Davi fala de perseguição, injustiça e acusações que não correspondem à verdade. “Mais numerosos que os cabelos da minha cabeça são os que, sem razão, me odeiam.” A dor não está apenas no sofrimento provocado pelos inimigos, mas também na sensação de ser injustiçado apesar de procurar fazer o que é correto. Ele chega a dizer: “Tenho suportado afrontas por amor de Ti.” Existe uma dimensão espiritual em sua experiência: permanecer fiel a Deus pode colocá-lo em oposição aos valores daqueles que rejeitam o Senhor. A fidelidade nem sempre produz aprovação; algumas vezes, produz resistência.
O salmo também revela o custo emocional dessa experiência. Davi está cansado de clamar, sua garganta está seca e seus olhos se consomem enquanto espera por Deus. Essa honestidade é importante porque demonstra que a fé não elimina automaticamente o sofrimento psicológico provocado por uma longa espera. O homem de Deus também pode chegar ao limite de suas forças. A diferença está em não transformar esse limite em afastamento de Deus. Davi continua clamando justamente porque ainda acredita que existe alguém capaz de ouvi-lo.
O Novo Testamento identifica diversas passagens deste Salmo como relacionadas à experiência de Cristo. Jesus também foi rejeitado, injustamente acusado e tratado como culpado embora não tivesse cometido pecado. O evangelho de João relaciona à purificação do templo a declaração: “O zelo da Tua casa me consumirá.” Na cruz, Cristo experimentou a solidão e o sofrimento descritos de maneira tão intensa neste Salmo. Aquilo que Davi experimentou parcialmente encontrou em Jesus sua expressão mais profunda, porque o Justo sofreu não apenas por causa da injustiça humana, mas carregou sobre Si o peso do pecado do mundo.
Mesmo em meio à angústia, Davi não termina sem esperança. Depois de derramar diante de Deus sua dor, ele declara: “Louvarei o nome de Deus com um cântico e engrandecê-Lo-ei com ações de graças.” A circunstância ainda não havia sido completamente resolvida, mas a perspectiva do salmista começa a mudar. Ele percebe que sua relação com Deus não depende de uma vida livre de sofrimento. O Senhor continua sendo digno de confiança mesmo quando as águas chegam até a alma.
O Salmo 69 nos ensina que não precisamos escolher entre reconhecer a dor e confiar em Deus. Podemos fazer as duas coisas. Podemos admitir que estamos cansados, dizer que fomos feridos, apresentar nossas perguntas e ainda permanecer diante do Senhor. A fé verdadeira não exige que o coração finja estar bem; ela permite que o coração ferido continue procurando Deus.
Talvez você esteja atravessando justamente uma dessas águas profundas. Não tenha vergonha de clamar. Diga a Deus aquilo que realmente está acontecendo, mas não se esqueça de quem Ele é enquanto atravessa a crise. As águas podem chegar até a alma, mas não precisam levar sua esperança consigo. Aquele que sustentou Cristo através da noite mais escura também pode sustentar você até que a manhã chegue.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
