sábado, 28 de fevereiro de 2026

A Mentira que Parece Consolo (GC33)

O inimigo sempre soube que, se conseguisse mudar a imagem de Deus no coração humano, conseguiria mudar tudo. Foi assim no Éden. A primeira queda não aconteceu por falta de informação, mas por uma conversa prolongada com a dúvida. A serpente não ofereceu apenas um fruto; ofereceu uma interpretação. Ela insinuou que Deus restringe por medo, que proíbe por egoísmo, que governa para diminuir. E, quando o homem aceitou essa leitura, a desobediência pareceu liberdade. Mas a liberdade prometida revelou-se um cárcere.

A mesma voz continua sussurrando, com novas roupas e antigas intenções: “Certamente não morrereis.” Essa frase, dita no princípio, tornou-se sermão repetido ao longo dos séculos. Ela parece suave, porque toca a ansiedade humana diante do fim. Ela parece espiritual, porque fala de eternidade. Mas, por trás da doçura, há veneno: se o homem não morre, se a alma não pode cessar, então o pecado pode ser tratado como detalhe, e o juízo como drama simbólico. E, quando a morte deixa de ser morte, a cruz perde sua urgência.

A Bíblia, porém, não pinta a morte como porta natural para outra forma de vida consciente. Ela a descreve como retorno ao pó, como silêncio, como interrupção real. A imortalidade não é um direito inerente; é um dom concedido em Cristo. O evangelho não é um adorno para a alma já eterna; é a única esperança para uma criatura condenada a perecer sem Redentor. Cristo não veio apenas melhorar o homem; veio resgatá-lo do fim que ele não consegue evitar. E isso muda a atmosfera do coração: o pecador não é convidado a se consolar com uma “continuidade”, mas a se render a um Salvador.

Há, ainda, uma crueldade escondida em certas ideias que se vestem de zelo: pintar Deus como alguém que mantém seres vivos em sofrimento infinito. Isso não exalta a santidade; distorce o caráter do Pai. A justiça divina não é sadismo. Deus não tem prazer na morte do ímpio. O juízo não nasce de capricho, mas da necessidade de encerrar o mal para que o universo respire em paz. O pecado é destrutivo por natureza; a separação de Deus é morte por consequência. E, quando o homem insiste em rejeitar a luz, a destruição final não é tirania divina: é o término do que o pecado produz.

Essa verdade confronta duas tentações comuns. A primeira é o terror que paralisa: “Deus é vingativo, e eu não tenho saída.” A segunda é o consolo falso que amolece: “No fim, tudo dará certo, eu me arrumo depois.” Ambas são armadilhas. O chamado de Deus é mais firme e mais misericordioso: arrependimento real, fé viva, obediência como fruto, graça como poder. A vida eterna não é prêmio para quem negociou; é herança para quem se rendeu.

Hoje, a disciplina é simples: não discuta com a serpente. Não flerte com interpretações que tornam o pecado leve e Deus suspeito. Traga a mente de volta ao Calvário. Se a cruz foi necessária, o pecado é sério. Se Cristo morreu, Deus é justo. Se Cristo ressuscitou, a esperança é certa. E se Ele voltará, então este dia importa.

Durma a mentira. Acorde na verdade. O cárcere se abre quando Deus é visto como Ele é.

Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere

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