A história da França mostra que o grande conflito não se limita a sistemas religiosos, mas alcança o coração de nações inteiras. Quando a Palavra de Deus é rejeitada de forma consciente e persistente, não ocorre um simples vazio espiritual; instala-se uma força destrutiva que corrói lentamente a consciência, a moral e a própria noção de humanidade. A luz não foi negada por ignorância, mas recusada por escolha. E toda escolha espiritual produz consequências históricas.
Por séculos, a Escritura foi mantida distante do povo francês. Não apenas escondida em línguas inacessíveis, mas substituída por um sistema que falava em nome de Deus enquanto deformava Seu caráter. A lei divina foi apresentada como instrumento de opressão, e não como expressão de amor. O evangelho, que ensina sacrifício, justiça e misericórdia, foi encoberto por rituais vazios e poder coercitivo. Quando isso acontece, a religião deixa de curar e passa a adoecer a sociedade.
O conflito se intensifica quando, em reação a esse falso retrato de Deus, o coração humano não distingue entre a verdade e a mentira. A França não apenas rejeitou o romanismo; rejeitou a própria Escritura. Ao lançar fora a Bíblia, lançou fora o único freio capaz de conter as paixões humanas. A lei de Deus foi declarada inútil, a fé ridicularizada, e a razão humana entronizada como divindade. O resultado não foi liberdade, mas caos; não foi luz, mas trevas mais densas.
A profecia descreve esse momento como a morte das duas testemunhas — a Palavra de Deus silenciada, exposta ao desprezo público. Por um breve período, pareceu que o céu havia sido vencido. A incredulidade celebrou, a blasfêmia ganhou voz oficial, e a violência passou a governar. Quando o temor de Deus desaparece, nenhuma outra autoridade permanece suficiente para governar o coração humano. A história confirma: leis humanas não conseguem conter paixões libertas da consciência.
A Revolução Francesa revelou o que acontece quando a sociedade perde o senso de responsabilidade diante de Deus. O que começou como clamor por justiça terminou em sede de vingança. Os oprimidos tornaram-se opressores, repetindo com ainda mais crueldade as práticas que antes condenavam. Sem a lei divina como referência, a liberdade degenerou em licenciosidade, e a igualdade se transformou em nivelamento pela morte. O reinado do terror foi a colheita amarga de séculos de desprezo pela verdade.
Nesse cenário, o grande conflito se mostra em sua face mais sombria. Satanás não precisa apenas perseguir a Bíblia; basta convencer o homem de que pode viver sem ela. Primeiro ele a distorce, depois a desacredita, e por fim a remove. Quando a Palavra é retirada, o caráter de Deus é esquecido, e o homem passa a atribuir ao Criador as consequências do pecado humano. Assim, Deus é acusado pelos males que surgem exatamente quando Sua lei é rejeitada.
Ainda assim, o texto não termina em derrota. As testemunhas não permanecem mortas. A Palavra de Deus, desprezada e queimada, levanta-se novamente com poder renovado. Após o colapso moral, surge o reconhecimento de que não há fundamento seguro fora da revelação divina. A Bíblia ressurge não como instrumento de tirania, mas como âncora de moralidade, liberdade e esperança. Onde antes reinou o silêncio, a voz da Escritura volta a ser ouvida com reverência.
A lição permanece atual e pessoal. A verdadeira liberdade não existe fora da vontade de Deus. A lei divina não escraviza; ela protege. O evangelho não oprime; ele restaura. Quando o ser humano rejeita essa ordem, não se torna autônomo, mas vulnerável. O grande conflito continua sempre que a Palavra é substituída pela razão humana, e a vitória de Deus se manifesta sempre que corações humildes escolhem viver sob a autoridade amorosa da verdade.
Prisioneiro em Cristo — Reflexões do Cárcere
