. O verdadeiro líder não pergunta apenas quanto conseguiu conquistar, mas quantas pessoas conseguiu proteger, servir e conduzir com justiça.

No final, Davi irrompe em louvor: “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, o único que faz maravilhas.” O rei terreno desaparece diante da grandeza do verdadeiro Rei. Toda autoridade humana é temporária, mas o Reino de Deus permanece.

Talvez o Salmo 72 nos convide hoje a olhar para além da instabilidade dos governos, das disputas pelo poder e das imperfeições daqueles que lideram. Existe um Reino cuja justiça não depende de interesses políticos, cuja autoridade não nasce da força e cujo Rei não abandona os pobres nem esquece os oprimidos. Enquanto aguardamos sua plena manifestação, somos chamados a viver segundo os valores desse Reino, praticando justiça, defendendo os vulneráveis e permitindo que o caráter do verdadeiro Rei seja visto em nossa própria maneira de viver.

Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere

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