sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Deus do Sussurro (1RE19)

Há dias em que a alma não quer lutar. O corpo ainda respira, mas o coração pede silêncio. Depois de enfrentar multidões, tomar decisões e resistir ao mal, chega o momento em que o servo se deita debaixo de um zimbro e só consegue dizer: “basta”. Não é rebeldia — é esgotamento. A fé permanece verdadeira, mas a força acabou.

O profeta fugiu. Aquele que havia permanecido firme diante de reis agora temia por sua vida. O contraste revela algo profundo: a maior batalha nem sempre acontece diante dos inimigos, mas depois da vitória. O conflito não terminou no monte; apenas mudou de cenário. Deus não respondeu ao desânimo com reprovação. Primeiro deu descanso, pão e água. Antes de restaurar o espírito, sustentou a vida. O céu sabe que um coração cansado não discerne corretamente a voz divina.

No monte, Deus não estava no vento impetuoso, nem no terremoto, nem no fogo. O Senhor veio em uma voz mansa e delicada. O mal trabalha pelo ruído — medo, urgência, ameaça, pressão. Deus trabalha pela consciência — calma, clareza, direção. A obra do inimigo é empurrar a alma para decisões precipitadas; a de Deus é conduzir à obediência consciente. O profeta pensava estar sozinho, mas o céu preservara um remanescente fiel. A realidade espiritual nunca depende da percepção humana.

Hoje, muitas escolhas são feitas no barulho interior: ansiedade, comparação, culpa ou pressa. Mas a direção de Deus não nasce no tumulto. Quem decide sem ouvir a voz silenciosa quase sempre age pela carne, ainda que usando linguagem religiosa. O caminho seguro começa quando o coração para de correr e aprende a escutar. A fidelidade não consiste em sentir-se forte, mas em permanecer disponível para obedecer depois de restaurado.

Que hoje eu não confunda intensidade com presença divina. Que eu espere até ouvir o sussurro. E que, ao ouvir, eu caminhe — ainda que cansado — porque a jornada não terminou.

Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere

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