Após a queda, o coração humano não se tornou neutro. Ele se inclinou naturalmente para o mal. Sem a intervenção divina, não haveria resistência interior contra o pecado. O homem teria caminhado em plena harmonia com o enganador. A inimizade contra Satanás não é produto de cultura, nem de força moral própria; é fruto da obra regeneradora de Cristo na alma. Onde essa graça opera, surge o conflito. Onde ela não opera, há paz — mas é a paz da escravidão.
O grande inimigo trabalha nas sombras. Não aparece sempre como tentação grotesca. Ele prefere sutileza. Distorce a verdade, suaviza o pecado, transforma familiaridade em aceitação. Ele não precisa destruir a fé de uma vez; basta torná-la indiferente. Seu método é enfraquecer a comunhão com Cristo até que o pecado deixe de ser repulsivo. Quando a alma perde a sensibilidade, a batalha já está comprometida.
A cruz revelou essa inimizade de maneira definitiva. O mundo não odiou Cristo por Sua pobreza, mas por Sua pureza. Sua vida era reprovação silenciosa. O espírito que O crucificou continua ativo. Quem decide resistir ao pecado descobrirá que a oposição não é imaginária. Há forças que se levantam contra toda fidelidade sincera. O conflito não terminou; apenas mudou de cenário.
O inimigo também age por meio de alianças imprudentes. A conformidade ao mundo raramente parece traição aberta. Começa com pequenas concessões, com a busca por aceitação, com a diminuição do zelo espiritual. Pouco a pouco, o que antes era claro torna-se nebuloso. A consciência se adapta. A vigilância enfraquece. E o soldado de Cristo adormece em meio à guerra.
Não lutamos contra carne e sangue. A batalha é espiritual. O adversário é experiente, disciplinado, persistente. Ele observa, estuda fraquezas, aguarda descuidos. Porém, há um limite que ele não pode ultrapassar: a vontade rendida a Cristo. Satanás não pode forçar a alma a pecar. Pode pressionar, sugerir, cercar — mas não dominar sem consentimento. Essa é a dignidade que Deus preservou no homem.
A vitória não está na autoconfiança, mas na dependência. Cristo enfrentou o tentador e venceu. Essas vitórias não foram apenas demonstração; foram provisão. A força que O sustentou está disponível para todo aquele que a busca. O problema não é a falta de poder divino, mas a falta de comunhão constante.
O pior inimigo do homem não é externo; é a inclinação não submetida. Quando a vontade se alinha com Cristo, a inimizade contra o pecado se fortalece. Quando a comunhão é negligenciada, a resistência enfraquece. A guerra continuará até o fim do tempo. Mas ninguém é vencido sem escolher ceder.
Hoje, a pergunta não é se há conflito. A pergunta é de que lado estamos lutando.
Permaneça vigilante. Permaneça rendido. Permaneça em Cristo.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
