A Bíblia ensina que grandes mudanças na história raramente começam de forma abrupta. Elas são introduzidas como respostas necessárias a crises reais. Em Daniel, vemos que os reinos não se consolidam apenas pela força, mas pela capacidade de organizar, administrar e exigir obediência. O quarto reino, descrito como diferente de todos os outros, não se destacaria apenas pelo poder militar, mas por sua habilidade de legislar e controlar.
Quando medidas extraordinárias passam a ser normalizadas, a consciência coletiva também é educada. O que antes pareceria impensável passa a ser visto como dever moral. A Escritura alerta que esse processo não ocorre de forma caótica, mas ordenada. “E por causa da sua astúcia fará prosperar o engano na sua mão” (Daniel 8:25). O engano, na profecia, não é necessariamente mentira explícita, mas a condução gradual do pensamento.
Apocalipse descreve um poder que atua não apenas impondo, mas convencendo. Ele cria consenso. Ele constrói a ideia de que a segurança, a saúde e a estabilidade dependem da submissão a um sistema maior. Assim, a obediência deixa de ser vista como coerção e passa a ser apresentada como virtude cívica. “E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes fosse posto um sinal” (Apocalipse 13:16).
A profecia não condena o cuidado com o próximo nem a responsabilidade social. Ela alerta para o momento em que esses valores são usados para justificar estruturas permanentes de controle. Quando a consciência individual é treinada a aceitar vigilância e restrição como algo naturalmente bom, o terreno está sendo preparado para algo maior.
Jesus advertiu que, nos últimos tempos, muitos seriam enganados não pela violência, mas pela aparência de justiça. O caminho pareceria correto, necessário e até altruísta. “Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbios 14:12).
Esses movimentos não devem ser lidos com medo, mas com vigilância espiritual. A profecia não nos chama para rejeitar a realidade, mas para discernir seus rumos. Quando crises globais passam a ser vistas como oportunidades para remodelar a relação entre indivíduo e autoridade, a Bíblia nos convida a observar com atenção.
A profecia não se cumpre em um único ato. Ela se constrói, passo a passo, até que aquilo que foi aceito em nome do bem comum se torne exigido em nome da ordem.
“Quem tem ouvidos, ouça.”
